capítulo 15. conversa com reitor

814 Palavras
Ela me guia pelos corredores antigos da faculdade, e cada passo ecoa como se o prédio inteiro estivesse observando. — Mas… como você sabe que eu sou nova aqui? pergunto, tentando não parecer completamente perdida. Sara dá um sorriso tão aberto que por um segundo o ar pesado do lugar parece ficar mais leve. — Vale das Sombras não é uma cidade muito grande diz ela, com um toque de orgulho. — E também… todo mundo conhece todo mundo. Como eu falei, meu nome é Sara Sabino. Uma das famílias fundadoras. Eu quase tropeço. — Sério? Legal… então o meu rosto se destaca. Sorrio, meio tímida. — Se destaca muito ela responde, e antes que consiga esconder, os olhos dela fazem um rápido caminho pelo meu corpo… voltando para o meu rosto num piscar apressado. O rubor sobe nas bochechas dela tão rápido que até eu fico sem ar. Ela olha para o chão, mexe no próprio cabelo curto, e respira fundo como se tentasse recuperar o controle. É… tem algo na Sara. Algo doce, mas ao mesmo tempo… elétrico. — Bem, aqui é a sala do reitor. Ela aponta para uma porta pesada de madeira. — Boa sorte, Ravena. A gente se vê amanhã. Ela acena e dá alguns passos, mas eu fico ali, parada, observando-a se afastar pelo corredor iluminado por lâmpadas antigas. As pernas longas, o jeito elegante, o sorriso que parecia iluminar aquele prédio cinzento… Eu não sei o que é. Apenas sinto que algo nela me puxa. Como se… eu devesse conhecê-la melhor. Como se ela guardasse algum tipo de segredo. Um arrepio percorre minha nuca o mesmo que senti ao cruzar o portão da cidade. — Vale das Sombras… você é cheia de surpresas murmuro antes de bater à porta do reitor. Bato à porta duas vezes. — Entre diz uma voz grave, profunda, que faz o ar no corredor vibrar. Empurro a porta. O escritório é enorme. Mais antigo que o resto da faculdade, com paredes de pedra escura, janelas altas e móveis de madeira tão antiga que poderiam estar em um museu. O ar tem cheiro de papel envelhecido… e café frio. O homem sentado atrás da mesa ergue o olhar olhos cinzentos como neblina. Ele deve ter uns cinquenta e poucos anos, mas carrega uma presença séria, autoritária, do tipo que faz qualquer pessoa endireitar a postura. — Senhorita… Ravena, correto? pergunta ele antes mesmo que eu abra a boca. Eu congelo por um segundo. — Sim, senhor. Acabei de chegar à cidade e vim confirmar minha matrícula. Seguro a alça da minha bolsa como se ela pudesse me proteger. O reitor entrelaça as mãos. — A família Ravenscroft me avisou que você chegaria hoje. A voz dele não é hostil… mas também não é acolhedora. É apenas firme, calculada. — Eles raramente recebem alguém em sua mansão. Você deve ter impressionado o mais velho. Meu coração dispara. Nicolas… Ele falou de mim? — Espero que apenas coisas boas tento brincar, mesmo com a garganta seca. O reitor me observa com atenção demais. Não de forma sobrenatural. Mas como alguém acostumado a ler pessoas, a julgar, a medir cada detalhe. — Você parece uma jovem determinada diz ele, finalmente. — Este lugar costuma ser desafiador para quem vem de fora. Eu sinto um frio nas costas. Talvez pela maneira como ele fala da cidade, como se conhecesse cada sombra dela. — Eles apenas foram gentis comigo respondo. — Vir de tão longe não é simples. — Gentileza? Ele solta um riso curto, quase irônico. — Não é a palavra que eu usaria para descrever os Ravenscroft. Mas… cada um tem sua experiência. Ele se levanta então para pegar alguns documentos. O movimento não é silencioso ele arrasta a cadeira, a madeira estala, tudo perfeitamente normal mas ainda assim seu jeito é rígido, disciplinado. Ele me entrega uma pasta. — Aqui está sua matrícula, horários, mapa do campus e as regras principais. A mão dele é fria apenas como a de alguém que passou tempo demais lidando com papéis e ar-condicionado. — Memorize tudo. Vale das Sombras é uma cidade antiga. Tem tradições… rígidas. E a faculdade segue o mesmo padrão. Eu franzo a testa. — Trad… tradições? Que tipo de tradições? — Do tipo que evitam problemas responde ele, já voltando para a cadeira. — Não saia sozinha depois do pôr do sol. Não entre em áreas restritas do campus. E… confie apenas em quem provar que merece sua confiança. Ele pausa, me encarando por um breve momento. — Boa tarde, senhorita Ravena. Isso é claramente uma dispensa. Giro nos calcanhares e saio, ainda sentindo o peso do olhar dele me avaliador, como se tentasse adivinhar quem eu realmente sou. Quando a porta se fecha atrás de mim, finalmente consigo respirar. — O que está acontecendo nesta cidade? sussurro, apertando a pasta contra o peito.
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