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-Seja bem vindo, Eduardo. Como eu havia mencionado você vai ficar responsável, na maior parte do tempo, pela minha filha, e às vezes pelas missões exteriores. Vem, venha conhecê-la.
Os dois caminham até o quarto no fim do corredor da mansão, dão dois toques na porta e abrem. Lá encontram uma garota lendo um livro, sentada na cama, que m*l nota a entrada de seu pai, acompanhado de um estranho.
-Filha, esse é o Eduardo Diaz, meu novo segurança. Ele vai ficar responsável por você.
-Olá! - diz Eduardo.
A garota muda de página e não diz nada, nem olha na direção dos dois.
-Filha, diga oi ao rapaz. Tenha bons modos.
Ela continua lendo e não há resposta alguma. O homem mais velho coloca a mão no ombro de Eduardo e saem do quarto.
-Não ligue pra isso, ela não anda muito bem há um tempo, não conversa, não come direito... Coisa de adolescente.
-Tudo bem senhor Ramirez, eu entendo.
-Pode me chamar só de Paco, rapaz.
-Certo, desculpe.
-Ah, e não se esqueça: você vai somente levá-la aonde precisa e nada mais.
-Entendido, senhor.
Luiz Paco Ramirez é o chefe do cartel do México, um homem muito temido, importante e respeitado, mas às vezes um filho da p**a. Construiu seu império graças ao tráfico de drogas e de armas, império este onde vivem seus homens e sua única filha, Mica, uma garota, reservada e sem amigos. Foi criada desde que nasceu no império de seu pai, longe de tudo e cercada de seguranças. Não podia fazer praticamente nada sozinha, ia à escola, passeava, fazia compras sempre acompanhada pelos capangas de seu pai.
Alguns dias depois Eduardo bate na porta de seu quarto:
-Olá! Seu pai mandou eu te buscar pra dar um passeio, vamos.
Mica ouve o recado, mas nem sequer se mexe. Desde quando seu pai se preocupava com isso? Só se importava com as coisas dele.
Eduardo, vendo que Mica não o acompanhou, insiste:
-É melhor você ir, senão ele mesmo vai te levar.
-Pro inferno você e ele.
-Tudo bem, você escolheu.
Mica revira os olhos, mas levanta e sai do quarto, desce até a sala e encontra seu pai assistindo televisão acompanhado de seus homens:
-Vá dar uma volta, vai ser bom você vai ver. Está mesmo precisando sair, tomar um ar.
A expressão de Mica muda de neutra para uma expressão de desprezo, seu pai falou como se ela fosse uma louca descontrolada.
Quando se vira para sair, seu pai a segura pelo braço:
-E pára de ficar andando com isso pra todo lado, ela já se foi! - diz olhando pro colar que sua filha estava usando.
Ao ouvir isso, Mica puxa seu braço com força, se vira e sai em direção a porta. Talvez ela precisasse mesmo tomar um ar, o de dentro de casa não estava muito bom. Lá fora entra no carro, onde Eduardo estava esperando.
-E então, pra onde vamos? - diz Eduardo ao se virar para o banco de trás.
Mica não responde, apenas abaixa a cabeça e começa a olhar para seu colar.
-Eu tenho uma idéia. - diz Eduardo ao mesmo tempo em que se vira pra frente e começa a dirigir.
Estavam seguindo o caminho em silêncio, até que ele faz uma pergunta:
-Aquela hora seu pai se referiu à sua mãe, não é? O que houve com ela?
Mica também não diz nada, dessa vez pareceu mais triste ainda do que da primeira vez que a viu. Tinha uma expressão neutra, mas sabia que sua alma era melancólica e solitária, carregava uma tristeza que a cada dia que passava, tomava mais conta dela. E Eduardo sabia como deixá-la feliz, ou pelo menos tentar.
Depois de um tempo chegaram em um parque de diversões, uma das poucas atrações da cidade, ponto de encontro de jovens após a escola, famílias aos finais de semanas e casais apaixonados. Eduardo comprou vários ingressos para Mica, que não se animou a ir em nenhuma das atrações. De repente teve uma ideia, e tinha quase certeza de que ia dar certo dessa vez.
Chama Mica e se retiram dali. Vão se afastando da cidade, até que chegam em uma praia. Lá, Eduardo desce do carro e senta na areia, mas Mica fica. Um tempo depois ela sai e se senta ao lado dele.
-Eu vinha aqui quando era criança. Meu pai chegava bêbado em casa e me batia, então fugia de casa e vinha pra cá, me fazia bem, esquecia aquilo tudo. A partir daí esse lugar se tornou um refúgio pra mim.
Mica ouve tudo, queria dizer que não se importava, mas não consegue, fica um tempo em silêncio e depois consegue dizer algo:
-Ela se matou.
-O quê?
-Você perguntou da minha mãe. Ela se matou. Ela achava que o papai mexia com ações de empresas, investimentos, essas coisas, mas quando descobriu o que ele realmente fazia não aguentou e se matou. Quase toda a família dela foi morta por gente que nem o papai ou os seguranças dele e o pior é que eles não tinham nada a ver com isso. Ele não queria que eu descobrisse, mas acabei descobrindo. E eu acho que é por isso que ele me odeia.
-Sinto muito pela sua mãe e por tudo isso, mas seu pai não te odeia, só quer te proteger.
-Você não sabe de nada, acabou de chegar e fala como se estivesse na família há anos!
Mica olha pro colar que está segurando, mas não consegue segurar as lágrimas.
-Ela era a única pessoa que me amava de verdade, éramos muito próximas. Esse cordão foi a única coisa que sobrou dela, papai fez questão de se livrar de tudo, tudo mesmo. Não tenho sequer uma foto dela.
Eduardo, vendo Mica chorar daquele jeito, ignora imperiosamente o que Paco havia dito, não pensa duas vezes e a abraça enquanto acaricia seus cabelos. Os dois ficam ali por um tempo, aproveitando a companhia e o calor um do outro.
-Eu lembro que ela adorava o espaço, os planetas, as estrelas, essas coisas e eu também peguei gosto pela coisa. Adoro olhar pro céu pra ver as constelações.
Eduardo vê a oportunidade de deixar a garota animada e vai em frente.
-Olha, tá vendo aquela ali com uma estrela brilhante na ponta, lá pra direita, na direção do meu dedo? Aquela é o Cruzeiro do Sul.
Ao dizer isso, nota que a garota levanta a cabeça e olha na direção apontada.
-Aquela outra, mais pra esquerda é a Ursa Maior. Não sei por quê, mas ela me lembra do meu cachorro.
Eduardo olha disfarçadamente para o lado e nota que Mica está sorrindo. Ele conseguiu.
-E a que está mais pra baixo da Ursa é a de Orion, minha preferida.
-Dá pra ver que você sabe bastante...
-Sim, eu...
De repente o celular de Eduardo toca.
-Seu pai pediu pra gente voltar. É melhor a gente ir logo, vem.
Eduardo ajuda Mica a se levantar e vão para o carro. A viagem de volta parece mais tranquila, como se tivessem deixado uma tonelada de pedras para trás.
Chegando lá, Mica estava dormindo, como não queria acordá-la, Eduardo a carrega até seu quarto, a coloca na cama, tira seus sapatos e a cobre. Quando estava prestes a sair do quarto, ele ouve Mica dizer algo:
-Ei, você pode ler pra mim?
-Ahn, si-sim, claro. O que quer que eu leia?
Mica entrega um livro nas mãos de Eduardo: "Arsène Lupin, o Ladrão de Casaca".
-Esse parece bom, vamos ver.
-Antes de começar, não quero que pense que sou um bebê por te pedir isso. É só que... eu gosto de imaginar as histórias, me fazem sentir melhor.
Eduardo sorri e se senta na cama de Mica.
-Tá tudo bem, não tem nada errado em pedir isso. Às vezes imaginar é tudo o que temos.
Não demora muito para que a garota durma, e assim que isso acontece Eduardo a cobre novamente e sai do quarto, porém não antes de permanecer um tempo olhando para ela, com certa ternura e admiração. Ele sabia que sentia algo, mas não admitia para si próprio, também sabia que não deveria e que não podia expressar os sentimentos, caso contrário era um homem morto.
À medida que os dias passam, a convivência dos dois aumenta, fazendo com que fiquem mais próximos. Certa vez, Mica chamou Eduardo para jogar algum jogo, ela também o via como uma companhia, alguém em que pudesse confiar, o que era bom, visto sua situação antes da chegada dele na casa. Seu pai achou interessante, confiava em Eduardo e pensava que podia ser um bom amigo para Mica, mas mesmo assim ficava de olho.
Quando estão jogando, Paco os interrompe e chama Eduardo em particular.
-Eduardo, temos uma carga chegando e preciso de você e todo o pessoal.
-Tudo bem, mas e a Mica?
-É coisa rápida, ela vai ficar bem. Vou falar com ela, pode ir.
-Sim, senhor.
Paco espera Eduardo sair e vai falar com sua filha.
-Preciso sair pra resolver umas coisas do meu trabalho e espero que não tente nada igual da última vez, senão vai fazer companhia pra sua mãe, ouviu?
Mica não diz nada, nem sequer se move.
-Te fiz uma pergunta, p***a!
A garota faz um gesto positivo com a cabeça.
-Muito bem. - o homem se vira e bate fortemente a porta atrás dele.
Chegando no local marcado, Paco e seus homens não esperam muito até aparecer quem eles estavam aguardando. Avistam um carro ao longe, que vai se aproximando aos poucos e pára ao lado deles. Dele sai um homem desacompanhado, o que era estranho.
-Paco, Paco, meu velho amigo. Finalmente nos reencontramos.
-Você..... de novo não.
-Ahh, eu sim. Por que não?? Achou que nunca mais me veria depois do que fez?
-Só...me entrega o que viemos buscar.
-Ah não, você não vai receber nada hoje.
Os seguranças de Paco rapidamente apontam suas armas para o homem sozinho.
-Ei, se acalmem meus camaradas. Só queria dizer que vosso senhor está prestes a perder algo muito valioso, só depende dele.
-O quê? - Paco sussurra tentando descobrir o que ele queria dizer.
-Mica! - exclama Eduardo, que sai correndo e pega o carro para ir atrás da garota.
-Seu desgraçado, o que você fez?
-Por enquanto nada. E nem vou fazer, só meus homens, assim como os seus fizeram comigo. É melhor se apressar, amigo, o tempo está passando, ou vai deixá-la morrer igual sua esposa? Isso seria péssimo para os seus negócios, ou melhor, o fim de tudo.
Após dizer aquilo o homem entra em seu carro e vai embora, deixando Paco ainda mais furioso do que já estava.
-AAHHHH, SEU FILHO DA p**a!!
Paco se vira para seus homens e dá a ordem de procurarem Mica imediatamente, mesmo não tendo ideia de onde encontrá-la. Seus negócios viriam abaixo se algo acontecesse com ela, apesar de ser um fardo, salvá-la era parte do plano para manter sua imagem de herói.
Passam-se dias de incessantes buscas e muita apreensão, mas nenhum sinal da única filha de Paco. Seus homens reviraram a cidade de todos os modos possíveis, mas nada de encontrar a garota.