Antes do fim

1292 Palavras
📖 PODER SEM DONO Capítulo 2 — Antes do Fim Alguns anos antes... Muito antes daquela noite. Muito antes de Veyra atravessar os portões do castelo com uma pequena bolsa nas mãos. Muito antes de conhecer o significado da palavra abandono. Veyra era apenas uma jovem súcubo de uma pequena aldeia. A aldeia ficava entre uma floresta antiga e uma cadeia de montanhas. Era um lugar simples. Casas de pedra e madeira. Pequenas plantações. Animais. Comerciantes atravessando a estrada principal. Crianças correndo pelas ruas de terra. As pessoas dali não eram nobres. Não tinham grandes riquezas. E Veyra havia crescido exatamente como todos os outros. Ajudava a família. Buscava água. Colhia frutas. Cuidava da casa. Conversava com os vizinhos. Era uma vida simples. E Veyra gostava dela. Apesar de ser uma súcubo, nunca havia demonstrado interesse pelas grandes cidades ou pelos palácios. Ela gostava das coisas pequenas. Gostava de flores. Gostava de caminhar pela floresta. Gostava de sentar perto do rio. Gostava de conversar com as pessoas da aldeia. E, principalmente, não fazia ideia do tamanho do poder que carregava. Desde criança, coisas estranhas aconteciam ao seu redor. Quando ficava assustada, as janelas tremiam. Quando chorava, o vento aumentava. Quando ficava com raiva, pequenas pedras começavam a levitar. Sua família achava que aquilo era apenas uma manifestação incomum de magia. Até o dia em que tudo mudou. Veyra tinha dezessete anos. Era uma manhã tranquila. Ela caminhava pela floresta carregando uma cesta de frutas. O sol atravessava as folhas. Os pássaros cantavam. O rio corria próximo. Tudo parecia normal. Até que Veyra sentiu alguma coisa. Ela parou. Olhou ao redor. — Tem alguém aqui? Nenhuma resposta. Ela continuou andando. Então ouviu um estrondo. Uma árvore enorme caiu alguns metros à frente. Veyra recuou. Entre as árvores apareceu uma criatura. Era grande. Muito grande. Um demônio selvagem. Veyra ficou paralisada. A criatura avançou. Ela tentou correr. Tropeçou. Caiu. A criatura ergueu uma das patas. Veyra fechou os olhos. E gritou. O mundo respondeu. Uma onda de energia explodiu ao redor dela. A floresta inteira tremeu. A criatura foi lançada para longe. Árvores foram arrancadas do chão. Pedras voaram. O rio mudou de direção por alguns segundos. Veyra abriu os olhos. Ela estava no centro de uma enorme área destruída. Seu coração disparava. — O que... eu fiz? Ela olhou para as próprias mãos. Não entendia. Não sabia controlar aquilo. E não percebeu que alguém estava observando. Do alto de uma montanha próxima. Kaelen. O Ser Supremo. Ele havia sentido aquela explosão de energia a quilômetros de distância. E havia reconhecido imediatamente. Aquela não era uma magia comum. Não era energia demoníaca comum. Não era magia élfica. Era algo diferente. Algo extremamente raro. Kaelen desapareceu da montanha. No instante seguinte, estava diante da floresta. Veyra deu um passo para trás. — Quem é você? Kaelen não respondeu imediatamente. Observou a área destruída. Depois olhou para ela. — Foi você? Veyra ficou nervosa. — Eu... eu não sei. — Sabe. — Eu não fiz de propósito. Kaelen percebeu o medo em seus olhos. Sua expressão suavizou. — Eu sei. Veyra o observou. — Você é um demônio? — Não. — Um elfo? — Não. — Então o que é? Kaelen respondeu simplesmente: — Kaelen. Ela esperou. — Só Kaelen? — Por enquanto. Veyra franziu a testa. — Você é estranho. Pela primeira vez, uma pequena mudança apareceu na expressão dele. Quase um sorriso. — Já me disseram isso. Veyra olhou novamente para a floresta destruída. — Eu fiz tudo isso? — Sim. — Eu vou ser castigada? — Não. — Então o que vai acontecer? Kaelen ficou olhando para ela. — Você vai aprender a controlar isso. Veyra balançou a cabeça. — Eu não consigo. — Ainda não. — Você consegue? — Consigo. — Então me ensina. Kaelen ficou em silêncio. Aquela resposta simples mudaria a vida dos dois. — Tudo bem. --- Nos dias seguintes, Kaelen começou a aparecer na aldeia. No começo, Veyra não sabia quem ele era. Para ela, era apenas um homem misterioso que sabia mais sobre seu poder do que qualquer outra pessoa. Ele a levava para lugares afastados. Montanhas. Campos vazios. Florestas. E ensinava. Veyra descobriu que seu poder não tinha uma forma única. Podia ser força. Energia. Barreira. Pressão. Movimento. E, quando perdia o controle, podia se tornar algo muito maior. Kaelen ensinava enquanto ela aprendia. Mas havia uma diferença entre os dois. Kaelen não tratava Veyra como uma a**a. Nunca. Quando ela errava, ele corrigia. Quando ela tinha medo, esperava. Quando ela se cansava, parava. E Veyra começou a confiar nele. Muito. Certa tarde, depois de uma sessão de treinamento, Veyra estava sentada à margem de um rio. Kaelen permanecia próximo. Ela olhou para ele. — Por que você está me ajudando? — Porque alguém precisa ajudar. — Você ajuda todo mundo? — Não. — Então por que eu? Kaelen olhou para o rio. — Porque seu poder é grande demais para você carregar sozinha. Veyra sorriu. — Então você se preocupa comigo? Kaelen permaneceu em silêncio. Veyra riu. — Isso foi um sim. — Interprete como quiser. Ela sorriu ainda mais. Foi assim que começou. Sem grandes promessas. Sem cerimônias. Sem testemunhas. Apenas duas pessoas conversando à margem de um rio. Uma súcubo plebeia. E o ser mais poderoso do mundo. Com o tempo, Veyra começou a descobrir quem Kaelen realmente era. Descobriu que reis se curvavam diante dele. Que antigos demônios conheciam seu nome. Que existiam histórias sobre ele que tinham milhares de anos. — Você é o Ser Supremo? Kaelen olhou para ela. — Sim. Veyra ficou alguns segundos em silêncio. Depois perguntou: — E por que nunca me contou? — Você nunca perguntou. Ela cruzou os braços. — Eu perguntei quem você era. — E eu respondi. — Você é impossível. Kaelen quase sorriu. Mas foi nesse momento que algo começou a mudar. Veyra deixou de vê-lo apenas como seu mestre. Kaelen deixou de vê-la apenas como uma jovem com um poder incomum. Os sentimentos chegaram lentamente. Sem que nenhum dos dois percebesse exatamente quando. Até que um dia Veyra simplesmente perguntou: — Posso ficar com você? Kaelen a encarou. — Onde? — No seu castelo. — Por quê? Veyra deu de ombros. — Porque gosto de ficar perto de você. Kaelen ficou em silêncio. Depois respondeu: — Pode. E Veyra foi morar no castelo. No começo, tudo parecia gigantesco demais. Os corredores eram maiores que sua antiga aldeia. Os jardins pareciam não ter fim. Havia salas que Veyra nem sabia para que serviam. Ela continuava sendo a mesma garota simples. Às vezes se perdia nos corredores. Às vezes entrava em salas erradas. Às vezes encontrava Kaelen em reuniões importantes e simplesmente perguntava: — Você já comeu? Os conselheiros ficavam em silêncio. Kaelen apenas respondia: — Ainda não. — Então vem. E o Ser Supremo simplesmente deixava a reunião. Foi assim que Veyra entrou na vida dele. Não como princesa. Não como rainha. Não como alguém importante. Mas como Veyra. A súcubo plebeia que fazia o castelo parecer menos silencioso. E, durante muito tempo... Kaelen acreditou que aquilo poderia durar para sempre. Até perceber que o poder dentro dela estava crescendo. Muito mais rápido do que qualquer um esperava. E ele começaria a tomar uma decisão que, anos depois, levaria exatamente àquela noite. A noite em que ele a colocaria para fora. A noite em que tudo terminaria. Mas naquele passado distante... eles ainda não sabiam disso. Naquele momento, Veyra apenas caminhava pelos jardins do castelo ao lado de Kaelen. Sorrindo. Sem saber que havia acabado de entrar na vida do ser mais poderoso daquele mundo. E sem imaginar que, um dia, seria justamente ele quem fecharia as portas daquele castelo diante dela.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR