Capítulo 16

971 Palavras
*Elisa* Apesar de todo o receio de Jamaica em levar Bea ao hospital, no fim das contas não foi tão difícil conseguir atendimento para ela. Depois que Jamaica voltou com o termômetro, ela constatou que a menina estava com trinta e nove de febre e bastou isso para aquela urgência no seu peito tomar o controle da situação. Levaria Bea ao médico e só sossegaria quando a menina estivesse bem, depois disso, talvez, se preocupasse em como vinha se envolvendo demais naquela história. Sem perder tempo, ajudou Jamaica a arrumar a bolsa da bebê e foi junto com os dois para o hospital. Apesar de estar nervosa com a situação, ainda mais levando em conta quantas vezes ouvira sua mãe falar sobre os perigos de crianças sofrerem convulsões por febres altas demais, Lis se forçou a parecer calma. Ao seu lado, Jamaica olhava para a pista como se ela fosse uma inimiga a ser vencida, e a última coisa que precisava era deixá-lo mais nervoso com o seu próprio estado de preocupação. Pareceu levar tempo demais até pararem em frente ao pronto socorro e Lis se apressar em levar a bebê para dentro. A recepcionista do local era tão apática e desinteressada quanto todas as outras que ela conheceu ao longo das vezes que precisou levar a mãe a emergência, o que só facilitou o processo de conseguir atendimento para Bea. Quando a mulher pediu os documentos para registrar o bebê no sistema, Lis fingiu vasculhar a bolsa, antes de fazer um pequeno teatro se mostrando surpresa e depois chateada por não achar os documentos. — Eu mandei você colocar na bolsa — esbravejou para Jamaica, torcendo para que ele entendesse o jogo e entrasse nele — Você só tinha uma tarefa, pegar os documentos enquanto eu arrumava a menina. E você não pegou! A recepcionista soltou um resmungo impaciente enquanto ele erguia as mãos. — Desculpa, amor, eu achei que você ia pegar... — Claro — ela o interrompeu — arrumar a bebê, a bolsa dela, trancar a casa. É claro que eu também tinha que ser a responsável por pegar os documentos. Tudo eu — ela se virou para a recepcionista — O que nós fazemos agora? — Sinto muito, mas preciso dos documentos para registrar a criança no sistema — a mulher rebateu com uma voz que ressaltava como não sentia nada, enquanto ajeitava os óculos no rosto magro — Você pode mandar ele voltar em casa para pegar... — Nós moramos do outro lado da cidade — Elisa exclamou, embalando Bea, que tinha começado a chorar — Ele vai levar mais de uma hora para chegar aqui. — Podem procurar um pronto socorro mais próximo da sua casa... — Acha que não tentamos? — ela deixou a voz se exaltar — Nenhum deles tinha pediatra! — Eu sinto muito — mais uma vez a voz da mulher contradizia a fala — Mas... — Minha filha está com trinta e nove e meio de febre — mentira, se Bea estivesse com uma temperatura tão elevada, ela já teria invadido o maldito hospital e caçado um médico sozinha — Ela precisa ser atendida. — E eu preciso que você libere a fila... — Eu não vou sair daqui com a minha filha queimando de febre — ela aumentou ainda mais o tom, Bea aumentou o choro, as pessoas na fila começaram a protestar sobre como aquilo era negligência da atendente, alguém disse que ia filmar aquele absurdo. A mulher atrás do balcão deixou a apatia de lado pela primeira vez e observou todas as pessoas revoltadas na fila. Lis aproveitou a hesitação dela para enfatizar: — Eu não saio daqui sem que minha filha seja atendida. Vai expulsar uma mãe com um bebê doente? Se ela tiver uma convulsão... — Acho que podemos fazer um pré-registro — a outra atendente, que até o momento se mantinha neutra a balbúrdia, interveio — Me informe seu nome. Elisa se esforçou para manter a pose de mãe indignada, quando na verdade queria suspirar de alívio. Não tinha muita ideia do que faria caso o plano desse errado e a recepcionista chamasse os seguranças para arrancá-la da fila. — Elisa da Silva Prazeres — respondeu, alternando a atenção entre a mulher e Bea, que ainda berrava nos seus braços. Ao seu redor, as pessoas só faltavam aplaudir a recepcionista por finalmente atendê-la. — Qual o nome da criança? — Beatriz Prazeres de Souza — o nome saiu sem hesitação, no entanto, uma parte sua fez questão de enfatizar como havia dado a Bea, de forma tão natural, um sobrenome que era a mistura do seu com o de Jamaica. Aquilo seria outra coisa que deixaria para pensar depois, ou talvez apenas ignorasse. Não era nada demais. A recepcionista continuou com perguntas básicas, como idade da bebê e os sintomas que sentia. Lis respondeu tudo com a maior firmeza possível e só voltou a respirar normalmente quando a mulher disse que podia sentar para esperar até que a triagem chamasse. — Deixa eu segurar ela um pouco para você descansar — Jamaica pediu quando se aproximaram das cadeiras de espera. Elisa entregou a menina, mas ao invés de sentar para descansar, começou a vagar de um lado para o outro. Bea ainda estava tão quente, e aquele choro parecia tão sofrido... — Você foi incrível — a voz de Jamaica a puxou para longe dos pensamentos tomados de preocupação — Obrigado, Lizzie, de verdade. A gratidão, e mais alguma coisa não identificável, que brilhava nos olhos dele, fez ela desviar a atenção antes de assentir e murmurar que não foi nada. Mas a verdade é que faria tudo de novo e muito mais por Bea e por ele, mas ainda não estava pronta para admitir isso para si mesma, muito menos para ele.
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