CAPÍTULO 29 — O ACERTO DE CONTAS DA IRRESPONSÁVEL
Bia
Entrei fechando a porta de madeira devagar atrás de mim, sentindo o ar rarefeito daquele lugar pesado. O Rafael tava sentado na cadeira da Larissa - a cadeira dela, do lado esquerdo da mesa, com os cadernos dela fechados em cima - braços cruzados e fumaça de cigarro subindo devagar. O olhar dele não tinha nada da paciência que ele tinha com minha irmã. Pra mim era puro desprezo e frieza.
Rafael: — Cê tem dois minutos, Bia. Porque minha contadora sobe 19h30 todo dia e eu não deixo ninguém sentar no lugar dela por muito tempo. Fala logo o que inventou agora.
Meu rosto esquentou de raiva e vergonha. Cruzei os braços, bancando marra que não tinha.
— Vim falar desse lance da Larissa vir todo dia pagar minha dívida — soltei voz trêmula. — Não é justo ela ficar presa aqui por causa de erro que foi meu. Se tem que dever algo pra você, o problema é meu, não dela.
Ele deu tragada lenta, soltou fumaça pro lado e soltou riso curto e seco, sem humor.
Rafael: — Justo? Tua irmã tem palavra, você passa longe de saber o que é isso. Larissa subiu aqui peitando perigo pra salvar tua pele, aceitou acordo sem choramingar e tá ralando de verdade pra quitar o que você estourou. Agora você aparece bancando heroína arrependida? Teu lugar aqui acabou no dia que você queimou a firma da Vila Nova. O dela não. Ninguém toma.
— Não tô bancando heroína! — rebati perdendo controle e subindo tom. — Só tô dizendo que não precisa ficar usando ela de escrava aqui toda noite! Se quer descontar em alguém, desconta em mim, mas deixa a Lari fora disso!
Antes que eu terminasse a frase, a porta do escritório foi empurrada com estrondo.
Madeira estalou na parede. Virei pescoço e vi Larissa parada no batente.
Ela tinha chegado mais cedo hoje - a encarregada do Bom Retiro mandou todo mundo embora porque acabou o lote de pano - peito arfando de ter subido a ladeira correndo, bolsa pendurada de qualquer jeito no ombro e rosto completamente desfigurado de ódio e choque. Ela tinha ouvido tudo da varanda porque Leão deixou a porta entreaberta de propósito.
Rafael levantou na mesma hora da cadeira da Lari, como se nem quisesse que eu tivesse encostado ali.
Larissa: — O que foi que você disse, Bia? — a voz dela saiu num sussurro tão rasgado e frio que me gelou até a alma. — Desconta em você? De novo? Você vai oferecer o quê pra ele, Bia? O que você tem pra oferecer?
O silêncio tomou a sala. E eu entendi naquela hora que eu não tinha vindo consertar nada. Eu tinha vindo estragar o único acordo que tava mantendo a gente viva.