Pré-visualização gratuita O Controle é Meu
(Alejandro Montenegro)
A rotina é a única coisa que mantém tudo funcionando. Pessoas falham. Emoções atrapalham. Rotina não.
Acordo sempre no mesmo horário. Cinco e meia da manhã. Não preciso de despertador. Anos de disciplina fazem o trabalho por mim. O quarto ainda está escuro quando me levanto. Não há ninguém ao meu lado. Nunca há. Não gosto de dividir espaço, muito menos silêncio. Caminho até o banheiro sem pressa, lavo o rosto, encaro meu reflexo por alguns segundos. A cicatriz no meu maxilar continua ali, discreta, mas visível o suficiente para lembrar que erros deixam marcas. Sempre deixam.
Desço para a cozinha já vestido com uma camisa preta e calça social. Não uso roupas claras. Não combinam comigo. A casa está em silêncio absoluto. Como deve ser. A propriedade fica em um condomínio fechado nos arredores de Madri, longe o suficiente do centro para garantir privacidade, perto o bastante para manter controle. Segurança armada, câmeras, acesso restrito. Nada entra sem que eu saiba. Nada sai sem autorização.
Preparo o café eu mesmo. Poder pagar alguém para fazer isso não significa que eu vá. Gosto de manter controle até nas coisas pequenas. Máquina ligada, café forte, sem açúcar. Sempre o mesmo. Apoio a xícara na bancada de mármore e observo o espaço ao redor. Tudo limpo, organizado, no lugar certo. Ordem não é estética. É necessidade.
Caminho até a área externa com o café na mão. O jardim está impecável. A equipe de manutenção faz o trabalho dela sem falhas. Piscina limpa, móveis alinhados, nenhuma folha fora do lugar. Sento na cadeira próxima à mesa de vidro e tomo o primeiro gole com calma. O gosto amargo é familiar. Não preciso de mais nada pela manhã.
Pego o celular e verifico as mensagens. Relatórios, movimentações, atualizações de negócios. Leio tudo. Respondo o necessário. Ignoro o resto. Não gosto de desperdício de tempo. O telefone vibra novamente. Não olho o nome antes de atender.
— Fala.
— Pegamos ele — a voz de Matteo vem direta, sem cumprimento.
Encosto as costas na cadeira, mantendo o tom neutro.
— Onde?
— No galpão. Tentou sair da cidade ontem à noite. Pegamos na estrada.
Fecho os olhos por um segundo, processando. Tentativa de fuga nunca é coincidência. Quem foge sabe de alguma coisa ou fez algo que não devia.
— Está sozinho?
— Estava. Agora não está mais.
Não preciso perguntar o que isso significa. Matteo não faz nada sozinho por muito tempo. Sempre envolve violência antes de qualquer análise.
— Ele falou?
Há uma pausa curta.
— Ainda não.
Seguro a xícara com mais firmeza.
— O que você fez?
— Nada demais — ele responde, o tom levemente impaciente. — Só comecei a conversar.
Expiro devagar.
— Matteo, eu não tenho tempo para esse tipo de resposta. Quantas facas você usou?
Silêncio. Depois uma resposta seca.
— Duas.
Inclino a cabeça levemente.
— Você chama isso de conversa?
— Eu chamo de acelerar o processo.
— Não. Você chama isso de perder o controle.
O silêncio do outro lado muda. Ele não gosta de ser contrariado, mas nunca ultrapassa a linha comigo.
— Ele ainda está vivo — Matteo rebate. — Então não tem problema.
Levanto da cadeira e caminho de volta para dentro da casa.
— Tem problema quando a pessoa morre antes de falar.
— Ele não vai morrer.
— Você não decide isso.
Paro perto da bancada e apoio a xícara.
— Eu decido quando alguém morre.
Outra pausa. Dessa vez mais longa.
— Então vem você — ele diz. — A gente resolve isso hoje.
Pego o copo de whisky e sirvo uma dose pequena. Não bebo de manhã por hábito, mas hoje não é um dia comum.
— Eu vou.
— Ótimo. Então vem agora.
— Não.
Minha resposta é imediata .— Eu vou à noite.
— À noite? — a irritação dele fica clara. — A gente já podia ter terminado.
— Exatamente por isso eu não vou agora.
Levo o copo aos lábios, sem pressa.
— Você não termina interrogatório. Você termina pessoas.
Ele solta um som baixo, entre irritação e concordância.
— Você complica tudo.
— Eu faço funcionar.
Caminho até a janela, observando o lado externo da propriedade.
— Esse homem tentou fugir. Isso significa que ele sabe de alguma coisa relevante. Eu não vou perder essa informação porque você não tem paciência.
— Paciência não arranca informação.
— Arranca, sim. Quando usada do jeito certo.
Silêncio novamente. Matteo não gosta, mas entende.
— Onde está o Santiago? — pergunto.
— Aqui. Já está levantando tudo sobre o cara.
Assinto, mesmo sabendo que ele não pode ver.
— Quero nome completo, histórico, contatos, qualquer ligação com outras famílias. Quero saber com quem ele falou nos últimos dias, para onde estava indo e por quê.
— Já estamos nisso.
— Não o suficiente. Eu quero tudo antes de eu chegar. — Minha voz desce um tom.
— Certo.
Passo a mão pelo cabelo, mantendo o pensamento organizado.
— E Matteo…
— Fala.
— Não encosta mais nele.
— Já encostei.
— Então não encosta de novo.
— Ele precisa de pressão.
— Ele precisa de medo.
Faço uma pausa curta.
— E medo não vem de dor descontrolada. Vem de saber que não tem saída.
O silêncio agora é diferente. Mais atento.
— Você sempre faz isso — ele diz. — Fica brincando com a cabeça dos caras.
— Não é brincadeira. É método. — Minha voz sai firme.
Encosto o copo na bancada.
— Deixa ele vivo, consciente e inteiro o suficiente para falar. O resto eu resolvo.
— Você tira a melhor parte.
— A melhor parte é a informação.
Ele solta uma respiração pesada.
— Tá. Eu paro.
— Não é um favor.
— Eu sei.
Ajusto o relógio no pulso.
— Eu chego à noite.
— A gente te espera.
— E Matteo…
— O quê agora?
— Fica longe dele. Uma pausa. — E das suas facas.
Uma risada baixa vem do outro lado.
— Sem graça.
Desligo sem responder.
Coloco o celular sobre a bancada e fico alguns segundos em silêncio. O ambiente continua impecável, organizado, controlado. Tudo como deve ser. Mas já não é mais uma manhã comum. Agora existe um problema em andamento. E problemas exigem atenção.
Termino o whisky e deixo o copo de lado. Minha mente já está no galpão. No homem que tentou fugir. No que ele sabe. Pessoas não arriscam a vida sem motivo. E quem tenta sair da cidade sem autorização… já está morto. Só não sabe disso ainda.
Subo novamente para o quarto para pegar o casaco. O dia vai seguir como qualquer outro para quem está de fora. Reuniões, decisões, dinheiro circulando, negócios sendo fechados. Mas à noite é quando o trabalho real começa.
É à noite que as pessoas mostram quem realmente são.
E é à noite que eu lembro elas de quem eu sou.
Porque diferente dos meus irmãos, eu não ajo por impulso. Eu não preciso de pressa. Eu não preciso de barulho. Eu não preciso provar nada.
Eu espero.
Observo.
E quando eu ajo… termina.
Hoje à noite, aquele homem vai falar.Não porque quer, mas porque eu vou fazer ele entender que não existe outra opção.
No meu mundo, dor é só uma ferramenta. O que realmente quebra alguém… é saber que está completamente sob controle de outra pessoa.
E controle… é a única coisa que eu nunca perco.