Capítulo 32

1053 Palavras
*Jamaica* Marcamos o jantar para a segunda-feira, porque segundo a Lizzie, no fim de semana os restaurantes estariam cheios demais e eu não iria querer levar a Dandara em um lugar lotado. Por pouco não deixei escapar que eu queria levar ela do jeito que ela achasse mais agradável. E eu dúvida muito que a Lizzie se incomodasse com um estabelecimento lotado. Mas tudo bem, a vantagem de esperar até segunda era ter mais dois dias para ficar ansioso. Uma maravilha. Outra vantagem foi dar a Índia e a Pat tempo o bastante para surtar, me dar ordens e, a parte mais enlouquecedora de todas, planejar o meu “look”. E quando eu tentei protestar, a Índia me olhou com o mesmo desprezo com que um gato olha para um reles humano, e perguntou: — Você por acaso sabe o que vestir em um jantar? E se a resposta for camisa de time ou uma dessas suas camisas de botões, é melhor ficar calado. Então eu fiquei calado. No fim do dia elas tinha decidido que a Pat arranjaria roupas adequadas para mim. Não vou mentir, fiquei com receio, qual é , a Pat é a senhorita animação. Mas a Índia garantiu que eu podia confiar e que o look iria deixar a Lis impressionada. No fim das contas, eu não tinha muita opção, contrariar aquelas duas malucas não era exatamente uma escolha viável. No sábado a Lizzie teve uma folga do trampo de babá, já que o movimento no morro estava tranquilo o bastante para o Baroni me liberar. Ele vinha sendo bacana demais comigo, sempre me dando uma folga pra passar um tempo a mais com a minha princesinha. Aproveitei o sábado com a Bea, dando umas voltas com ela e notando cada uma das pequenas mudanças que ela vinha mostrando nos últimos dias. E no domingo meu plano era basicamente fazer a mesma coisa, mas os planos existem para serem frustrados, né não? Estava quase terminando de preparar o almoço quando o meu celular começou a vibrar na bancada da cozinha, com várias mensagens chegando. Como ninguém me mandava tantas mensagens em pleno domingo a menos que fosse pra resolver algum problema, já fui pegar o celular me lamentando. E esqueci do lamento quando vi o nome da Lizzie na tela. A primeira mensagem dizia “Tem alguma coisa errada”, as mensagens seguintes tinham um tom frenético e eram coisas tipo “Não consigo respirar”, “Preciso sair de casa agora”, “Tá todo mundo aqui, eles não podem me ver surtando”, “Por que isso tá acontecendo?” Eu já ia responder, quando ela mandou um “Desculpa, mandei errado” e saiu apagando tudo, provavelmente achando que eu não tinha lido. Nem perdi tempo argumentando nada, mandei só um “Tô indo aí”, e comecei a catar as coisas da Bea para botar no carrinho de bebê antes de sair. Um dos vapor do morro desceu para me levar até a casa do Baroni. O garoto foi rápido e prudente, parecia divido entre ser eficiente ou ir devagar por causa da bebê no meu colo. Como eu também estava divido entre a pressa e a precaução, não disse nada a ele. Estava tão focado em chegar na Lizzie para ajudar ela, mesmo sem saber como ajudar, que esqueci completamente da parte das mensagens sobre “todos estarem ali”. Só lembrei quando bati na porta, disfarçando a minha urgência da melhor forma possível, e o Baroni me atendeu. Eu estava tão pronto para ser recebido pela tia Luísa, que fiquei sem reação quando ele me cumprimentou. — Fala, cara. Veio pro almoço também? — ele estava de boa, até notar alguma coisa no meu rosto. E sendo tão cismado quanto sempre foi, já cruzou os braços e ficou sério — Que é que tá pegando? — Vim ver a Lizzie — mandei a real, ou pelo menos a essência dela, porque ninguém mentia na cara do Baroni assim, do nada — Ela não falou que eu vinha? O patrão me olhou como se tivesse crescido uma segunda cabeça nos meus ombros. — A Lizzie tá te esperando? — a desconfiança dele quase me ofendeu. Só que aí eu lembrei que realmente era super estranho a ideia da Lizzie me chamar pra qualquer coisa. Sério, todo mundo estava acostumado a ver nós dois rivalizando feito cão e gato. — Pois é, a gente tá se entendendo melhor agora que ela cuida da Bea — dei de ombros, mesmo que cada parte minha quisesse só passar pelo Baroni e ir logo até a Lizzie — Somos amigos de novo. — Amigos, né? — Baroni estreitou o olhar e meneou a cabeça, eu podia ver que ele pensava algo sobre isso, mas como sempre, preferiu não interferi na vida pessoal dos outros — Entra aí. Não precisou pedir duas vezes. Passei com o carrinho da Bea para o lado de dentro. Foi só a tia Luísa e a Pat verem a bebê para todo foco da sala sair de mim e ir para ela. Era o efeito fofura dela, me deixava invisível em qualquer ambiente. Aproveitei a distração e fui direto pro quarto da Lizzie depois de me certificar que ela não estava em parte alguma da sala ou da cozinha. Bati uma vez na porta e só naquele momento me dei conta de como ela poderia simplesmente me ignorar ou me mandar embora. A gente estava evoluindo na “amizade”, mas até eu sabia que havia uma linha tênue entre a tal amizade e a nossa zona de guerra comum. — Lizzie, sou eu — pausa sem nenhuma resposta — Posso entrar? Deve ter levado uns dois segundos antes de ter uma resposta, mas juro, pareceu uma vida toda. E então ela destrancou a porta. Assim que entrei tranquei a porta de volta, não por um motivo concreto, foi mais por não saber o que mais fazer. Quando me virei, ainda usando cada neurônio para pensar em algo para dizer, a Lizzie me abraçou com força, enfiou o rosto no meu peito e começou a chorar, respirando com dificuldade. Foi nesse momento que eu percebi que não precisava falar nada, eu só precisava estar ali.
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