Eclipse de Sara

1296 Palavras
(Sara) O luto é uma sombra que nunca termina de passar, a dor diminui, mas não passa. Faz exatamente um ano que o silêncio da casa se tornou permanente, um ano que as vozes dos meus pais se transformaram em sonhos que eu tento, desesperadamente, manter vivos na memória. Eles se foram em uma curva fechada, em uma noite de chuva, deixando-me aos dezoito anos com uma vida inteira para carregar sozinha. Agora, aos dezenove, Madri não é mais a cidade dos sonhos que imaginei quando ganhei a bolsa de estudos na faculdade de Artes; ela é um labirinto de concreto, cansaço e sobrevivência. Minha rotina é um ciclo implacável. De manhã, as aulas da faculdade são meu único refúgio, o lugar onde pincéis e tintas a óleo me permitem dizero que não consigo dizer em palavras. Eu sonho em ser artista, em ver minhas cores ganhando o mundo, mas a realidade exige mais do que talento e vontade. Exige livros caros, materiais profissionais e o aluguel de um apartamento que parece encolher a cada mês. Por isso, assim que as aulas terminam, troco o cheiro de tinta pelo cheiro de fritura e café. Faço dois turnos em uma lanchonete no centro, trabalhando da tarde até tarde da noite, servindo mesas e limpando balcões até que minhas pernas latejem e minha mente se torne um borrão de exaustão. Naquela terça-feira, o destino parecia ter decidido que meu cansaço não era suficiente, que a morte dos meus pais, foi pouco. O fechamento da lanchonete atrasou. O estoque chegou mais tarde, o gerente estava m*l-humorado e eu acabei saindo quase meia-noite. Corri para o ponto, o ar gelado de Madri cortando meu rosto, mas vi apenas as luzes traseiras do último ônibus sumindo na esquina. O próximo demoraria uma eternidade, se tivesse ainda. O dinheiro para o táxi era o dinheiro do material de gravura da semana seguinte. — Eu consigo — murmurei para mim mesma, apertando a alça da mochila. — São apenas vinte minutos de caminhada. O erro de coragem foi o primeiro passo para o abismo. As ruas, antes familiares sob o sol, tornaram-se ameaçadoras. Comecei a caminhar apressada, meu ténis batendo no asfalto vazio. Foi depois de três quarteirões que o som apareceu. Não era um som alto, apenas o eco de outros passos que não eram os meus. Tentei mudar de calçada, mas os passos mudaram comigo. Olhei de lado e vi três vultos saindo de um beco, as silhuetas alongadas pelas lâmpadas dos postes. O medo não chegou como um grito; chegou como um frio que subiu pela minha espinha, paralisando meus pulmões. Acelerei o passo. Eles aceleraram também. O riso baixo deles começou a preencher o silêncio da noite, um som que fez cada parte do meu corpo gritar "corra". E eu corri. Corri como se meus pulmões pudessem explodir, as lágrimas já embaçando minha visão. Mas as ruas secundárias de Madri são cruéis com quem está sozinha. Eu estava quase alcançando a avenida iluminada quando uma mão pesada agarrou meu cabelo. O puxão foi tão violento que meu pescoço estalou e fui jogada de costas contra o chão. O impacto me tirou o ar. — Onde pensa que vai, bonequinha? — A voz era rouca, carregada de um sotaque vulgar e do hálito puro de álcool barato, que mais lembra combustível do que bebida. Tentei me arrastar, tentei gritar, mas uma bota pressionou meu pescoço, sufocando o som na minha garganta. Eram três. Jovens, com olhos vidrados pela droga e a crueldade de quem se sente invencível. Eles não queriam meu dinheiro; a mochila foi jogada para longe sem que sequer olhassem o que tinha dentro. Eles queriam o que restava da minha dignidade. — Por favor… — minha voz saiu como um ganido, a bota ainda pesava no meu pescoço — Por favor, me deixem ir… Um tapa estalou no meu rosto, fazendo minha cabeça latejar. O gosto de sangue inundou minha boca. — Cala a boca e aproveita — disse o segundo, enquanto mãos nojentas começavam a rasgar minha blusa. O que se seguiu foi o eclipse de tudo o que eu conhecia como humano. O chão era gelado e duro, as pedras fininhas cortando minhas costas enquanto eles me prendiam. O cheiro era insuportável: fumaça de cigarro, bebida barata e o cheiro de suor de quem não tem alma. Eu sentia os toques deles, invasivos, brutais, dedos que pareciam garras marcando minha pele em hematomas que nunca sumiriam da minha memória. A dor física foi uma explosão quando eles invadiram meu corpo. Senti como se estivesse sendo rasgada ao meio, a dor, o medo, a agonia, me fizeram perder a noção do tempo. Eu gritava até minha garganta sangrar, mas eles apenas riam, dando mais tapas, mordendo meus ombros como animais famintos. Eu era uma tela que eles decidiram destruir com a pior das tintas. Fui arrastada pelo asfalto, o atrito queimando minha pele, até que me jogaram perto de um monte de lixo e folhagem seca. Eu não era mais Sara, a estudante de artes; eu era apenas um pedaço de carne descartado. A minha mente começou a falhar. Eu via as estrelas acima de mim, tão distantes, tão indiferentes. "Vou morrer aqui", pensei. O frio começou a tomar meu corpo, cada parte dele, cada machucado ardia, um toque que parecia a morte chegando para me abraçar e acabar com o sofrimento. Meus olhos se fecharam. O mundo se tornou apenas dor e o som de carros passando longe, na estrada principal. Eu estava mergulhada na escuridão, sentindo meu corpo se desligar, uma peça de cada vez. As luzes da minha mente estavam se apagando. E então, algo mudou. Não era mais o cheiro de cigarro ou de lixo. No meio daquela agonia, um perfume me atingiu. Era algo forte, profundo. Um aroma que dava paz. Senti algo se formar entre mim e o frio da madrugada. Algo quente foi colocado sobre o meu corpo — um tecido fino, macio, que deixava o cheiro mais forte. Senti mãos me tocando. Mas não eram as mãos deles. Eram mãos grandes, mas firmes, que me levantaram do chão com uma facilidade desconcertante. Pela primeira vez em horas, eu não senti o impacto de um golpe. Senti um toque que permitiu que uma pequena centelha de paz entrasse no meu peito. Era como se a morte tivesse dado uma pausa para que eu morresse em paz. Um anjo, talvez. Porém, o medo é algo que gruda da alma. Quando senti meu corpo sendo colocado novamente em algo gelado e duro, meu cérebro disparou um alerta de pânico. As lembranças do chão do beco voltaram com força total. Usei o resto de forças que ainda tinha, debatendo meus braços, tentando empurrar o ar, tentando fugir de quem quer que estivesse ali. Eu não queria ser tocada de novo. Não de novo. — Não… não… — sussurrei, as lágrimas voltando a arder. — Acabou. Você está segura. A voz era um trovão contido. Baixa, autoritária e estranhamente protetora. Abri os olhos por um segundo e vi um borrão. Um homem. Ele parecia grande, com olhos que brilhavam com uma intensidade que eu nunca tinha visto. Não era o olhar de um agressor; era o olhar de alguém que possuía o mundo. Busquei o toque daquela mão grande, precisava de algo quente, algo vivo. Era minha única âncora. No momento em que senti que ele não me soltaria, que ele era a barreira final entre mim e os monstros, meu corpo finalmente desistiu de lutar. A escuridão voltou, mas desta vez, não era fria. No segundo seguinte, eu desliguei, deixando que aquele perfume fosse a última coisa que minha mente registrasse antes do vazio absoluto - antes que a morte me levasse.
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