*Elisa*
A claridade do sol fez Elisa apertar os olhos e se virar na cama, estava prestes a protestar quando lembrou que seu quarto não tinha janelas, não havia como entrar claridade do sol nele... Então, onde ela estava?
Ergueu a cabeça, apoiando o peso do corpo nos cotovelos, e olhou ao redor um tanto apavorada. Se houvesse dormido com um desconhecido novamente sem se dar conta...
Mas não. Reconheceu o quarto de Jamaica assim que conseguiu focar a visão, no segundo seguinte o coração se acelerou por um novo motivo.
Por favor, esteja de roupa. Por favor, não tenha dormido com ele. Por favor...
Olhando para o próprio corpo, suspirou aliviada. Usava o mesmo vestido que usara para ir ao baile e, se estivesse sentindo certo, a calcinha também continuava no mesmo lugar.
Ela voltou a soltar o corpo na cama, sua cabeça latejava bem de leve, não o suficiente para chamar de dor, mas o bastante para lhe preocupar. Só precisava de mais alguns minutos, pensou, enquanto rolava na cama e enfiava o rosto no travesseiro para evitar a claridade.
Não foi voluntariamente que inspirou o cheiro do travesseiro, nem na primeira, nem na segunda vez. A fronha estava impregnada com o cheiro de Jamaica, não só do perfume, mas também o cheiro que era só dele, aquele que na adolescência a fazia usar camisetas dele apenas para ter a sensação de...
— O que é que você tá fazendo? — a voz dele a fez congelar no meio de uma terceira inspiração longa. Seu coração disparou exatamente como o de alguém pego no flagra. Céus, tinha mesmo passado os últimos segundos cheirando o travesseiro dele? — Lizzie?
— Ressaca — murmurou enquanto se virava na cama — Estava tentando me esconder da ressaca.
— Sei — ele alongou a palavra, o olhar descendo por seu corpo devagar. Foi estranho, já que praticamente sentiu o contato na sua pele, nos s***s, na barriga, nas cochas e depois através do caminho inverso. Quando o olhar dele voltou a encontrar o seu, foi a sua vez de indagar:
— O que você está fazendo?
Ela já estava pronta para entrar na defensiva de novo, quando ele sorriu despreocupado e deu de ombros.
— Foi m*l, não consegui evitar — ela continuou o observando, procurando qualquer sinal de alerta. Não viu nada. Ele parecia divertido com o “deslize” de olhá-la — Não é porque te quero como amiga que fiquei cego, né? E você tá na minha cama com um vestido todo encolhido. Só tava conferindo, você sabe, para o bem da sua honra.
— i****a — grunhiu quando ele começou a rir.
— Como se você já não soubesse disso — ele foi até o guarda-roupa, completamente despreocupado — Tá muito r**m a ressaca?
— Não, só uma dor de cabeça querendo aparecer — esticou os braços, tentando despertar de vez — E me sinto como se tivesse sido atropelada por alguém.
— Bom, você também tá com cara de quem foi atropela, só pra constar — ele zoou, voltando com uma tolha nos ombros — Vou tomar um banho pra ir buscar a Bea.
— Espera — sua voz o fez parar quando já estava na porta — Como... Como eu vim parar aqui?
— Não lembra? — Jamaica se virou para encara-la e por um instante ela teve a impressão de que buscava algo no seu olhar. Elisa negou devagar, normalmente levava algum tempo para lembrar do que fazia enquanto estava muito bêbada, isso quando lembrava — Você não queria que sua mãe te visse bêbada, então quando você apagou no carro, eu te trouxe para cá — ele voltou a se aproximar da porta — Já volto pra gente tomar café-da-manhã.
Ele estava escondendo alguma coisa, ela soube pelo modo esquivo com que saiu do quarto. Elisa respirou fundo e fechou os olhos, se esforçando para lembrar.
Aos poucos a memória retornou. Lembrou do pequeno surto onde discutiu com a própria mente sobre Jamaica, depois a dança com o carinha da mão boba, que ela dispensou quando começou a se irritar sozinha, depois as bebidas e... Ah, que droga, chamou o cara das bebidas de garçom?
Depois Jamaica e a Índia apareceram e... Elisa apertou os olhos. Merda, tinha dado tanta bandeira na noite passada. Um mini surto de ciúmes i****a. Por que não deixou ele com a Índia? Por que sempre perdia o controle quando bebia demais perto dele? Por que foi tão óbvia interrompendo os dois e pedindo para levá-la em casa? Por que...
Os questionamentos se esvaíram quando se lembrou do resto. Da carona de Jamaica e... Ah, minha nossa senhora das garotas perdidas. Havia tocado nele. Havia deslizado a mão por cada um dos gominhos que ele tinha na barriga. Havia contornado as malditas tatuagens dele. E, caramba, ele tinha um abdômen e tanto. Da última vez que o tocou de uma forma nem de longe tão ousada quanto aquela, Jamaica ainda era um adolescente magro com a barriga lisa. Mas agora... Bom, agora ele era um homem, com músculos e aquela barriga toda definida que ela só via de longe e nunca tinha imaginado ser tão...
— Voltei.
Ela saltou na cama com o som da voz dele, percebeu que encarava a mão que usou para alisá-lo na noite anterior e desviou o olhar depressa, com medo de ele adivinhar no que exatamente pensava segundos antes.
— Tá pronta pra ir? — Jamaica a observava com atenção. Elisa assentiu devagar — Você tá bem?
— Ótima — garantiu, decidindo que fingiria nunca ter lembrado do que aconteceu no carro na noite anterior, afinal, a culpa foi totalmente da bebida.
***
Quando chegaram na sua casa, torceu para que a mãe estivesse no quarto tirando uma soneca com Bea, ou talvez na área dos fundos mostrando o céu a menina... Mas é claro que com sua sorte, a mãe estava na sala, bem em frente a porta, assistindo bobagens na televisão. E é claro que a mãe abriu um sorriso todo cúmplice e satisfeito quando viu os dois chegarem juntos após passarem a noite fora.
Não era só Camila que fazia parte do time "Jamaica e Elisa", dona Luísa era uma das torcedoras mais antigas daquela história impossível.
Elisa até chegou a medir a distância entre a sala e seu quarto, imaginando se seria muito r**m simplesmente correr e se esconder lá.
— Oi, mamãe — se aproximou do sofá, dando um beijo em Luísa — Desculpe não avisar que não vinha para casa...
— Mas o Jamaica me avisou — sua mãe interrompeu, franzindo o cenho — Ele disse que você pediu para ele mandar mensagem porque seu celular descarregou, não foi isso?
— Foi — Lis se apressou em concordar — Estou me desculpando por não ter avisado eu mesma.
A mãe descartou sua fala com um gesto de mão.
— Ah, não tem problema. Você estava com ele, eu não tinha com que me preocupar — a mãe alternou o olhar de um para o outro — Se divertiram ontem a noite? — o sorrisinho que deu após a pergunta foi tão sutil quanto um elefante cego. Elisa quis gemer de frustração.
Bem, aquela era a hora em que devia dar o fora. Se havia algo que sua mãe gostava de fazer, era alcovitar os casais, o que normalmente não lhe incomodava, exceto quando o alvo eram ela e Jamaica.
— O baile foi maneiro — ou Jamaica não entendeu a insinuação da sua mãe, ou se fez de bobo — A gente se divertiu.
— Aposto que sim — Luísa deu mais uma risadinha que fez Elisa se encolher. Apostava que seu rosto estava vermelho, e nem era só por causa da vergonha do que a mãe fazia, mas porque aquilo só a fazia lembrar do carro, da sua mão se divertindo onde não devia.
— Vou tomar um banho — murmurou, sem se atrever a olhar na direção de Jamaica. Se tinha algo em que ele era bom, era em conhecer seus sinais, as chances dele sacar alguma coisa vendo seu rosto vermelho, eram enormes.
Levou muito mais tempo que o necessário no banho, a esperança era que Jamaica já houvesse ido embora quando voltasse para a sala. Mas ele não tinha ido, ao invés disso, estava na cozinha, ajudando Luísa a preparar a comida.
Elisa se forçou a agir com naturalidade. Há algumas semanas atrás, teria ficado emburrada e evitado o cômodo onde ele estava, mas agora que não estavam mais se estranhando por causa da história da paixão, não tinha motivo para evita-lo, não queria mesmo criar um clima estranho com ele. Se fosse sincera, admitiria que se reaproximar dele era... bom.
Não que isso significasse algo demais. É que no fundo, tirando as mentiras, a mágoa e tudo mais, Jamaica sempre foi uma boa companhia.
Ignorando como ele se destacava no meio da sua cozinha, ela foi até a geladeira buscar água. Estava bebendo em grandes goles quando a mãe voltou a se pronunciar.
— Chamei ele para almoçar com a gente, aposto que vocês precisam repor as energias.
A insinuação em um tom totalmente descarado fez Lis se engasgar sem motivo algum, ou talvez o motivo tenha sido a sequência de imagens que invadiu sua mente em um flash, todas elas envolvendo coisas que poderiam acontecer para gastar energia dentro do carro, caso Jamaica não tivesse lhe feito parar de tocá-lo. Elisa ficou perdida entre não se engasgar e não deixar os pensamentos descontrolados tomarem a sua mente. No meio disso tudo, seus olhos encheram de lágrimas, a água escapou por todos os lados, incluindo pelo nariz, e ela começou a tossir desenfreada.
— Caramba — Jamaica parou na sua frente, levantando seus braços acima da cabeça — Prende a respiração.
Ela até tentou, só que não conseguia parar te tossir e arquejar.
— Lizzie — o olhar dele era pura preocupação, as mãos deixaram seus braços e foram parar no seu rosto — Se acalma.
Levou mais alguns segundos até o acesso de tosse passar e ela conseguir respirar normalmente. Quando se desvencilhou de Jamaica, que ainda estava super preocupado, seu olhar se encontrou com o da mãe e viu todas as coisas que ela havia presumido com aquele simples ataque de tosse.
Ah, minha nossa.
Elisa quis se enterrar viva, ao invés disso, agradeceu a Jamaica pela ajuda e foi se sentar no balcão que dividia a sala da cozinha, achou que voltar para o quarto daria a mãe ainda mais material para especulação. Precisava agir normalmente, mostrar que não havia nada entre ela e Jamaica, que ela não tinha o menor interesse nele...
Bem, essa última parte ficou mais difícil quando Luísa, com uma das suas ideias brilhantes, viu que Jamaica suava no calor da cozinha e garantiu que, se ele quisesse, podia tirar a camisa. E ele tirou. Elisa teve certeza que nunca viu a definição do corpo dele com tanta ênfase quanto via naquela manhã. E as tatuagens então? Era ainda pior o fato que lembrava como, onde, quando e porque ele tinha feito cada uma delas. Inclusive, a própria Elisa havia opinado e escolhido algumas...
Não que ela devesse estar observando as tatuagens dele.
O que estava acontecendo com sua cabeça, afinal? Por que de uma hora para outra estava ultrapassando tantos limites? Quer dizer, não é como se nunca tivesse reparado nele antes, não era i****a, muito menos sonsa, ao longo dos anos teve tempo o bastante para admitir para si mesma que tinha uma paixonite por ele na adolescência, assim como admitiu que alguma parte sua sempre se sentiu atraída por ele, mesmo quando manteve distância por anos. Mas essa era a questão, se sempre sentiu aquela porcaria e sempre conseguiu ignorar e evitar, por que agora estava falhando?
Porque estava chegando perto demais, uma vozinha respondeu na sua consciência.
O problema é que, ironicamente, talvez não quisesse mais se afastar tanto quanto antes. Ou talvez só não tivesse mais forças para fingir que em algum momento não sentiu falta dele e o quis por perto.
Maravilha, aquilo era mesmo uma merda.