Capítulo 19

1992 Palavras
*Elisa* À noite, toda a convicção de ir ao tal baile já tinha ido para o ralo. Era como se a sua bateria houvesse descarregado completamente, tudo o que Elisa queria era ficar deitada na cama encarando o teto. Porém, pensar na mãe se preocupando trouxe as palavras do médico de volta à sua mente, o que foi o bastante para arrancá-la da cama e fazê-la se arrumar. Estava tão desanimada que levou o dobro do tempo necessário para tomar banho e vestir algo apresentável, ou seja, um vestido justo e curto, saltos nos pés e algumas pulseiras no braço. A maquiagem era apenas um batom e os cabelos simplesmente estavam soltos, caindo lisos até sua cintura. Era estranho como sua animação vinha sendo drenada nas últimas semanas. Não que antes estivesse muito melhor, mas ao menos não se sentia tão cansada. Ainda lembrava do último baile, fora para ele com o único objetivo de fazer a mente se calar sobre toda a história de Grego. Bebeu mais que o normal, dançou até cansar e encontrou um cara atraente o bastante para passar a noite... E m*l se lembrava de qualquer coisa específica que fizera depois disso. Mas ao menos tinha feito algo e não apenas ficado no quarto, se encarando no espelho como fazia naquele momento enquanto tentava se convencer a sair de casa de uma vez. Foi o barulho de conversa vindo da sala o que a fez deixar o espelho para trás. Saindo do quarto, reconheceu a voz de Jamaica antes mesmo de vê-lo na sala conversando com a sua mãe. — Valeu mesmo, tia Luísa, eu não ficaria em paz deixando ela com alguém sem experiência, não depois do último susto com a febre — ele dizia, finalizando com um daqueles sorrisos conquistadores nos lábios. — Imagina, menino. Quando precisar é só pedir — a mãe desviou a atenção para Beatriz no carrinho ao seu lado — Vou amar ficar com essa princesa. — A Bea vai ficar aqui? — Lis se intrometeu, se aproximando dos dois. Quando Jamaica assentiu, ela acrescentou: — Por que não me pediu para ficar com ela? — Por que você vai pro baile comigo, esqueceu? — Vou? — soou confusa, enquanto a mãe indagava, animada demais: — Vai? — Isso aí — Jamaica a puxou pela mão — Eu nem ia, mas como ela queria ir, eu resolvi ir também. Faz muito tempo que não curto um baile com minha amiga. Elisa não rebateu, ainda estava tentando processar todas as informações, que começavam com a naturalidade com que ele segurava sua mão e terminavam com o “minha amiga”. Era isso o que era agora? Estava voltando a ser amiga dele? E por que mesmo não tinha se soltado ainda? — Bora? — Jamaica apertou sua mão de leve. Ela pensou em protestar, mas bastou erguer o olhar e ver o sorriso no rosto da mãe, para engolir tudo o que pretendia dizer. Fazia dias que não via a mãe parecer tão... aliviada enquanto a olhava. — Vamos. Elisa não disse uma palavra enquanto o seguia para fora, só quando pararam ao lado do carro que ele usara para chegar até a sua casa, ela se permitiu murmurar: — Obrigada, minha mãe realmente pareceu mais tranquila depois da sua mentira. — Que mentira? — ele franziu as sobrancelhas. — A história de ter decidido ir no baile porque eu estava animada para ir. — Ah — ele desviou a atenção para a porta que abria para ela — Não foi mentira, pelo menos não a parte de ter decidido ir por sua causa — antes que ela entrasse na defensiva ou fosse dominada pela vontade de se afastar por precaução, ele acrescentou: — Tinha que garantir que você ia sair de casa. Ela revirou os olhos, o que apenas o fez rir. — Então, a Dandara não pôde ficar com a Bea? — perguntou quando ele entrou do lado do motorista. Jamaica deu partida antes de responder. — Ela não dorme fora de casa e teria que dormir na minha para ficar com a Bea — ele sorriu — Ainda bem que a tia Luísa sempre gostou de mim, eu nem precisei pedir duas vezes pra ela ficar com a pequena. O assunto no carro não rendeu mais que isso, o que não foi exatamente bom para Elisa, já que lhe deu brecha para duas coisas que preferia evitar: primeiro, pensar em todas as coisas desagradáveis rondando sua mente. E segundo, notar, com ênfase demais, o cheiro de Jamaica que tomava o carro. Ele sempre cheirou bem, usava o mesmo perfume da adolescência que, aliás, era a mesma fragrância com que ela o presenteou no seu aniversário de dezesseis anos. Elisa sempre achou curioso como ele continuou a comprar o perfume, mesmo quando os dois se afastaram. Ela amava o cheiro, gostaria de dizer que gostava dele antes de ter dado o perfume a Jamaica, mas não era verdade, tinha aprendido a gostar um pouquinho mais a cada vez em que ele o usou perto dela no passado. E aparentemente uma parte sua ainda gostava mais que o saudável do cheiro... O que não era nada demais, garantiu a si mesma. Era um bom perfume e ponto. O baile já estava lotado quando chegaram, o som vibrava no chão, algo que normalmente fazia seu peito vibrar por pura animação, mas naquela noite só lhe deu vontade de dar meia volta e se afastar. Elisa ainda pensava em maneiras de despistar Jamaica e sair para passar tempo em qualquer lugar antes de voltar para casa, quando sentiu ele a puxar pela mão e a posicionar na frente do próprio corpo. — Fica perto de mim ou vai chegar no camarote sem os dedos dos pés — ele falou próximo ao seu ouvido para sobrepor o barulho da música. E Elisa não se arrepiou por causa da voz próxima demais, nem por sentir a mão dele em volta da sua cintura, claro que não. O arrepio foi totalmente causado pelo ambiente lotado, pela música alta e pela sensação de estar cercada por tanta gente. Isso mesmo. Ela assentiu para ele, ignorando não só o calor da mão sobre seu vestido, como também todas as vezes que ele encostou nela enquanto andava. Droga, era como voltar a ter quinze anos e não saber explicar porque seu corpo reagia assim perto dele. A diferença é que agora ela sabia explicar, só preferia ignorar a explicação. Tinha vencido tanta coisa na vida, não é possível que não conseguiria vencer justo aquele resquício de sentimento ou seja lá o nome que devesse dar para a atração que sempre foi capaz de lhe fazer prender a respiração perto dele. Como de costume, as pessoas deram passagem a ele, uma das vantagens de ser o respeitado gerente do morro, o que garantiu que chegassem do outro lado mais rápido. Ela suspirou aliviada quando alcançaram a porta do camarote e ele se afastou. Assim que chegou ao patamar superior, notou que não era só a parte de baixo que estava mais cheia que o normal, ali em cima as mesas estavam todas ocupadas, tanto pelos homens que tinham posição mais elevada na hierarquia do morro, quanto por uma dezena de caras da facção, fora todas as marias fuzil, as fiéis e os convidados agregados. Uma maravilha, um monte de gente para fazê-la lembrar como não queria estar ali, muito menos perto dos caras da facção. Apesar de nada das merdas de Grego terem respingado sobre ela, Lis ainda se perguntava se ninguém na facção a via como uma suspeita. No fundo sabia que a resposta para isso era não, se desconfiassem, teriam checado e a interrogado, o fato de ser irmã de Baroni não impediria que sofresse as consequências caso fosse vista como cúmplice ou coisa do tipo. Assim, sabia que não achavam que ela soubesse de algo, e claro que isso a deixava aliviada, mas também a fazia pensar em como deviam achar que era uma v***a imprestável e sem cérebro por não desconfiar de nada. Elisa suspirou, estava tão cansada de pensar naquele assunto, tão cansada de se sentir sempre julgada. Tão cansada de julgar a si mesma, ainda que não quisesse fazê-lo. — Vai pra mesa? — Jamaica indagou ao seu lado. Lis seguiu a direção do olhar dele, a mesa estava cheia de gente importante, a maioria da facção, além de Baroni e do fornecedor de armas do morro. O único lugar vago era o que Jamaica costumava ocupar como gerente. — Acho que vou pegar algo pra beber — murmurou, sabendo que ele só havia perguntado por educação. Ele assentiu sem hesitar antes de seguir em frente. Mais um suspiro escapou de Elisa. Ok, hora de procurar o cara das bebidas e anestesiar a mente com bastante álcool. Como vinha aprendendo ultimamente, depois do terceiro copo com uma batida de frutas repleta de bastante vodca, sua mente se calou quase que completamente. Os olhares não pareciam mais tão focados no que fazia e ela até começou a dançar como se realmente não se importasse com mais nada na vida. Não demorou para um cara colar nela. Elisa só percebeu que olhar para Jamaica quando alguém se aproximava era algo automático, quando olhou e... Se surpreendeu ao notar que ele não a encarava, assim como não encarou nenhuma vez nos minutos que ela levou para se dar conta de que ele simplesmente não olharia. Caramba, aquilo era tão estranho... Quer dizer, uhul, aquilo era tão estranho e bom. Por que era bom, certo? Estava feliz que ele tenha parado. Não é como se gostasse de ter que ficar com caras aleatórios, às vezes de um jeito bastante teatral, apenas para mostrar a ele que não devia olhá-la daquele jeito. Não que fosse só por isso que você ficasse com caras aleatórios, uma parte da sua mente sincera e totalmente bêbada corrigiu. Elisa estalou a língua para si mesma, enquanto o homem que se aproximou por trás dela enlaçou sua cintura. Ela não o afastou, mas também não fez questão nenhuma de dar alguma atenção para ele, estava distraída demais discutindo dentro da própria cabeça... Quer dizer, é claro que ficava com caras aleatórios para enfiar na cabeça de Jamaica como não gostava dele. Mas também fazia isso para ignorar como se sentia toda vez que o via com alguma lambisgóia no colo, sua mente alfinetou. Elisa revirou os olhos para si mesma. Aquilo não era verdade. Jamaica poderia colocar quem quisesse no colo, não é como se ela se importasse. Claro que que não se importava, exatamente como não se importava agora, enquanto via a Índia bem confortável nas pernas dele, sua mente devolveu com ironia, e antes que pudesse evitar, Elisa ergueu o olha a tempo de ver a Índia agarrando o queixo de Jamaica e sussurrando algo perto demais dos lábios, enquanto ele mantinha o olhar e a atenção nela e no que ela dizia. Ótimo, Lis pensou, parece que ele tinha mesmo desistido do papinho de apaixonado. E ela estava muito... satisfeita com isso. Sério mesmo? A parte bêbada zombeteira da sua mente alfinetou. Lis ignorou. Era mesmo ótimo. Ele tinha seguido em frente, quem sabe assim não podiam virar amigo de novo? Não que precisasse da amizade dele ou algo assim, mas não queria mais se afastar de Bea, e ser amiga do pai da garota lhe parecia uma ótima forma de se manter por perto. Sim, talvez eles pudessem mesmo virar amigos de novo ou chegar o mais perto possível disso. Talvez ela estivesse finalmente pronta para deixar o passado para trás. O riso de zombaria da sua mente foi a última coisa a que ela deu atenção antes de se virar e beijar o cara que ainda a segurava, calando de uma vez o diálogo irritante na sua cabeça.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR