Capítulo 30

1467 Palavras
*Elisa* No dia seguinte, Jamaica chegou em casa às três horas da tarde, no seu habitual mar de tranquilidade. Como de costume, checou se tudo estava bem com Lis e Bea, deu um beijo na testa de cada uma delas e se concentrou nas tarefas da casa antes de avisar que ia se arrumar. E é claro que nenhuma parte de Elisa passou os próximos minutos remoendo como seria o tal encontro falso e a parte de “agir como se fosse pra valer”. Ela já havia tido uma conversa definitiva consigo mesma sobre não dar importância demais aquele assunto. Se Jamaica queria ir à praia fazê-la de cobaia, tudo bem. E se em algum momento as coisas saíssem dos limites, ela só precisava dar o fora e acabar com aquela história de cupido. — Tá pronta? — a voz dele soou atrás de Elisa, fazendo-a notar como tinha passado os últimos minutos perdida em pensamentos. — Eu já vim vestida de casa — ela checou o short jeans e o cropped que usava. Provavelmente não usaria aquilo em um encontro de verdade, mas aquilo não era um encontro, então não importava — Estou pronta, mas a Índia ainda não... — Cheguei — Lorrana interrompeu a frase no momento exato. Elisa suspirou. Ok, então era isso. — Não se preocupem, eu tomo conta dessa belezura — a Índia continuou, sem dar muita atenção para os dois — Se divirtam. Antes que Elisa pudesse responder, Jamaica já estava apoiando a mão nas suas costas, baixo demais, e a guiando até a porta. — A Índia sabe o que a gente vai fazer? — ela se esquivou do toque dele, ignorando o contato da mão quente contra a pele descoberta das suas costas. — Claro que sabe, se a Índia não fosse tão ocupada, era capaz dela mesma se oferecer pra ser minha cupida — ele parou ao lado da moto, se virou e encarou Elisa com seriedade — Nosso encontro começa oficialmente agora. — Ok — a palavra saiu devagar, tão incerta como ela começava a se sentir novamente. Por que ele parecia tão sério? — Beleza, deixa eu colocar isso em você — ele sorriu, muito satisfeito, enquanto erguia o capacete na direção dela. — Eu sei colocar sozinha... — Mas você está saindo comigo e eu sou o tipo de cara — ele ajeitou os cabelos dela atrás da orelha, o olhar mantendo o dela preso — que cuida de todos os detalhes. Elisa não conseguiu protestar, ainda estava calada quando ele terminou de ajeitar o capacete e piscou para ela. Quando subiu na moto, ela só conseguia se odiar por estar mais uma vez errada. Sabe aquela ideia de não haver mais nada em comum entre ela e sua versão adolescente? Aparentemente, estava muito enganada. Quando Jamaica deu a partida na moto, minutos depois, ela ainda tentava apagar da mente a impressão que o olhar dele lhe causou, e o maldito tremor na barriga pelo contato e pela proximidade. Ela odiava mesmo esse maldito lado adolescente. E odiava ainda ser refém dele quando já era uma adulta e teoricamente devia se comportar como tal. Era patético. *** Como tinha previsto, a praia estava vazia no horário em que chegaram, exceto por um grupo de garotos jogando bola e uma ou outra pessoa caminhando na faixa de areia. Elisa esperou que Jamaica pedisse dicas, ou que talvez começasse com um “beleza, o que eu faço agora?”, mas ele não fez nada disso. Na verdade, a postura dele e a forma como parecia absurdamente calmo, poderiam indicar que ele sabia muito bem o que estava fazendo, ou que estava obstinado o bastante para aparentar saber. — O que você está fazendo? — ela indagou no susto quando os dedos dele se entrelaçaram nos seus. Jamaica estreitou o olhar na sua direção. — Segurando a sua mão, porque nós estamos em um encontro — ele manteve os dedos dos dois entrelaçados. — Um encontro falso — Elisa tentou se soltar enquanto frisava as palavras. Estava prestes a começar um protesto, quando ele parou e a encarou. — Isso te incomoda? Porque se incomodar, a gente pode parar. É claro que incomodava, estava incomodando desde o momento em que ela se lembrou de como o admirava na adolescência, e olha que isso aconteceu antes mesmo dele ser todo cavalheiro e colocar o capacete em sua cabeça. É claro que incomodava lembrar de como era o Jamaica bom moço, o cara com aquele maldito olhar perigoso demais quando estava muito perto. O cara que se esforçava quando queria uma garota a ponto de simular encontros. É claro que aquilo incomodava. E é claro que ela jamais admitiria aquilo. — Não incomoda — Elisa revirou os olhos para ele e para si mesma. Vinha regredindo de uma forma deplorável. Era hora de parar de besteira. — Ótimo, por que essa é sua última chance de desistir. Vai ou não levar isso a sério? Ela se forçou a não desviar do olhar dele. Odiava quando Jamaica ficava com aquele ar todo mandão e sério, era tão... — Vou levar a sério, e acho bom você não agir desse jeito insuportável no seu encontro de verdade. Ele sorriu, a áurea séria sumindo. — Não vou precisar, meu encontro de verdade vai adorar andar de mãos dadas comigo. — Ótimo — ela voltou a olhar para o horizonte. Podia apostar que o encontro dele adoraria. E aquilo era muito bom, obviamente. *** No fim das contas o passeio foi tranquilo, eles andaram um pouco, conversaram sobre assuntos neutros e sem graça, provavelmente como aconteceria no encontro verdadeiro dele, comeram alguns petiscos. Elisa até estava relaxada quando Jamaica anunciou que o passeio estava prestes a chegar ao fim, mas que antes teriam uma última parada. E agora ela estava sentada na areia, ao lado dele, respirando fundo o cheiro do mar e se dando conta de como, entre as conversas chatas, os petiscos nada saudáveis e as risadas que acabou deixando escapar com as gracinhas dele, ela conseguiu passar várias horas sem qualquer tipo de peso na mente. Sem pensar em Grego, em crises de pânico ou em problemas familiares... — Você é mesmo um gênio — a voz de Jamaica interrompeu seus pensamentos. Elisa desviou o olhar das ondas do mar para ele — A praia é um ótimo lugar para começar. — Você tinha alguma dúvida dos meus poderes geniais? — ela brincou, vendo a luz alaranjada do sol destacar o perfil dele. Jamaica se virou na sua direção, não estava sorrindo, mas tinha uma felicidade tênue brilhando nos olhos dele. — Eu nunca duvidei de você, em nada — e mais uma vez aconteceu aquela coisa de ficar presa no olhar dele. Enquanto ela o encarava, Jamaica afastou o cabelo do seu rosto, arrumando os fios bagunçados pelo vento — Você é incrível, Lizzie, em todos os sentidos — o dedo dele deslizou pela lateral do rosto dela. O coração de Elisa pareceu saltar uma batida, mesmo que sua parte racional estivesse enviando um alerta de como aquilo não era nada demais. O problema é que... havia tanta sinceridade no olhar dele, tanta certeza, tanta admiração — Eu não sei se você esqueceu disso, ou se duvidou em algum momento, mas você é incrível, você é perfeita pra c*****o. Lis abriu a boca para responder, mas não sabia muito bem o que dizer. A única coisa que sabia, que via e que sentia, era o toque dele deslizando no seu rosto, os olhos claros dele ainda mais deslumbrantes com a iluminação do sol poente, e as palavras dele atingindo alguma parte muito quebrada sua. — Eu não... — droga, tinha esquecido por que era tão importante se manter longe dele? Jamaica simplesmente arrebentava todos os seus escudos com uma facilidade assustadora. Ela engoliu em seco — Obrigada. Ele sorriu, a mão que acariciava seu rosto desceu e a segurou pelo queixo. Elisa sentiu a respiração presa na garganta, todos os sentidos entrando em alerta, todas as defesas prontas para se erguerem. Mas não rápido o bastante para impedir que Jamaica se aproximasse e deixasse um beijo lento no canto da sua boca. — Espero que continue não se importando com esse cumprimento — ele sorriu do jeito que sempre sorria quando aprontava alguma coisa. Em seu estado alerta, ela levou apenas alguns segundos para entender do que ele estava falando. Os malditos beijos perigosos da adolescência. Elisa o empurrou para longe. — i****a — resmungou, e a ofensa não era só para ele, era para si mesma também. Que porcaria tinha acontecido com seu cérebro nos últimos instantes? — Gostosa — ele riu, levantou e se afastou pouco antes de Elisa levantar para o perseguir.
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