Sem Saída

1966 Palavras
(Alejando Montenegro) O galpão fica estrategicamente longe o suficiente para que o grito mais alto não passe de um sussurro abafado pela vegetação seca e pela poeira da estrada de terra. A localização é um segredo geográfico: um ponto cego no mapa de quem vive sob a luz do sol, mas um marco familiar para quem habita as sombras. A iluminação externa é pálida, apenas o necessário para distinguir o caminho, mas não o suficiente para revelar rostos. Quem passa por ali, não para. E quem entra… bem, quem entra geralmente já perdeu o direito de escolher como vai sair. Estaciono o carro e o motor ainda estala com o calor da viagem rápida. O som do metal esfriando é a única nota de boas-vindas. Antes mesmo que eu alcance a entrada, o portão de ferro pesado range e se abre. Meus homens são treinados para a antecipação, não para a recepção. Entro no ambiente com o passo firme de quem é dono de cada centímetro de concreto e poeira daquele lugar. O ar ali dentro é diferente; tem um cheiro metálico, uma mistura de óleo de motor antigo, umidade e o cheiro do medo humano. É um ambiente funcional, desprovido de qualquer luxo que possa distrair do propósito principal: a extração da verdade. No centro do espaço, sob uma lâmpada nua que oscila levemente, está o problema da noite. Matteo está encostado em uma mesa de metal, o som rítmico de sua faca girando entre os dedos sendo o único metrônomo da cena. Santiago, por outro lado, mantém a postura acadêmica de sempre, os olhos fixos em um tablet que brilha contra a penumbra. O homem na cadeira é um trapo humano. Sangue, suor e uma resistência estúpida o mantêm ereto, embora seus olhos já comecem a perder o foco. — Demorou — diz Matteo, sem desviar os olhos da lâmina. — Ele falou? — pergunto, minha voz cortando o ar como uma navalha, ignorando a provocação sobre o tempo. — Não. Só mentiras — Santiago responde, finalmente levantando o olhar. — Ele tentou nos convencer de que era apenas um atravessador de carga roubada. O histórico dele diz o contrário. — Então vocês não começaram de verdade. Matteo solta uma risada curta e seca, guardando a faca na bainha presa à cintura. Ele se aproxima do prisioneiro com um sorriso predatório que não alcança os olhos. — Eu comecei. Ele só é mais teimoso do que parece. — Você atrapalhou. O sorriso de Matteo morre instantaneamente. Ele sabe que, no meu vocabulário, "atrapalhar" significa que ele deixou suas emoções e seu sadismo nublarem o objetivo final. Retiro meu paletó com movimentos lentos e precisos, dobrando-o e colocando-o sobre a mesa de Santiago. Arregaço as mangas da camisa branca, revelando os antebraços e o relógio que marca o tempo que esse homem não tem mais. — Vocês podem ir. — Vai sozinho? — Matteo questiona, a sobrancelha erguida em uma mistura de desafio e curiosidade. — Sim. — Eu fico. Posso ser útil se ele precisar de um incentivo físico mais… agressivo. — Não. O silêncio que se segue é denso. Matteo hesita, o ego lutando contra a hierarquia, mas a autoridade no meu olhar é uma barreira intransponível. Santiago, sempre o mais racional, toca o ombro do colega e faz um sinal discreto. Eles se retiram, e o som da porta pesada se fechando ecoa como uma sentença definitiva. Agora, somos apenas eu, o traidor e o silêncio. Caminho ao redor dele, observando a postura defensiva, a forma como ele tenta esconder o tremor nas mãos presas às costas. Puxo uma cadeira de metal, o som do arrasto rangendo contra o chão, e sento-me à sua frente. Cruzo as pernas, mantendo uma distância que é ao mesmo tempo íntima e ameaçadora. — Nome. — Já falei para os seus cachorros… meu nome é Marco. — Mentira. Ele inclina a cabeça e cospe um coágulo de sangue no chão, bem entre os meus sapatos engraxados. O ato é uma tentativa desesperada de manter alguma dignidade, um último gesto de rebeldia antes do fim. — Vai se f***r. Inclino a cabeça levemente para o lado, observando-o como um entomologista observa um inseto prestes a ser espetado. — Resposta errada. Você tentou sair da cidade às três da manhã por uma rota secundária usada apenas por contrabandistas de alto nível. Isso significa uma de duas coisas: ou você sabe de algo relevante o suficiente para ser caçado, ou fez algo que não devia contra as pessoas erradas. De qualquer forma, você vai falar. — Vai me matar de qualquer jeito — ele cospe, a voz rouca pela sede e pelo cansaço. — Sim. A resposta curta e sem um pingo de hesitação ou emoção parece atingi-lo mais do que qualquer soco. Não há promessas falsas de liberdade aqui. Não há barganha com a vida. — Mas não agora. O tempo entre este momento e o seu último suspiro é o que você pode negociar. E eu garanto que, se eu tiver que extrair as palavras, esse tempo será muito, muito longo. Você tem uma irmã, não tem? Valência. Mora em um apartamento pequeno perto do cais. O corpo dele trava instantaneamente. A menção ao nome age como uma corrente elétrica atravessando seus nervos. — E uma mãe doente que depende dos remédios que o seu "trabalho extra" financia. A respiração dele se torna irregular, um som sibilante que preenche o vazio do galpão. O pânico finalmente substitui a teimosia. — Não encosta nelas. Elas não têm nada a ver com isso. Elas nem sabem o que eu faço! — Então fala. O silêncio que se segue é o de um homem calculando o peso de uma traição contra o peso de uma vida. Ele sabe que, ao falar, sela o destino de Diego Herrera, mas protege o que resta de sua humanidade. Ele quebra. — Herrera… foi o Herrera. — Completo. — Diego Herrera… ele está planejando um desvio no carregamento de sexta-feira. Ele tem gente dentro da alfândega. Ele me pagou para observar a movimentação dos seus caminhões e reportar os horários de troca de turno. Deixo-o continuar. Ele fala sobre rotas, nomes de contatos, valores e datas. Ele despeja tudo, como se cada palavra dita fosse um pouco de peso retirado de seus ombros, ignorando que cada palavra é também um prego em seu caixão. Quando ele finalmente termina, sua cabeça pende para o peito, exausto. — Era isso. Eu contei tudo… por favor, deixe elas em paz. Eu me levanto com a mesma calma com que me sentei. Abotoo as mangas da camisa, ajusto o relógio e pego meu paletó. — Eu falei… — ele murmura, buscando uma confirmação que nunca viria. — E eu escutei. Puxo a arma do coldre velado. O movimento é fluido, quase artístico em sua eficiência. Não há discurso de despedida, não há raiva. É apenas a conclusão de um processo lógico. O disparo ecoa, um som seco e único que silencia qualquer outra dúvida. O corpo cai para o lado, a cadeira batendo no chão. Guardo a arma e caminho em direção à saída. — Limpem tudo — digo aos seguranças que aguardam do lado de fora. — Quero este lugar impecável em uma hora. Sem rastros. Estou prestes a entrar no carro quando um dos seguranças, um veterano chamado Silva, aparece correndo dos fundos do galpão, onde o terreno encontra a mata densa. — Senhor! Os cães acharam algo. Eles não param de latir perto do fosso de descarte. — Onde? — Atrás, senhor. Perto das árvores. Sigo-os. Os cães de guarda, pastores alemães enormes e treinados para matar, estão inquietos, puxando as coleiras com uma ferocidade que indica algo fora do comum. Quando alcançamos o local, as lanternas cortam a escuridão e eu vejo. É um corpo. Pequeno, em contraste com a brutalidade do ambiente. É uma mulher. Ela está caída de lado, meio submersa na folhagem seca e no lixo acumulado. Suas roupas estão em farrapos, se pode chamar aquilo de roupa, o tecido fino rasgado como se tivesse sido arrastada por quilômetros. Há sangue — muito sangue — manchando o que restou de sua roupa Paro por um segundo, processando a anomalia. Me aproximo lentamente, o som das minhas botas esmagando as folhas secas sendo o único aviso de minha presença. Me agacho ao lado dela. Estendo a mão e coloco os dedos em seu pescoço, buscando a carótida. A pele está fria, mas não gelada. O pulso está lá: fraco, trêmulo, como o bater de asas de um pássaro ferido. Mas existe. De repente, ela se mexe. É um movimento mínimo, um espasmo de dor. Inclino o rosto dela com cuidado para avaliar o estrago. Suas feições estão cobertas de terra e sangue seco, mas há uma delicadeza ali que não pertence a este lugar. — …ajuda… — O sussurro é quase inaudível, um fio de voz que carrega uma agonia profunda. Olho para os seguranças, que aguardam minhas ordens, confusos com a minha hesitação. — Meu carro. Agora. Tragam para cá. Um deles corre imediatamente. Volto minha atenção para ela. Analiso os ferimentos com um olhar clínico; cortes profundos, hematomas que sugerem uma violência sistemática e uma perda de sangue que a levaria em questão de minutos se continuasse ali. Levá-la a um hospital público seria um erro estratégico; perguntas seriam feitas, a polícia se envolveria, e eu não gosto de variáveis fora do meu controle. Ela é agora um problema meu. E eu resolvo meus problemas de forma privada. Levo a mão até o que restou da blusa dela. O tecido está impregnado de sujeira e sangue, grudado nas feridas abertas, servindo apenas para causar infecção. Com um movimento firme e desprovido de qualquer hesitação s****l, arranco o resto dos farrapos. Em seguida, retiro minha própria camisa. O ar da noite atinge meu peito, o frio sendo apenas um detalhe irrelevante. Envolvo o corpo dela com a camisa, o tecido de algodão agora servindo como uma bandagem improvisada e proteção contra o sereno. Ela m*l reage ao toque, a consciência oscilando perigosamente. Melhor assim. Se ela estivesse acordada, o trauma seria pior. Deslizo um braço por baixo de seus joelhos e o outro por trás de suas costas, levantando-a. Ela é leve, frágil, quase desprovida de peso, como se a vida já tivesse abandonado boa parte de sua estrutura. O corpo dela cede contra o meu, a cabeça caindo pesadamente contra o meu ombro. Sinto o calor remanescente de sua pele contra a minha. Abro a porta traseira com violência e entro, mantendo-a firmemente presa contra o meu peito. Em vez de simplesmente deitá-la no banco, sento-me e a acomodo diretamente em meu colo, firmando seu corpo contra o meu para que o movimento do carro não a machuque ainda mais. Passo um braço por baixo de suas pernas e o outro em volta de sua cintura, sentindo a fragilidade de sua estrutura enquanto a mantenho protegida e imobilizada pelo meu peso. — Hospital — digo ao motorista, minha voz mais seca do que nunca. — O nosso. Avise a equipe médica para preparar a sala de trauma. Sem perguntas, apenas resultados. O motorista assente e o carro arranca, jogando terra para todos os lados. Olho para baixo, para a figura quebrada em meu colo. A respiração dela é um ritmo irregular de sobrevivência. Alguém fez isso. Alguém a tratou como um descarte, um resto de carne sem valor. Isso foi um erro. Um erro grave. Apoio a cabeça no banco, os olhos fixos na estrada escura à frente. O jogo mudou, e quem quer que tenha começado isso não faz ideia de que o fim acabou de ser decretado. No meu mundo, a dívida de sangue nunca fica sem cobrança.
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