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CAPÍTULO 1 - o dono do morro
Seis da manhã e o morro já tava acordado. Moto subindo, porta de aço da padaria levantando, cheiro de pão fresco.
Eu, Larissa, 20 anos, loiro-escuro, olhos verdes, boca carnuda, bonita na medida. Costureira no Bom Retiro de dia.
Minha irmã Bia, 21, drogada, gostava de bailão, bebida e droga. Eu sabia a hora de voltar, ela não.
Naquela sexta voltei do trabalho cansada e vi ela na viela. Dois homens da Boca segurando o braço dela.
"Já passou do prazo."
"Semana que vem eu pago."
"Não tem mais semana que vem."
Meu estômago gelou. Bia me viu: "Lari?"
O homem soltou ela: "Sua irmã chegou."
Levei ela pra dentro.
"Quanto, Bia?"
Ela desviou o olho. Falou o valor.
Oitenta mil. Mais do que eu faço em um ano na confecção.
"Você tá devendo pra Boca, Bia?"
"Tô."
Naquela noite fiquei olhando pro teto. O bailão da DZ7 comendo solto lá embaixo e eu pensando que eles iam voltar. E da próxima vez não iam conversar.
De manhã prendi o cabelo, roupa simples e subi sozinha até a Boca. Depois do bar antigo, numa viela que ninguém de fora conhece.
Dois caras na porta.
"Perdeu, mocinha?"
"Vim falar com o Rafael. Sobre a dívida da minha irmã Bia."
O sorriso sumiu.
Entrei. Mesa simples, ventilador velho, cheiro de cigarro. E no fundo, sentado como dono de tudo, Rafael.
Muito bonito de um jeito irritante. Cabelo escuro, corpo grande, mas os olhos frios, sem emoção. O dono do morro. O homem que não perdoava dívida.
Rafael: — Você é a irmã da Bia.
Larissa: — Sou.
Rafael: — Ela sabe que você tá aqui?
Larissa: — Não.
Rafael: — Então fala.
Larissa: — Me dá trinta dias. Eu pago. Eu trabalho no Bom Retiro.
Ele ficou em silêncio me olhando. Eu não abaixei os olhos.
Rafael: — Vai ser difícil. Muito difícil.
Larissa: — Mesmo assim eu vou tentar.
Rafael: — Trinta dias. Se sua irmã fizer outra dívida, o acordo acaba.
Soltei o ar. Consegui.
Levantei pra ir embora. Na cortina ele me chamou.
Rafael: — Larissa.
Virei.
Ele me olhou de cima a baixo, parou na minha boca.
Rafael: — Trinta dias. Você vem todo dia aqui depois do asfalto. Costureira de dia, contadora da minha Boca de noite.
E antes de eu sair, ele falou baixo, com aquela voz que me deu pavor e outra coisa junto:
Rafael: — E reza pra sua irmã drogada não fazer mais dívida. Porque se ela fizer, quem paga é você. E não vai ser com dinheiro.
Saí com o coração na garganta. Tinha conseguido 30 dias pra pagar 80 mil.
O que eu não sabia era que eu tinha acabado de me vender pro dono do morro.
NOTA DA AUTORA
Primeiro capítulo, meninas! Já comenta o que achou da Lari enfrentando o Rafael!