*Jamaica*
Na semana seguinte eu passava a maior parte do tempo me sentindo um babaca porque, apesar de gostar da Dandara e saber que ela cuidava bem pra caramba da minha filha, não tinha um dia em que eu não fosse pego por uma sensação de ansiedade pelo dia em que a Lizzie voltaria a assumir o lugar de babá.
Pois é, a Índia estava certa, eu era um caso perdido.
Mas, sério, depois de toda a evolução que eu e a Lizzie tivemos em duas semanas, eu tinha até receio de ela se afastar de novo depois de passar esses dias longe. Fora que eu conhecia a Lizzie, sabia como ela tinha mania de fugir dos próprios problemas transferindo atenção para outras coisas, e eu sabia que dessa vez estava se concentrando na Bea para fugir da própria mente, mesmo que nem ela mesma se desse conta disso.
Por mais que eu devesse manter distância para conseguir superar o que sentia por ela, não havia uma parte em mim disposta a me afastar agora, pelo menos não enquanto eu sabia que ficar com a Bea ajudava a superar todas as merdas que ela viveu no ano passado.
Se dependesse de mim, ia fazer de tudo para ela ficar bem de novo, e se meu coração sofresse no processo, bem, não teria problema, ele já estava acostumado.
Já era sexta-feira, o que queria dizer que faziam seis dias desde a noite do baile e da manhã em que a Lis acordou na minha cama. Seis dias sem que ela entrasse em contato, não que eu esperasse uma ligação ou mensagem, é só que, sei lá, achei que pelo menos fosse vir visitar a Bea, mas não, era como se mais uma vez ela tivesse sumido, e eu podia apostar que tinha passado a semana toda no quarto evitando a realidade. Cara, isso estava me deixando preocupado pra c*****o. O problema de pessoas como a Lizzie, que se mantém firme e se fazem de inabalável o tempo todo, é que elas sempre acumulam coisa demais, e aí quando a barreira se rompe por qualquer motivo que seja, a explosão emocional é muito pior do que seria se elas expressassem o que sentem normalmente.
E a pior parte é que eu não podia fazer nada. Não dava para aparecer na casa da tia Luísa e chamar a Lizzie pra fazer alguma coisa para se distrair porque do jeito que ela era desconfiada, ia achar que eu estava querendo algo a mais e se afastar de mim. Também não dava para sentar com ela e ter uma conversa franca, já que o orgulho enorme jamais permitiria admitir que estava m*l com o que aconteceu. A única coisa que eu podia fazer era esperar e ficar aqui, disponível caso ela surtasse e precisasse de mim, o que eu realmente duvidava que fosse acontecer. Era mais fácil ela pedir ajuda para qualquer pessoa do morro antes de me deixar chegar tão perto. Eu não era i****a, sabia que a proximidade dos últimos dias tinha mais a ver com a Bea do que comigo. Se não fosse a minha filha rachando a armadura da Lizzie? Com certeza nossa situação estaria tão r**m quanto esteve nos últimos anos.
Não que eu devesse estar pensando nisso de novo.
Tentei me concentrar na mamadeira que estava preparando para a Bea, mas era difícil tirar a Lis da minha mente. Ficou ainda pior nessa manhã, quando eu descobri, depois de praticamente forçar o Baroni a falar, que ela tá cada vez pior. A dona Luísa tinha ligado para ele e no meio da conversa tinha deixado escapar que não sabia mais o que fazer, que durante a semana a Lis começou a se isolar ainda mais, que passa mais da metade do dia no quarto e não come quase nada, mas sempre que a mãe pergunta se ela está bem, ela força um sorriso e diz que está ótima.
Eu me sinto tão impotente por não poder fazer absolutamente nada para ajudar. Se ao menos ainda fôssemos amigos, eu iria lá e arrancava ela daquele quarto, descobriria o que estava acontecendo e ajudaria a superar. Mas agora? Tudo o que eu podia fazer era esperar e rezar para a Lis ficar bem e, se possível, para deixar eu me aproximar apenas o bastante para tentar ajudar.
Outra coisa que eu precisava fazer era dar um jeito de parar a Pat, sério mesmo, ela encheu minha mente a semana toda com a história da Dandara, e eu nem precisava ligar pra conversa dela, se isso não ficasse fazendo minha mente pensar nos “e se”. Quer dizer, a Dandara era legal, bonita e me tratava muito bem. Eu não queria ser um babaca de sair com ela gostando de outra pessoa, mas eu precisava começar de algum lugar, certo? Se fosse esperar o dia em que deixasse de gostar da Lis, ia acabar velho e sozinho. Fora que não havia a menor chance de ter algo com a Lis, isso era algo que eu vinha aceitando cada dia mais. Não era brincadeira quando eu dizia que preferia a amizade dela, mesmo que isso enterrasse de vez qualquer fantasia de romance que eu tinha.
E foi pensando nisso que eu falei com a Índia sobre Dandara. Se era para começar, era melhor pegar alguns conselhos com alguém que tivesse alguma noção do que fazer, de preferência alguém que não fosse tão emocionada quanto a Pat. A Índia me mandou chamar a Dandara para sair, sem a Bea, para ela entender que não era como babá. E, cara, isso estava me dando um nervoso muito bobo, porque a verdade é que eu nunca precisei pensar tanto antes de chamar uma mina para sair. Na adolescência as coisas só aconteciam, e depois que entrei pro movimento a maioria das minas brotava no baile e ia parar na minha cama. Nunca cheguei na parte do chamar pra sair e pensar em um encontro. E como é que eu ia saber do que a Dandara gostaria em um encontro?
Era nessas horas que eu pensava em desistir da ideia. Só que não dava para desistir. Eu tinha que seguir em frente, não só por mim ou pela Bea, mas também pela esperança de ter alguma amizade com a Lizzie, ela ficaria mais tranquila se visse que eu não quero mesmo nada com ela...
Interrompi os pensamentos mais uma vez quando ouvi batidas na minha porta. Eu nem precisava olhar para o relógio para saber que era tarde demais para qualquer pessoa que eu conheço estar batendo ali. Sinceramente, eu mesmo já devia ter ido dormir, só tinha parado para preparar a mamadeira da Bea antes, para o caso dela acordar de madrugada.
O relógio me dizia que eram quase uma hora da manhã, e ainda tinha a chuva caindo do lado de fora, não tinha porque alguém está batendo na minha porta agora, por isso eu peguei minha pistola antes de ir abrir...
E fiquei paralisado quando vi que quem estava do lado de fora, encharcada e abraçando o próprio corpo, era a Lizzie.