*Jamaica*
Levou vários minutos para a Lizzie se acalmar, enquanto abafava o som do choro contra a minha camisa. Fiquei o tempo todo abraçando ela, alisando os cabelos, tentando manter a calma e não demonstrar como aquelas crises dela estavam me deixando apavorado.
Eu queria muito ser o porto seguro dela, sério mesmo. Queria ser aquela figura que ela procura quando precisa e que serve de apoio. Mas eu sabia que também precisaria bancar a parte racional que diz a ela a verdade, e a verdade é que ela precisava procurar ajuda de um médico.
— Me desculpa por te fazer vir aqui — ela disse quando se acalmou, se afastando de mim e me encarando com culpa.
— Não tem por que se desculpar. Eu tô aqui pra isso, já te disse — a real é que eu queria abraçar ela mais um pouco, queria mesmo fazer o papel do consolador, mas sabia que a Lizzie não ia me dar outra deixa para falar do assunto, então dei a ela alguns minutos de silêncio antes de falar o que precisava ser dito, no tom mais ameno que eu era capaz de usar — A gente precisa conversar sobre essas crises.
Esperei ela me mandar sair do quarto ou disser que eu não tinha nada a ver com isso, eu até já estava pensando em um contra argumento, mas ela só abaixou a cabeça e suspirou como se estivesse cansada demais até para me contradizer.
— Eu sei, mas podemos fazer isso depois, por favor? — ela se levantou da cama e parou na frente do espelho — Preciso me arrumar o bastante para ninguém notar que eu chorei.
— Ou você pode ficar aqui e eu digo a eles que você não tá se sentindo bem — sugeri, vendo como ela parecia esgotada.
— Não quero ficar no quarto, o silêncio só pioraria as coisas — ela deu de ombros — Prefiro ir almoçar no meio da bagunça que só a minha família sabe fazer.
E fingir que nada aconteceu, mais uma vez.
Não comentei nada, só assenti.
— Beleza, vou nessa — não era a despedida que eu queria, na verdade, eu não queria me afastar dela até ter certeza que ela estava bem, mas eu sabia até onde iam os limites da nossa trégua.
— Fica para almoçar — a Lizze disse antes que eu saísse de onde estava. A surpresa deve ter ficado evidente na minha expressão já que ela completou com: — Seria estranho se você fosse embora agora, eles iriam suspeitar.
É claro que ela estava preocupada com a opinião dos outros. Aquilo não tinha nada a ver com alguma vontade dela de me manter por perto.
— Beleza — me virei pra sair do quarto — Te espero lá fora.
— Espera — ela chamou depois de um segundo de hesitação — Será que você pode ficar aqui até eu terminar de me arrumar?
Era tão estranho ver aquela vulnerabilidade no olhar dela. Todas as vezes que isso acontecia, eu sentia vontade de ressuscitar Grego apenas para matar aquele filho da p**a de novo.
— É que eu preciso de ajuda pra... ter certeza de que consegui disfarçar o choro — ela completou. Era uma desculpa boba, nós dois sabíamos disso, mas eu só concordei.
— Eu sempre fui bom em te dar dicas de moda — fui até a cama dela e me sentei, tentando dar um tom descontraído a conversa e deixar ela menos tensa — Por favor, me diz que você vai trocar de roupa na minha frente, igual fazia quando a gente era mais novo.
O rosto dela ficou vermelho, se a situação não fosse tão pesada, eu teria rido. Quando erámos adolescentes, mais ou menos na época em que eu estava começando a criar coragem para falar como me sentia por ela, a Lizzie começou a me chamar para ajudar ela a escolher roupas. Nas primeiras vezes eu até achei que ela estava fazendo aquilo para chamar a minha atenção, mas depois caí na real e percebi que ela só se sentia à vontade comigo o bastante para fazer uma coisa dessas. Nem preciso dizer que ver a Lizzie experimentando roupas era mais tentador para minha versão adolescente do que ver um monte de mulher pelada na internet.
— Não seja i****a — ela rebateu, revirando os olhos para mim. Podia até fingir que não se importava, mas aquele tom avermelhado na pele dela contava outra história — Eu já estou vestida para o almoço.
— Uma pena — deixei meu olhar deslizar pelo corpo dela. Ela estava muito gata usando um vestidinho colado no corpo — Você sabe como eu sou bom em ajudar com essas coisas.
— Se continuar me olhando assim, eu vou te bater — ela ameaçou, mas até a expressão dela estava mais leve do que antes. Pisquei pra ela.
— Eu adoraria.
Lizzie revirou os olhos mais uma vez. Quando se virou de volta para o espelho, havia um sorrisinho no canto dos lábios dela.
***
As pessoas precisavam aprender a disfarçar melhor o que pensam, sério mesmo. Quando eu e a Lizzie chegamos na cozinha para almoçar, todo mundo ficou em silêncio. A tia Luísa tinha um sorriso tão grande nos lábios, que eu fiquei com medo dela nunca mais consegui voltar ao normal. A Pat só faltou bater palminhas de emoção. E o Baroni olhava de mim para a Lizzie como se fosse o Sherlock Holmes vendo dois suspeitos na frente dele.
— Olha, o meu amorzinho veio — a Lizzie se desviou da atenção deles para a Bea, que estava no colo da Pat — Vem com a titia, vem, meu amor.
Ela nem precisou pedir de novo, a Bea já estava com a atenção toda focada nela antes mesmo dela se aproximar, e bastou a Lizzie estender os braços pra ela se jogar.
— Ela já reconhece você — a dona Luísa observou, parecendo ainda mais feliz que antes. Era em momentos assim que eu não conseguia evitar pensar como seria a minha vida se a Lizzie me dissesse sim no passado. Como seria nossa família, como seriam os almoços de domingo... Era uma merda perceber como tudo seria perfeito de um jeito que eu nunca pude viver.
— É claro que ela reconhece — a Lizzie nem escondia o orgulho — Eu sou a segunda pessoa favorita dela, não é meu amor?
Eu desviei o olhar, porque ver a Bea com ela ainda era uma facada no meu coração.
***
Depois do almoço a Lizzie tentou se esquivar de mim para evitar a conversa. Como eu conheço ela bem o bastante, fui atrás. Eu sabia que se não falasse sobre as crises dela naquele dia, ia ter que esperar por outra daquelas crises, e eu não estava disposto a deixar ela passar por algo assim de novo. Quando ela percebeu que eu não ia deixar o assunto passar, resolveu voltar para casa comigo e com a Bea.
— Seja lá o que você tenha a dizer — ela começou assim que a gente chegou em casa — Eu quero deixar claro que estou bem e que isso vai passar.
— Não, você não tá bem e isso não vai passar se você não procurar ajuda — antes que ela pudesse contra-argumentar, eu continuei: — Eu pesquisei sobre o assunto. Essas crises isoladas podem evoluir para uma síndrome do pânico se você não se tratar.
— E você aprendeu isso com a sua formação de dez minutos no Google — ela revirou os olhos.
— Não adianta tentar me ofender, eu não vou te deixar passar por isso sozinha — cruzei os braços. Eu podia passar a noite toda discutindo com ela, mas não havia nada no mundo que fosse me fazer desistir e deixar ela continuar sozinha com aquilo.
— Você devia parar de se meter na minha vida.
— E você devia entender que isso nunca vai acontecer quando você estiver passando por um problema — rebati, sem perder a calma. Eu sabia como a Lizzie sempre entrava na defensiva atacando os outros — A nossa amizade pode ter acabado, mas você ainda é uma das pessoas mais importantes da minha vida e eu nunca vou deixar você passar por nada sozinha.
— Droga — ela desviou o olhar para o teto, deu alguns passos de um lado para o outro na sala e quando voltou a me encarar, estava com os olhos cheios de lágrimas — Eu estou com medo, beleza? — a voz embargou e ela cerrou os dentes — Eu só quero que isso acabe. Não sei se consigo ir até um psicólogo e ouvir ele dizer que eu estou doente. Eu só... não sei.
— Eu vou com você — queria abraçar ela, queria mandar tudo para o alto, acabar com a distância entre a gente, abraçar ela e dizer que tudo ia ficar bem, mas tinha a porcaria dos limites entre nós — Vai dar tudo certo, Lizzie.
Esperei que ela discutisse sobre como não precisava da minha ajuda. Ela não discutiu. Assentiu e limpou as lágrimas.
— Obrigada.
— Sem problemas — desviei a minha atenção para a Bea para dar um tempo para ela se recompor. A Lizzie nunca gostou de chorar na frente de outras pessoas — A gente pode ir amanhã.
— Amanhã? — ela hesitou — Mas amanhã a gente vai jantar.
— A gente janta na terça — voltei a olhar para ela com firmeza — O quanto antes você se libertar disso, melhor. Certo?
— Certo.
Eu deveria estar aliviado em ver ela concordar tão fácil, mas toda aquela aceitação passiva só mostrava como ela estava longe de ser a Lizzie de sempre. E isso não era bom.