*Jamaica*
Caralho, ela não tava grávida. Não que fosse um problema se ela estivesse, uma criança é uma benção em qualquer situação, fora que seria uma criança da Lizzie. Mas eu sabia que isso ia devastar ela, por esse motivo tava todo tenso com a ideia dos testes darem positivo.
Estava brincando e zoando com ela, mas minha mão tremia enquanto segurava aqueles palitinhos. Qual é, a p***a da minha mão não tremia nem em meio de fogo cruzado com alemão, mas pra saber de algo que podia arrasar a mina que eu amava, virava uma gelatina.
E eu não vou mentir, alívio puro me tomou quando vi os quatro testes com uma listra só.
— Ah, meu Deus — todo o fôlego dela saiu junto com as palavras — Negativo.
— Isso aí, negativo...
Antes que eu pudesse me preparar, a Lizzie tava pulando no meu colo, os braços quase me esmagando, o rosto afundado no meu pescoço.
E ela começou a chorar de novo.
— Obrigada, obrigada, obrigada, obrigada...
Nem sabia se ela estava agradecendo a mim, a vida ou a Deus. Só sei que apertei ela de volta no abraço e consegui respirar direito pela primeira vez desde que ela apareceu na minha porta ontem a noite.
Mas é claro que a explosão de contato físico não durou muito. Do nada o corpo dela ficou tenso, ela desceu e se afastou.
— Desculpa, eu só... Fiquei feliz.
— Relaxa, eu entendo — e entendia mesmo, tanto que tinha um sorriso grudado na minha boca.
Caímos em um silêncio estranho depois disso. Como se depois de resolver aquela questão, não tivesse mais nada que a gente pudesse compartilhar.
Eu fui o primeiro a desviar o olhar. Não por causa do silêncio em si, mas porque, p***a, depois do susto, meu cérebro voltou rapidinho a me lembrar como ela tava usando só uma camiseta minha. Sem julgamentos, beleza? Meus olhos sempre funcionaram muito bem e a Lizzie era linda até quando tava surtando. Qual é, eu era um apaixonado em reabilitação, ainda não tava apto para ver um paraíso daqueles sem me abalar.
— Bora comer alguma coisa? — disse, já me virando. Só que ela me parou.
— Não precisa ter ranço de mim, eu não tô grávida — a voz era baixa, nada parecido com o tom que ela sempre usava — Quer dizer, você tem todo o direito, mas se ainda quiser que eu fique com a Bea, não acho que agir assim vá ajudar a criar um clima legal.
— De que merda você tá falando? — voltei a olhar pra ela e dessa vez meu olhar nem vacilou pro resto do corpo destacado pela minha camiseta — De onde é que você tirou essa parada?
— Você disfarça muito m*l, Tiago — o tom era de desdém, mas o olhar era de quem realmente se importava — Nem conseguiu olhar pra mim desde que eu falei que podia tá grávida.
— Só pode ser brincadeira — continuei encarando ela, esperando que realmente fosse uma piada. Mas não. A maluca deu de ombros.
— Eu entendo, sabe? Mas se tiver mesmo te incomodando eu acho me...
— Não parei de te olhar depois que você me falou da gravidez — interrompi — Parei de te olhar depois que você tirou a roupa e vestiu minha camiseta. Não é ranço, Elisa, eu só tô evitando te fazer surtar caso eu deixe transparecer tudo o que me dá vontade de fazer com você usando só a p***a da minha camiseta.
Pronto, agora tava tudo esclarecido. Os olhos dela se arregalaram de leve.
— Ah — ela balbuciou, os lábios meio abertos, o olhar ainda fixo nos meu.
— É, ah define muito bem — me virei de costas de novo — agora bora comer alguma coisa.
E por incrível que pareça, ela me seguiu sem fazer qualquer comentário para me repreender ou deixar claro como eu nunca teria nada com ela e blá blá blá.
Levou mais tempo do que o esperado pra eu conseguir sentar e comer alguma coisa. A Bea, que até aquele momento estava se comportando feito um anjinho, resolveu abrir o berreiro assim que eu coloquei café no meu copo. Então larguei tudo e fui cuidar da pequena. Quando voltei pra mesa, a Lizzie ainda mexia no pão do mesmo jeito que fazia quando eu deixei ela na mesa e fui ver a bebê.
— Beleza, não precisa começar a surtar — já fui logo dizendo. Conhecia aquela doida há tempo o bastante pra saber que tava pensando um monte de besteira enquanto encarava o pão — Fala logo o que você tá pensando.
— Achei que tivesse superado a historinha de ser a fim de mim — o tom já era todo defensivo. Me encostei na cadeira e sorri.
— Superei, só que isso não me deixou cego, Lizzie. Qual é, você é gostosa e tá vestindo só uma blusa minha. Eu não disse que tô a fim de você, ou que te amo — o que, vejam só, era a p***a da verdade — Só tô dizendo que homem tem duas cabeças e essa blusa em você me faz pensar com a cabeça errada.
— Ah, meu Deus — ela desviou o olhar para o pão, mas tinha um sorrisinho querendo escapar — Quando é que você ficou tão indecente?
— Quando é que eu não fui indecente? Você que tá fresca demais ultimamente.
— i****a.
— Gostosa — a palavra m*l tinha escapado e eu já tava desviando do pedaço de pão voando na minha direção. A risada que me escapou quase conseguiu abafar a pontada de dor no meu peito — Eu quis dizer fresca.
— Sei.
A gente terminou de comer naquela paz que eu ainda achava rara e que me fazia entrar em um modo de “não estrague tudo”, o que só batia de frente com minha outra parte decidida a deixar a Lizzie pra trás.
Ela já tinha trocado de roupa e dito que ia embora, quando a Dandara chegou. E é claro que a Lizzie aproveitou a deixa pra dar o fora de vez.
— Obrigada de novo — ela disse quando a gente já estava quase na porta.
— Não tem que ficar agradecendo, fresquinha — interrompi os passos para falar antes de abrir a porta pra Dandara — Se tiver mais alguma daquelas crises, fala comigo. Lembra que eu tô aqui, beleza?
— Não vou ter mais crises. Sei que não estou grávida, não tem porque entrar em pânico de novo.
— Beleza.
Foi ela quem quebrou o contato visual, provavelmente se não fizesse isso, a gente ia continuar se encarando pelo resto da manhã. E provavelmente eu nem ia lembrar que a Dandara estava esperando do outro lado da porta.
Pois é, nessa coisa de superação e tudo mais, eu era um grande perdedor.