*Jamaica*
Cara, eu estava com medo do tiro sair pela culatra. Sério mesmo, depois do encontro na praia no dia anterior, eu me sentia ainda mais bobo pela Lis.
Pois é, eu ficava lembrando como a gente ficou perto, das risadas que ela deu e de como ela simplesmente não reagiu quando beijei o canto dos lábios dela. Quer dizer, uma parte minha ficou imaginando: e se eu tivesse beijado na boca? Será que ela ia reagir?
Viu só?
Estava me iludindo, de novo, e a Lizzie continuava tão desinteressada quanto antes. Depois de correr atrás de mim na praia e me dar um beliscão por chamar ela de gostosa, a gente riu e voltou para o morro. E ela voltou a agir no modo “estou me aproximando de você, mas nunca perto como no passado”. Era um saco. Essa merda, aliada ao receio de ela descobrir o plano da Índia e da Pat, só me deixava mais apreensivo.
E por falar em Índia e Pat, as duas malucas estavam bem na minha frente, na minha sala na base, interrompendo as minhas atividades enquanto tentavam me convencer sobre “o próximo passo”.
— Não vou chamar a Dandara para sair — disse assim que a Índia parou de falar sobre como deveria ser o meu encontro com a garota.
— Mas isso faz parte do plano, de um lado você mostra a Lis o que ela tá perdendo, do outro você mostra a ela que tem concorrência e que ela realmente vai perder se não acordar — Lorrana continuou, batendo as unhas assassinas na minha mesa. Enquanto isso, a Pat ainda estava toda felizinha com os relatos do meu encontro com a Lis. As duas eram opostas demais, a Índia era a racional da dupla, tudo o que ela fez quando eu terminei de contar como foi na praia com a Lis, foi dar um tapinha no meu braço e dizer “agora vou te falar o que você tem que fazer”, já a Pat, que era a emoção da dupla, abriu um sorriso enorme e bateu palminhas para mim, dizendo que faltava pouco pra dar certo.
Juro, não sei qual das duas era mais louca.
— Você precisa sair com a Dandara, primeiro para fazer ciúmes nela, segundo para mostrar que realmente quer conquistar alguém, ou a Lis vai começar a desconfiar e...
— Não vou meter a Dandara nisso — cortei ela. Tinha pensado muito no assunto depois que cheguei da praia com a Lis, e a conclusão óbvia é que não seria justo com a Dandara. Não dava pra sair com ela se no fundo o que eu queria era conquistar a Lizzie — Pensa um pouco, sério mesmo, como você ia se sentir se um cara fizesse com você o que vocês querem que eu faça com ela?
A Índia franziu as sobrancelhas, a Pat abaixou a cabeça, perdendo pela primeira vez a animação saltitante.
— Ele tem razão — ela murmurou — Não é justo brincar com os sentimentos da Dandara desse jeito.
Viu aí, ela era emocionada, mas ao menos era sensata.
— Eu sei, só que você já parou pra pensar no que a Elisa vai fazer quando perceber que ele não está usando as dicas dela pra nada? — a Índia rebateu.
Claro que eu já tinha pensando, a Lizzie odeia que mintam pra ela. Por isso eu nunca mentia, desde que a gente era criança, eu sempre preferi contar a verdade a ela, mesmo sabendo que ia acabar em briga.
Nós três ficamos em silêncio, as duas malucas pensando em uma solução e eu torcendo para elas desistirem do plano. E quando eu estava quase acreditando na minha vitória, a Pat voltou a falar:
— E se ele dissesse que só vai pôr em prática o que está aprendendo após ter testado tudo? — a animação dela tinha voltado a todo vapor — Quer dizer, se a Lis perguntar sobre a Dandara, você diz que só vai chamar ela pra sair quando o treinamento de vocês acabar. E ela vai acreditar, porque é a sua cara se sentir culpado de sair com uma garota enquanto tem aulas de conquista com outra.
— Genial — agora a Índia também estava animada. Maravilha — Então está decidido.
Eu só encarei as duas, afinal, já estava decido. O que mais eu podia fazer?
Vou te dizer, nem eu sei porque me enfiava nesses planos delas.
— Agora é só esperar a próxima dica da Lis e partir pro abraço — a Índia deu um tapinha no meu ombro.
— Isso, nós vamos conseguir — a Pat voltou a sorrir como uma doida feliz.
Sinceramente, se no fim disso tudo eu conseguisse sair com a minha dignidade intacta, eu já ia ficar satisfeito.
***
A Lis não me deu nenhuma dica pelo resto da semana, ela estava agindo normal, exceto nos momentos em que ela parecia se desligar no meio de uma conversa e ficava me encarando enquanto franzia as sobrancelhas. Eu nem queria imaginar o tipo de coisa que ela pensava nesses momentos, mas não vou mentir, uma parte minha estava com medo dela ter desconfiando de algo. O problema é que eu nem podia indagar nada pra não levantar suspeitas.
Era engraçado como os anos passavam, a gente crescia e ainda assim, esconder algo da Lis era simplesmente perturbador pra mim.
Não que eu tivesse orgulho de admitir uma coisa dessas, mas a verdade era o que era.
Eu ainda lembrava de como foi planejar o pedido de namoro fracassado pra ela. Era uma pressão enorme esconder os planos da Lizzie, mesmo que ela nem desconfiasse de nada.
Tudo bem que agora o que eu estava escondendo era pior. Mas não tinha muito o que fazer, eu duvidava que qualquer reação que ela tivesse agora fosse pior do que a que teve no passado.
Não que eu devesse estar pensando nisso.
— Beleza, a praia foi um sucesso — puxei o assunto na sexta-feira, enquanto a gente comia o nosso café-da-manhã — Mas acho que já estou pronto pra próxima dica.
Lizzie parou de adoçar o café e me olhou com as sobrancelhas franzidas, ela estava linda naquele dia, as olheiras de preocupação tinham diminuído e ela até estava mais relaxada, entrando e saindo da minha casa quando queria, usando roupas que ela mesmo denominava como “roupas de casa”, e que só serviam para me torturar um pouquinho mais, já que as roupas de casa dela sempre eram shorts de algodão curtos e tops menores ainda. Ver tanto dela depois de passar tantos anos no escanteio, era como receber uma dose grande demais de açúcar, me deixava animadão, mas estava acabando com o meu cérebro. E no fim, nada disso importava, o que importava mesmo é que ela estava melhorando. Qualquer um conseguia ver o bem que ficar com a Bea fazia a ela.
— Você já colocou a dica da praia em prática? — ela desviou o olhar para mim e eu quis muito me esquivar, mas mantive o semblante neutro.
— Não, e nem vou colocar. Primeiro eu aprendo tudo, depois eu coloco em prática. Jamais chamaria a Dandara para sair enquanto tô brincando de cupido com outra mulher — tentei reproduzir o discurso da Pat da melhor forma possível. A Lizzie assentiu e desviou o olhar para a xícara.
— Então você deve estar com pressa pra acabar as lições — ela colocou mais três colheres de açúcar na xícara, eu até pensei em intervir e avisar que aquilo ia virar mel se ela continuasse.
— Eu não diria pressa — na verdade, poderia brincar de cupido com você o resto da vida — Mas acho que já tá na hora de outra lição.
— Não consigo pensar em nada agora — ela ainda mantinha o olhar no açucareiro quando levou a xícara até a boca e... Quase cuspiu a mesa — Caramba, isso tá doce demais.
— Claro que tá, você...
— Você tem alguma ideia pra próxima lição? — ela me cortou, toda séria. Aparentemente, o que o café tinha de doce naquela manhã, a Lizzie tinha de azeda. Foi minha vez de desviar o olhar pra minha xícara.
— Eu pensei em um jantar, eu ia gostar de levar ela em um jantar.
E por ela, vocês entendam a Lizzie. Mas é como dizem por aí, a interpretação é livre, e é claro que ela deduziria que eu estava falando da Dandara.
— Então leva — ela rebateu, irritada.
— Pega outro café, Lizzie — tentei ajudar. Não precisava estragar o humor daquele jeito por causa de um pouco de café doce. Ela estreitou o olhar pra mim, abriu a boca, depois franziu as sobrancelhas e meneou a cabeça.
— Foi m*l, é que... odeio quando estrago a comida — murmurou, desviando a atenção para as torradas no prato — Então, vai levar a Dandara para jantar?
— Eu nunca levei uma mina pra jantar, você tá ligada, né? — não sabia até quando aquela mesma desculpa ia funcionar, mas tava disposto a tentar até não dar mais. Fora que eu realmente nunca tinha levado uma mina pra jantar. Qual é, isso era coisa de playboy do asfalto — Que tal você ir comigo para testar?
— Acho que você tá abusando da minha boa vontade — ela levantou da mesa e começou a guardar as coisas. Levantei também.
— Qual é, Lizzie? Eu preciso de ajuda, vamos lá — tomei os potes da mão dela, levando para o armário — Eu te levo em um lugar maneiro, desses que você sempre quis ir quando era adolescente.
— Eu não sou mais adolescente — ela frisou as palavras como se precisasse provar isso a alguém. Dei risada.
— Ah, disso eu sei — dei uma olhada de cima a baixo só pra tirar ela do sério — Você não era tão gostosa quando era uma pirralha de quinze anos.
O tapa veio como o esperado, eu ri enquanto segurava as mãos dela.
— Vamos lá, Lizzie, eu nunca te peço nada.
Só me dei conta de como estava perto, quando ela ficou séria e me encarou nos olhos, daquele jeito meio magnético que acabava comigo.
— Por favor? — a minha voz baixou por vontade própria, o que me fez notar como precisava me afastar antes de estragar tudo. Soltei as mãos dela e dei um passo para trás — Vou precisar fazer a minha cara de cachorrinho abandonado?
— Não, seu i****a — ela revirou os olhos — Um jantar, e espero que você faça o meu tempo valer a pena.
Juro pra vocês, eu só não comemorei como se o Brasil tivesse ganhado o hexa, porque não queria assustar ela.
— Isso aí — me aproximei e deixei um daqueles beijos torturantes no canto dos lábios dela, isso ainda ia acabar comigo. Como de costume, a Lizzie não reagiu — Por isso que te adoro.
E me afastei antes que começasse a parecer um bobo animado demais.