Capítulo 25

1285 Palavras
*Elisa* Na manhã seguinte, Elisa não queria acordar. Não sabia quantas horas havia conseguido dormir, mas tinha caído no sono com uma velocidade surpreendente, dado o cenário. Na noite anterior, depois de concordar com a ideia de fazer os testes de manhã, e depois de conseguir parar de chorar como uma descontrolada, ela seguiu Jamaica à contra gosto até o quarto, onde ele a deixou pra trocar de roupa. A última vez em que ela havia vestido algo dele tinha sido há uma década atrás, quando Jamaica “acidentalmente” molhou sua roupa no meio de uma brincadeira. Vestir a roupa dele depois de tantos anos foi... esquisito. Parecia íntimo demais, algo que não deveria existir depois de todo o tempo de afastamento entre eles. O problema é que Jamaica não a deixaria em paz caso ela não se livrasse das roupas molhadas, então ela decidiu ser prática. Tinha três alternativas: usar uma roupa dele e passar a noite ali, ou voltar para casa e correr o enorme risco de assustar a mãe, ou perambular pelas ruas do morro e correr um risco maior ainda de virar tema de fofoca e acabar assustando a mãe da mesma forma. No fim, se viu usando uma das camisetas sem mangas dele e não sentindo aquele cheiro bom que as roupas dele tinham. Quando voltou para sala, apenas para avisar que já tinha terminado, ele não a encarou. Na verdade, Jamaica evitou olhá-la durante o resto do tempo em que interagiram, incrivelmente aquilo fez com que ela sentisse vontade de se afastar por motivos diferentes dos que vinha tendo nos últimos anos. Será que ele sente repulsa de mim? O pensamento se infiltrou na sua mente antes que pudesse impedir. Mas a verdade é que, para Elisa, aquilo faria sentido. Quer dizer, não bastava dormir com o x-9, ela podia estar grá... Elisa interrompeu o pensamento. Continuou bloqueando qualquer tipo de menção àquele assunto pelo resto da noite, enquanto era obrigada a comer algo que Jamaica preparou e depois enquanto tentava negociar com ele sobre como era mais lógico que ela dormisse no sofá. Ela dormiu na cama. Terminou cedendo a isso assim como cedeu às roupas secas e a comida que ele lhe deu. Tentou se convencer de que vinha cedendo tanto por estar cansada demais, e não porque sempre que ela se recusava, ele se aproximava e a olhava nos olhos de uma forma que a deixava meio... Atordoada. E agora estava acordada, porém, de olhos fechados. Ouviu quando Bea despertou, ouviu quando Jamaica a levou para sala. Ouviu toda a movimentação na cozinha. Elisa sabia que ele já havia preparado tudo, inclusive um café-da-manhã. Sabia que Bea já havia tomado banho. Também sabia que Jamaica tinha noção que estava acordada. Mas ela continuava de olhos fechados, fingindo que ainda não tinha voltado para aquela maldita realidade. E permaneceu assim mesmo depois de ouvir o barulho das rodinhas do carrinho de Bea se afastando e a porta da frente se abrindo e se fechando. Talvez devesse aproveitar a deixa para levantar e, como Jamaica gostava de dizer, fugir como sempre fugia. Não fez isso. Infelizmente, dessa vez não adiantaria fugir. Sendo assim, continuou deitada, recitando para si mesma um poema i****a que Camila amava e que a fez gravar de tanto ouvir contra sua vontade. Independente da falta de qualidade do poema, ele era o suficiente para manter sua mente longe de gatilhos. Não demorou para a porta da frente fazer barulho novamente, logo depois ela ouviu os passos de Jamaica no quarto. — Comprei os testes — ele disse, jogando uma sacola sobre a cama — Vamos lá, Lizzie, tá na hora de encarar a realidade. — Acho que não quero encarar a realidade ainda — ela se sentou na cama, mantendo o foco do olhar no lençol que a cobria. — Beleza, então faz os testes e me dá que eu encaro para você. E relaxa, eu só te digo o resultado se for negativo. — Ah, genial. Porque eu não vou saber que é positivo caso você não diga nada — rebateu, finalmente o encarando. — Pelo menos não vai precisar ouvir — o sorrisinho provocador estava lá, no canto dos lábios dele, o que era quase um pecado dado o horário e o contexto catastrófico daquela situação. Mas Jamaica sempre foi assim, não importava a gravidade do assunto, ele sempre exalava aquela leveza irritante. — Deixa de ser palhaço. — Só se você deixar de ser fujona — ele pegou a sacola com os testes e lhe estendeu a outra mão — Bora? Assim que Elisa segurou a mão dele e jogou as pernas para fora da cama, o olhar dele se desviou. Ela se retraiu. Ok, havia se esquecido da possibilidade da repulsa. Isso quase lhe fez voltar atrás e ignorar os testes, só que não adiantaria, certo? Fazer ou não fazer os testes não mudaria o resultado daquela história. — Vamos nessa. *** — Só pra garantir que eu entendi certo — a voz de Jamaica estava abafada pela porta enquanto ele permanecia do lado de fora do banheiro — Um tracinho não tem bebê, dois tracinhos tem bebê? — É, exatamente assim — as mãos dela tremiam enquanto terminava de mergulhar o último teste na urina. Jamaica havia comprado quatro deles, cada um de uma marca diferente. Um deles até prometia indicar um tempo estimado de gravidez. Apenas olhar para os palitinhos já a deixava enjoada, por isso ela parou de encará-los. Manteve a atenção na tela do celular de Jamaica, que marcava os minutos restante para tirar os testes do potinho. Quando o tempo acabou, de olhos fechados, Elisa tateou os testes, os tirou do pote, abriu a porta e estendeu a mão para Jamaica pegá-los. — Cuidado, eu fiz xixi nessas coisas — avisou ainda sem encarar o que fazia. Quando sentiu os testes serem retirados da sua mão, voltou a fechar a porta e recomeçou a repetir o poema péssimo de Camila. Não podia surtar naquele momento. — Depois você diz que eu não faço nada por você — a voz de Jamaica soou do outro lado — Até em xixi eu já peguei. — Aposto que já pegou em coisa piores — ela encostou na porta, o coração batia tão rápido que doía. Engraçado como um monte de palitinhos comprados em uma farmácia podiam definir o quão catastrófico o futuro poderia ser. — Isso aí, quer que eu faça uma lista das piores coisas em que já toquei? Vamo começar pela... — Para de me enrolar — ela interrompeu — Já olhou o resultado? — Eu já posso olhar? — agora ele estava totalmente sério. O estômago dela revirou. — Não, espera. Se sentia ridícula. Logo ela, que sempre foi corajosa e racional, agora estava ali, morrendo de medo de um resultado. Lis ainda lembrava como agiu quando Camila achou que estivesse grávida, vários meses atrás. A própria Elisa tinha ido com a amiga comprar um teste, ela tinha arrastado Camila para o banheiro da faculdade e lhe incentivado a fazer o teste. Bom, agora ela finalmente entendia todo o pavor e hesitação de Camila na ocasião. — Quer saber, pode olhar — decidiu, afinal, o que estava fazendo? Não era medrosa, muito menos irracional. E o maldito Grego não mudaria isso depois de já estar à sete palmos do chão. O silêncio que se seguiu durou poucos segundos, mas para ela foi como uma eternidade. — Tiago? — chamou, a voz falhando, a explosão de coragem indo embora. — Vem aqui — ele abriu a porta devagar — Olha você mesma. E então ele ergueu os quatro testes na sua direção.
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