Capítulo 18

2021 Palavras
*Elisa* Na sexta-feira, Elisa já acordou desanimada. Seria seu último dia tomando conta de Bea antes da sonsa, quer dizer, da Dandara-super-babá-perfeita, assumir o posto novamente. Lis passou o dia inteiro aproveitando Bea o máximo possível, feliz por a garotinha já parecer completamente curada da inflamação na garganta, ainda que continuasse usando o medicamento por conta da prescrição médica de três dias. Elisa ainda não tinha se permitido pensar em tudo o que fez, falou, sentiu e pensou na quarta-feira enquanto levava Bea ao hospital. Passou os dois se convencendo de que não havia no que pensar, afinal, faria aquilo por qualquer criança que precisasse de ajuda, certo? E não é porque tinha passado o dia todo com Jamaica, inclusive ajudando a arrumar as coisas quando voltaram do hospital e depois tomando conta de Bea enquanto ele descansava um pouco, que significava que algo havia mudado. Nada havia mudado. Ele não era seu inimigo, mas também não era seu amigo. Ele não parecia mais disposto a dar em cima dela, mas isso não queria dizer que ela fingiria que nada aconteceu. Mesmo que o novo comportamento de Jamaica não demandasse que ela mantivesse a defensiva, o seu próprio comportamento e as reações que tanto mascarava e ignorava, demandavam. Não que ela fosse racionalizar ou admitir aquilo. Na verdade, evitou pensar em qualquer coisa na sexta, enquanto aproveitava Bea ao máximo, sem reprimir todas as vezes que se sentia quase hipnotizada com os olhos lindos da bebê, ou com a mania de dormir segurando seu dedo, ou com os “sorrisos” que ela dava... A primeira vez que Bea sorriu, daquele jeito involuntário que os bebês fazem, quase mandou Elisa direto para o céu. Só notou que sorria de volta para a menina, feito uma boba, quando suas bochechas começaram a doer. Sim, aquela coisinha miúda estava acabando com a fachada de durona dela. E Elisa sentiria uma falta tão grande... Interrompeu o pensamento, só a ideia já lhe dava um nó na garganta. Pois é, além de molenga, a bebê também estava lhe deixando emotiva. A cada dia que passava, se sentia mais e mais propensa a explosões emocionais, juntando isso ao cansaço que lhe tomava até os ossos e a total vontade de se isolar do mundo... Estava ficando preocupada. Não é porque repetia para si mesma e para o mundo que estava bem, que se sentia bem de verdade. Tinha medo que os danos causados por Grego, aqueles que lutava para ignorar, pudessem lhe arrastar para um poço ainda mais fundo. E se estivesse com algum problema psicológico? E se ficasse depressiva? E se... — Cheguei — a voz de Jamaica interrompeu a linha de raciocínio que, como em todas as outras vezes, começava a desesperá-la — Como vocês estão? Jamaica tirou a camisa e estava se virando para ela quando o olhar dos dois se cruzou e ele parou, franzindo as sobrancelhas. — Você tá chorando? — ele terminou de se aproximar com uma urgência que, por algum motivo, aumentou o nó na garganta dela — O que aconteceu Lizzie? Ela levou as mãos as bochechas. Caramba, estava chorando e nem tinha notado. Viu só? Tinha alguma coisa errada com a sua cabeça. — Vou sentir saudade da Bea — murmurou a primeira coisa que se passou na sua cabeça, afinal, não podia admitir que chorava por medo do que mais Grego tenha lhe causado sem ela notar. — Você pode vir ver ela todos os dias — ele desviou o olhar do seu para a menininha. O movimento não foi algo deliberado, foi natural e ainda assim... tão estranho. Ele continuava fazendo aquilo desde o dia em que confessou que nunca foi apaixonado por ela. O engraçado é que Elisa, que antes reclamava do modo que ele sempre a encarava demais, com intensidade demais, agora não conseguia gostar dessa nova tendência de não encará-la. Mas não podia reclamar, não é? Queria que Jamaica desistisse do jogo do “estou apaixonado por você” e ele finalmente tinha desistido. — Eu sei — ela se afastou, limpando as lágrimas enquanto ia até o carrinho de Bea — Como foi o seu dia? Espera, o que acabou de perguntar? Desde quando queria saber como foi o dia dele? Pelo amor de Deus. Até Jamaica hesitou antes de responder. — Foi... de boa, normal, sabe? — Hunrum — deu uma última olhada na garotinha antes de se virar — Melhor eu ir embora. Não esperou resposta para pegar a bolsa e começar a se afastar. Deus do céu, sua mente estava uma bagunça, seu emocional se deteriorando, e o maldito cansaço começava a tragá-la de novo. — Lizzie, espera — Jamaica chamou quando já estava perto da porta. Elisa se virou, ele coçou a nuca, coisa que fazia sempre que estava incerto. Ela esperou em silêncio, uma expectativa sem motivo preenchendo o peito, mesmo não sabendo exatamente o que esperava — Você... Vai para o baile hoje? Ah, era isso? — Não — nem precisou pensar antes de responder. Ele arqueou uma sobrancelha em uma questionamento silencioso, ela suspirou cansanda — Não acho que seja uma boa ideia. As pessoas ainda estão... me olhando estranho. E me julgando, como se um lado delas ainda duvidasse se eu não sabia mesmo quem era Grego, e o outro lado tivesse certeza que eu não sabia por ser uma v***a burra. — E desde quando você liga para o que as pessoas pensam? — ele cruzou os braços, fazendo a tatuagem de tigre que tinha no peito saltar com o movimento. Ela focou o olhar no desenho, era uma alternativa melhor do que deixá-lo ver que, sim, agora se importava com o que os outros diziam, não conseguia evitar. Elisa era orgulhosa demais para admitir algo assim. — Eu não me importo — revirou os olhos com o maior desdém possível. — Então não tem porque não ir. Antes que rebatesse com um “não vou porque não quero e ponto”, ouviu batidas leves na porta. Jamaica franziu as sobrancelhas. — Você tá esperando alguém? — ele se aproximou de onde ela havia parado, tomando a sua frente como se fosse protegê-la do que quer que estivesse do outro lado. — Não... — Tem alguém em casa? — uma voz feminina soou por trás da porta. Elisa, que ainda mantinha o olhar sobre Jamaica, o viu relaxar. — É a Dandara — anunciou como se fosse uma ótima notícia, antes de ir abrir a porta. Todo animadinho — Tá perdida? — brincou com a outra, dando passagem para entrar. Assim que ela entrou, uma vozinha independente na cabeça de Elisa murmurou como preferia que a tal Dandara fosse menos sorridente. E se possível menos bonita também. Como é que ela conseguia parecer tão resplandecente dentro de um vestido comprido daqueles? — Tentei te ligar, mas não consegui — Dandara levou um dos cachos do cabelo castanho para trás da orelha, os olhos castanhos tomados de entusiasmo enquanto se mantinham focados em Jamaica — Só queria saber como a bebê está e como eu estava passando por aqui... — deixou a frase no ar ao notar Elisa pela primeira vez — Ah, oi — e abriu mais um sorriso meigo, talvez o quarto desde que chegara ali. E olha que ela tinha chegado há menos de um minuto! Quem sorri tanto assim? — Oi — Lis conteve uma inesperada vontade de revirar os olhos. — Deixa eu apresentar — Jamaica interveio — Dandara, Elisa, Elisa, Dandara. — Então é você quem está me substituindo esses dias? — Dandara brincou. Elisa realmente queria estar em clima de brincadeira, mas agora se sentia mais esgotada do que antes. — Pois é — murmurou — E você é a babá que vai tomar meu lugar na segunda-feira. Jamaica levou a mão à nuca, o que a fez perceber que, vejam só, estava mesmo soando tão antipática quanto se sentia. — Acho que a Bea acordou — murmurou para ninguém em específico antes de se afastar. Sua parte consciente sabia que não tinha motivo para sentir uma antipatia tão grande pela tal Dandara, mas a questão era... Bem, às vezes só não ia com a cara de alguém e ponto. Era isso. Mesmo que, se fosse pensar racionalmente, não encontraria nada específico para desgostar na outra. Antes de se afastar por completo, ouviu Dandara comentar, bastante animada, sobre como ainda não acreditava que Jamaica tinha finalmente dado um nome a bebê. Durante os minutos seguintes, por mais que Lis se esforçasse em prestar atenção em Bea ou na televisão, não conseguia ignorar como Jamaica parecia confortável e descontraído perto de Dandara. Não existia nem um pingo da tensão que sempre o sombreava quando estava perto de Elisa. Não haviam pausas entre as conversas onde nenhum dos dois sabia o que falar e o silêncio era desconfortável. Ele e Dandara simplesmente se davam bem, sorriam e falavam amenidades enquanto ela zanzava pela cozinha como se estivesse em casa... E foi mais ou menos quando viu a outra pegar copos no armário e se enfiar na geladeira enquanto falava algo que o fazia sorrir, que Elisa decidiu que ficaria feliz por eles, caso algo acontecesse entre os dois. Quer dizer, Dandara realmente parecia legal e se Jamaica queria arranjar alguém para estar ao seu lado enquanto Bea crescia, por que não ela? Lis se recusou a admitir o desgosto que sentiu ao pensar naquilo. Sempre odiou esse tipo de emoção sem sentido. Pareceu demorar uma eternidade até Dandara se despedir, prometendo voltar na segunda-feira. Quando Jamaica voltou para o sofá ao seu lado, Lis se obrigou a comentar, ainda que só para provar a si mesma como não se importava e como achava bom que ele arranjasse alguém como Dandara: — Vocês têm uma boa conexão — quando ele franziu as sobrancelhas confuso, ela acrescentou: — Você e a Dandara se dão muito bem. — Eu me dou bem com um monte de gente — murmurou, olhando com atenção deliberada para a televisão. — Não, você se dá bem com um monte de homens — ela corrigiu — A única mulher com quem se dá bem é a Camila e ela não conta. Bom, agora você também se dá bem com a Dandara... Bem até demais, não é? — Tá entrando para o time da Pat? — ele estreitou o olhar na sua direção. Eu nunca entraria para esse time, sua mente rebateu instantaneamente, e só por isso, por essa reação que no fundo ela sabia onde estava baseada, rebateu: — Se for namorar mesmo alguém, talvez ela seja uma boa opção — Lis quase fez uma careta no fim da fala. Mais uma vez, se convenceu que aquilo não tinha nada a ver com algo específico, que era só por causa do ranço infundado e instantâneo que sentira por Dandara. — Mas isso não muda o fato que eu não saberia como conquistar ela, mesmo se eu achasse que devia fazer algo assim — ele fixou o olhar no seu para enfatizar: — E eu não acho. Por algum motivo, quis sorrir com a convicção dele, mas conteve a vontade. — Se você não acha, não sou eu quem vou insistir — ela levantou do sofá — Acho melhor eu ir... — E o baile? Céus, ele ainda lembrava disso? — Não tô a fim — porque me sinto exausta para fazer qualquer coisa além de dormir ou ficar com a Bea. — Qual é, Lizzie, não pode ficar o tempo todo em casa. Sua mãe tá preocupada, acha que ela vai ficar tranquila vendo você faltar a um baile desses? Não, a mãe ficaria ainda mais preocupada. Afinal, desde que conseguira o aval para ir aos bailes, Lis nunca faltou nenhum dos mais importantes. — Tudo bem — suspirou, se dando por vencida. A última coisa que precisava era agravar a doença da mãe a preocupando com besteiras — Vou no tal baile. — Isso aí — ele sorriu, Elisa desviou o olhar para a porta, murmurou uma despedida e foi embora.
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