Capítulo 23

1194 Palavras
*Jamaica* Lis só pareceu notar onde estava quando ergueu o olhar para mim. Ela arregalou os olhos, o corpo tremendo enquanto recuava um passo. — Eu não... — O que aconteceu? — falei ao mesmo tempo que ela. Cara, meu coração estava disparado no peito e tudo o que eu mais queria era acabar com a distância entre a gente e abraçar ela — Lizzie? — Desculpa, eu não sei porque estou aqui — antes de terminar a fala, ela já tava se virando para ir embora. Na real, por mais que eu quisesse respeitar o espaço dela, não havia nada nesse mundo que fosse capaz de me obrigar a me afastar antes de saber que p***a estava acontecendo. — Você só pode tá louca se acha que vou te deixar sair daqui assim — deixei a proteção da minha casa para trás e fui atrás dela. Não vou mentir, achei que fosse precisar lutar uma batalha para convence-la a desistir de se afastar, mas para minha surpresa, ela cedeu e se virou na minha direção no segundo seguinte. —Eu não consigo respirar. Era estranho como quatro palavras podiam explodir meu mundo, ou talvez não fossem as palavras, mas o desespero na voz da Lizzie, o que fez o aperto no meu peito se intensificar. Eu sabia que ela não estava bem, nem precisaria dos nossos anos de amizade para chegar a essa conclusão, bastava observar a Lis nos últimos dias para ver como fingia lidar bem com algo que no fundo não conseguia nem assumir que aconteceu. E agora ela tinha explodido de vez. O corpo tremia, as lágrimas se misturavam com a chuva, mas o medo e a bagunça no olhar dela eram o mais preocupante. Àquela altura eu já estava todo encharcado pela chuva que caía sobre a gente, o problema é que eu não me importava, era como se a única coisa que existisse no mundo naquele instante, fosse a Lis se perdendo na minha frente. — Calma, tá tudo bem. Vai ficar tudo bem... — Não, não vai — ela interrompeu, a voz por um fio — Não vai ficar tudo bem e eu não sei mais o que fazer. Não consigo mais lidar com isso. Não posso assustar minha mãe. Mas é como se eu fosse surtar a qualquer momento e às vezes eu só quero gritar e às vezes eu só... Eu só não consigo. Não consigo respirar, não consigo respirar. Não consigo... — Ei, olha para mim — segurei o rosto dela entre as mãos, mantendo minha voz calma, como se cada pedaço meu não estivesse apavorado com o estado dela — Você consegue. Você está respirando. Você sabe que está respirando — Ela tentou protestar mas mantive o rosto preso entre as minhas mãos — Olha pra mim, Elisa. Então ela obedeceu, fixou o olhar no meu como se fosse achar a própria salvação lá dentro. — Respira comigo — nos segundos seguintes, nenhum de nós conseguiu desviar o olhar, e quando a Lizzie finalmente voltou a respirar regularmente, ela desabou em lagrimas. E é claro que eu a segurei por todo o tempo que levou enquanto ela afundava novamente o rosto no meu peito e chorava com o corpo tremendo. Metade de mim estava afogada em dor por ver o estado dela. A outra metade queria acabar com o filho da p**a que fez minha Lizzie sofrer daquele jeito, mesmo sabendo que era impossível, afinal, o filho da mãe já estava morto. Talvez eu fosse mijar na cova do desgraçado, isso assim que garantisse que a Lizzie estava bem. — Desculpa — ela murmurou minutos depois, quando nós dois já estávamos encharcados. — Não tem porque se desculpar — voltei a segurar o rosto dela entre as mãos, talvez para consola-la, talvez por medo dela fugir antes que pudesse deter — Você não fez nada de errado... — Eu não devia ter vindo aqui — ela desviou o olhar para o meu peito, mordeu a boca. Por mais que eu estivesse segurando ela, por mais que tivesse apenas poucos centímetros entre a gente, eu ainda me sentia impotente, como se houvesse a p***a de um oceano nos separando — Eu só... Precisava sair de casa antes que minha mãe percebesse como eu estava. Fiquei com medo dela vir me dar boa noite porque... Dessa vez foi pior. Eu simplesmente não consigo mais controlar. — O que foi pior dessa vez? — não queria assustar ela ou piorar a situação, sério mesmo, mas não deu pra disfarçar a preocupação na minha voz. — Não sei, é... — ela hesitou, como se ainda não tivesse certeza se podia confiar em mim, se podia compartilhar o que estava passando. — Elisa — repreendi, meu tom deixando claro que não tinha a menor possibilidade dela me deixar de fora daquela vez. Provavelmente ela viu isso no meu olhar, porque assim que a gente fez contato visual, ela suspirou antes de explicar: — Não sei. Às vezes eu só... É como se eu estivesse ansiosa e com medo e tonta e como se não tivesse ar o bastante . Normalmente eu consigo me controlar, mas dessa vez.. Foi como se eu não conseguisse respirar e meu peito — ela levou a mão pra lá, massageando com força — Dói, Tiago. Isso dói tanto. Bom, eu podia imaginar, se em mim já estava doendo, mesmo não sendo nada que me atingisse diretamente... — Tudo bem... — a sensação de não saber como ajudar parecia prestes a esmagar meu peito, sério mesmo. E ficou pior quando os olhos dela continuaram focados nos seus, como se ainda tivesse alguma parte da Lis do passado ali, da Lis que sempre me procurava para enfrentar os maus momentos. Que confiava em mim — Que tal a gente entrar? Apesar da pergunta, não esperei resposta, segurei ela pela mão com firmeza o bastante para mostrar que não deixaria escapar, e entrei, sem dar importância a como nossas roupas pingavam água no chão. — Vou pegar uma toalha para você, me espera aqui, ok? — Eu só preciso de alguns minutos, assim que estiver melhor eu volto para casa, posso dizer que saí para comprar algo para a dor de cabeça e acabei pegando chuva... — Primeiro a gente te seca, depois a gente pensa no resto — interrompi — Me espera. — Não vou fugir — ela tentou sorrir, mas tudo o que conseguiu foi um leve curvar dos lábios que não refletiu no olhar. Tive que conter o impulso de contestar, de lembrar a ela todas as vezes que fugiu de mim nos últimos anos, mesmo quando não tinha motivo nenhum para isso. Mas na real, nada daquilo importava. Que o passado se explodisse, eu tinha uma Lizzie perdida e encharcada no meio da minha sala e nada naquele momento era mais urgente que garantir que ela ficasse melhor. — Já volto — ainda hesitei mais um segundo antes de beijar a testa dela e me afastar. Afinal, se tinha algo que eu havia aprendido nos últimos anos, é que quando a Lizzie queria fugir, ela fugia e ninguém era capaz de impedir.
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