*Elisa*
Elisa não fugiu. Ainda que boa parte da sua racionalidade gritasse para dar meia volta e sumir antes que Jamaica voltasse, ela não fugiu. Não tinha força para isso. Fugiu dele por tanto tempo, e agora tinha tantas coisas das quais fugir, que parecia não ter mais forças para nada.
O mais irônico daquela história, no entanto, era ter ido parar na casa dele, nos braços dele, quando tudo ruiu a sua volta.
Ela não saberia explicar como chegou até ali, estava no quarto quando mais uma daquelas crises aconteceu, só que dessa vez foi pior, mais forte, assustadoramente real. Achou que fosse gritar, chorar, morrer sufocada. Só precisava passar por isso longe da mãe, em um lugar onde não houvesse possibilidade de assustar Luísa e causar algum problema na sua saúde já frágil. Foi por isso que saiu de casa da forma mais calma que foi capaz de encenar.
Dar a volta nas ruas vizinhas era o plano. Mas então veio a chuva, os flashbacks, aquele medo gelado e irracional. E de repente estava andando mais e mais rápido, a chuva cada vez mais forte, a visão a cada segundo mais embaçada por lágrimas, os calafrios arrepiando seu corpo, o peito doendo como se fosse morrer a qualquer momento. Ela só continuou a caminhar, apenas manteve as pernas em movimento... Até que se viu na frente da casa de Jamaica. Batendo na porta dele.
Batendo na porta onde, no fundo, sempre quis bater em todas as vezes que algo deu catastroficamente errado ou maravilhosamente certo nos últimos dez anos...
— Aqui — a voz de Jamaica a fez sobressaltar. Ela piscou os olhos, se forçando a voltar para o presente. Quando aquelas crises aconteciam era difícil se manter totalmente firme na realidade, a mente sempre a transportava para outros lugares, lembranças, sensações, pensamentos... — Caramba, você tá tremendo. Vem aqui.
Ela não se moveu, permanecia presa nos esforços para respirar e não se perder na própria mente. Ainda estava confusa e estranhamente incapaz de se afastar, como provavelmente teria feito em qualquer situação normal.
— Deixa eu te secar.
Não foi um pedido. Ele já estava secando seus cabelos com uma das toalhas, enquanto ela notava que realmente tremia, pela forma como seus dentes batiam uns nos outros.
Respirar e expirar. Ela só precisava fazer isso. Respirar, expirar e manter a mente limpa por tempo o bastante para o pânico ir embora.
A voz de Jamaica ecoava ao seu redor, não que ela estivesse assimilando enquanto sentia a toalha retirar o excesso de água dos seus cabelos, dos braços e do rosto. Era como se ela estivesse ali, mas não estivesse de verdade.
Era assustador como vinha se tornando mais difícil voltar ao normal a cada uma daquelas crises.
Nas primeiras vezes era tomada apenas por uma leve sensação de ansiedade quando os pensamentos a levavam para as possibilidades e lembranças que a assombravam. E tudo aquilo começou com um gatilho muito bobo: uma conversa com Camila. Uma piada sobre ter filhos.
Na noite seguinte Lis teve um pesadelo: se via chorando, de costas, em um cemitério. Quando se aproximava, com aquela terrível sensação de estar vendo a si mesma e ao mesmo tempo sentindo a tristeza como se fosse real, notou que sua versão do sonho olhava para a lápide de Grego. Mesmo no sonho, Elisa sentiu raiva. Por que qualquer versão sua choraria por Grego?
Mas a raiva, a tristeza e qualquer sentimento de revolta foram substituídos por puro pavor, quando sua versão do sonho se virou e ela pôde ver que estava grávida.
O pavor foi tão intenso que ela acordou com falta de ar, levou segundos para voltar a realidade, para ter certeza que sua barriga não estava distendida como a de uma gestante. Quando se acalmou, foi coberta pelo alívio de aquilo ser só um sonho.
Só que o alívio não durou muito. Uma semana depois, uma paranoia havia se instalado na sua mente: e se estivesse grávida?
Elisa achava tão ridículo que uma possibilidade remota como aquela pudesse lhe apavorar. Mas a questão é que havia chance. Ela fazia sexo com Grego, havia feito sexo com ele na noite que antecedeu o atentado contra seu irmão e sua cunhada.
E se estivesse grávida? E se a camisinha estivesse estourado? E se a pílula falhasse? E se...
— Elisa — a entonação na voz de Jamaica indicava que não era a primeira vez que a chamava — Você tem que se acalmar. Olha para mim.
Ela seguiu a instrução. Ele tinha razão. Precisava se acalmar. Precisava sair daquele buraco n***o de pensamentos obsessivos. E por mais que odiasse admitir, havia redescoberto a pouco algo que ajudava a lhe trazer de volta a realidade: os olhos do ex-melhor amigo.
— Isso, respira — a voz dele era um eco suave, enquanto o foco dela se mantinha nos olhos. Íris castanhas, claras, lindas. As íris que encantaram Elisa desde que ela era uma garotinha de seis anos implicando com o novo vizinho — Isso aí. Vai ficar tudo bem.
Aquelas quatro palavras a inquietavam. Que mania i****a as pessoas tinham de ficar repetindo aquele mantra quando nem conheciam o problema dos outros. “Vai ficar tudo bem”, como se essa fosse a regra geral do universo.
— Quer tirar essa roupa? — os olhos dele se arregalaram levemente, o que fez Elisa voltar sua atenção mais uma vez para as palavras que ele dizia — Eu quis dizer, tirar porque estão molhadas...
— Eu entendi o que você quis dizer. Não preciso tirar nada, só preciso ir para casa.
Mas, contrariando suas palavras, permaneceu exatamente onde estava: perto demais dele, ainda olhando aqueles olhos bonitos.
— Não tô a fim de te assustar nem nada — ele ajeitou seus cabelos para trás da orelha, e o arrepio que Elisa sentiu foi certamente causado pelos fios molhados em contato com sua pele — Mas, c*****o, Lizzie, tu acha mesmo que eu vou te deixar ir antes de você me dizer que c*****o você pensa em fazer para melhorar? Se não quiser me contar o que tá rolando, beleza, mas, qual é, não tem a menor chance de eu continuar te deixando afundando nessa merda sozinha...
— Crises de pânico — ela interrompeu, o olhar ainda colado no dele, sua energia baixa demais para racionalizar porque ainda estava ali — Bom, segundo o Google, os sintomas são de crises de pânico.
— Caramba. Mas você nunca teve essas merdas. Isso é por causa do...
— Porque eu acho que posso estar grávida.
Como se uma bomba tivesse sido jogada na sala, Jamaica congelou naquele instante de silêncio antes da explosão, e então:
— Caralhoooo, você... Como assim... Quer dizer, hum, vai ficar tudo...
— Não termina essa maldita frase — ela deu um passo para trás. Ok, a crise de pânico havia passado — Não vai ficar tudo bem, isso aqui não é a Disney. E de qualquer forma, eu não devo estar grávida de verdade. Fiz dois testes de farmácia e eles deram negativo.
— Pera, acho que não entendi — ele franziu as sobrancelhas, um misto de medo, dúvida e alívio no olhar — Então você sabe que não tá grávida, mas tá tendo crise de pânico porque tem medo de estar grávida?
— Eu sei, não faz sentido — ela deu mais um passo para longe, apertou os lábios — Mas e se for um falso negativo? Eu fiz os testes logo quando as crises começaram, era muito recente para... Quer dizer, a minha menstruação está atrasada. E se for um falso negativo?
Silêncio. Jamaica a olhava como se precisasse calcular cada palavra que fosse dizer a seguir. Elisa suspirou.
— Será que você pode não contar isso a ninguém?
— Por que eu contaria isso a alguém?
Ela deu de ombros.
— Ok, obrigada pela... Toalha. E por me ouvir. Eu... Tô indo nessa.
— E vai fazer o quê depois? — ele a segurou pela mão, interrompendo seus passos — Vai fugir toda vez que entrar em pânico?
— É, vou fazer exatamente isso — ela se soltou. É claro que ter ido até ali não foi uma boa ideia.
— Não pode fugir pra sempre...
— O que eu não posso é assustar a minha mãe —ela interrompeu, toda histeria de antes contribuindo para uma raiva despropositada, afinal, ela sabia que não tinha motivo para implicar com ele, sabia que ele estava certo.
— Você precisa descobrir se está grávida ou não — o tom dele era tão ameno, tão calculado, que a irritou um pouco mais — Vamos lá, Lizzie. Você sabe que eu estou certo.
— Eu... — a voz dela embargou novamente, as palavras que usaria para rebater, se perderam no meio do caminho, enquanto era tomada de novo por uma incontrolável vontade de choraf. Estava um caos de sentimentos ultimamente — Não consigo. Não posso fazer isso, se der positivo... Eu só...
Mais lágrimas surgiram para embaçar sua visão. E mais uma vez ela foi parar nos braços de Jamaica sem protestar.
— Vamos fazer o teste, beleza? — os dedos dele se infiltraram nos cabelos dela, fazendo Elisa, que se sentia mais cansada do que em qualquer outro dia, fechar os olhos — Vou ligar para a tia Luísa e dizer que precisei da sua ajuda com a Bea. Amanhã de manhã a gente compra o teste e você faz. Beleza? — ela começou a negar. Não queria mesmo ver o resultado do tal teste, mas ele a apertou contra o peito e continuou — Eu tô com você Lizzie, independente do resultado, você não tá sozinha.
E então Elisa descobriu uma coisa capaz de fazê-la chorar com ainda mais intensidade.