Narrado por Julian.
- Você não é a Rosalia. - declarou Romeo com clareza, e eu concordei com um aceno de cabeça.
- Não, não sou. - eu respondi de forma simples.
- Mas eu ouvi você... você disse para a garota que estava recolhendo convites que você era Rosalia! - acusou ele, enquanto eu o encarava, nervosamente mordendo o meu lábio inferior, enquanto ele expressava a sua frustração.
- Sim, é verdade. Rose é minha prima. Ela não estava com vontade de vir esta noite, então, ela me deu o convite dela. - eu expliquei calmamente. Romeo soltou um suspiro de compreensão, passando a mão pelos cabelos, visivelmente ainda mais frustrado.
- Você é o gatinho. - comentou ele, de forma um tanto aleatória, e eu fiz uma careta. Seria isso um comentário homofóbico velado que eu nunca tinha ouvido antes?
- O quê? - eu questionei.
- No f*******:? A sua foto de perfil é de gatinho, certo? - eu fiz outra careta, pois fazia mais de uma semana que eu não entrava na minha conta do f*******:. Nathan, aquele i****a, deve ter hackeado minha conta e mudado a minha foto de perfil.
- Ah, sim. - eu murmurei, envergonhado. Ele provavelmente estava me achando um completo i****a agora. - Por que você estava na minha página do f*******:?- eu perguntei, quando a minha mente finalmente começou a acompanhar tudo o que estava acontecendo.
- Estava procurando Rosalia, é claro. - ele se justificou distraído, m*l prestando atenção em mim, possivelmente se lamentando internamente por ter a sua masculinidade ferida, acredito eu.
- Claro. - eu respondi, sem muito entusiasmo.
Então, ele esteve flertando comigo durante está noite, me confessou ter possíveis sentimentos por mim e até me beijou. Eu estava completamente perdido quanto ao significado disso tudo. Romeo definitivamente não parecia ser t**o o suficiente para me confundir com a minha prima. No entanto, após notar a sua expressão de descontentamento, eu decidi rapidamente descartar a ideia de que tudo isso poderia ser uma piada de mau gosto por parte dele.
- Olha, eu sinto muito - disse Romeo de repente, olhando sinceramente para mim. - Você deve estar imaginando que eu sou algum tipo de louco, e nada deve fazer sentido para você esta noite.
- Acredito que eu tenho uma boa compreensão do que aconteceu, na verdade. - eu respondi com um toque de ironia. - Estou um pouco perplexo sobre como você me confundiu com uma garota em primeiro lugar, como isso aconteceu?
Romeo ergueu as sobrancelhas por um momento antes de responder:
- Você deve estar me achando ainda mais estranho agora. - continuou ele. - Mas acredito que devo uma explicação. Descobri online sobre o que aconteceu com a sua prima, como ela perdeu os pais e ficou praticamente sem teto por alguns meses. - eu balancei a cabeça em compreensão. - Então, eu imaginei que talvez ela estivesse realmente confusa com isso... ou algo do tipo. Eu não sei, talvez eu estivesse tão encantado com ela que eu não prestei atenção o suficiente.
- Bem, eu sei que sou um pouco afeminado, mas caramba! - eu comentei aleatoriamente para aliviar a tensão, e Romeo riu.
- Sinto muito mesmo. E sinto muito por ter te beijado. Mas você é... gay, certo? - eu olhei para ele abruptamente; ninguém além da minha família deveria saber disso, mas a essa altura, parecia um detalhe mínimo, especialmente porque foi ele quem me beijou primeiro.
- Como você sabe disso? - eu soltei, tentando disfarçar.
Romeo riu novamente.
- Você me beijou de volta. - ele respondeu, e o meu rosto se aqueceu de vergonha. Eu realmente o beijei de volta, como um i****a. Mesmo assim, eu olhei para ele com uma mistura de defesa e vergonha, sem saber o que dizer.
- Se Rose quisesse ser um homem para sempre, você ficaria bem com isso? - eu perguntei, e Romeo encolheu os ombros, parecendo pensar por um momento.
- Acho que nunca saberemos. Além disso, agora tenho que pensar em outra maneira de convidá-la para sair, o que provavelmente será ainda mais difícil quando ela souber que eu beijei o primo dela.
- Ah, você pode ficar tranquilo. Eu não vou contar a ela. - eu murmurei de repente. Romeo piscou para mim.
- Mesmo? - ele perguntou, e eu dei de ombros.
- Sim, não quero estragar nada para você. Mas... - eu acrescentei. - Você deveria saber que ela não está no seu melhor momento. Não acho que ela esteja procurando por algo assim agora, na verdade, acredito que ela não vai procurar por algo assim por um tempo. - eu deixei claro, o que realmente era a verdade. Romeo assentiu tristemente, como se também suspeitasse disso.
- Esse pensamento também me ocorreu. Mas não consigo parar de pensar nela desde que eu a conheci. - confessou ele. Eu pressionei os lábios e assenti novamente.
- Tudo bem. Boa sorte, eu acho. - disse a ele. Romeo sorriu, e o meu coração quase parou.
- Obrigado. Você quer que eu vá embora? Digo, se aquele garoto estiver por perto, eu... - eu balancei a cabeça.
- Eu vou ficar bem. Obrigado. - eu respondi. Romeo parecia incerto, mas ele se virou para partir, e eu fiquei ali, observando-o ir embora.
- Ei, garoto? - ele me chamou quando se voltou novamente para mim.
- Julian.- eu respondi.
- Certo. - ele sorriu. - Se Rosalia beijar como você, então eu sou um cara de sorte. - ele disse isso e se afastou.
***
Narrado por Romeo.
Eu fiz o meu caminho para sair do ginásio da Capuleto com passos rápidos e cabeça baixa, amaldiçoando-me a cada movimento. Por que eu disse aquilo? O que eu estava pensando? O que há de errado comigo? Eu andava pelos corredores até que eu atravessei as majestosas portas principais da escola, quase tendo um ataque cardíaco quando Ben surgiu abruptamente da esquina, bloqueando o meu caminho.
- Jesus! - eu exclamei, levando a mão ao peito
- Não, sou só eu. - Ben disse com um sorriso, enquanto eu fazia uma careta. - E então, como foi? Você ficou lá dentro por um bom tempo; você deve tê-la encontrado. - continuou ele, bombardeando-me com as suas perguntas incessantes.
- Na verdade, acho que eu conheci outra pessoa. - eu admiti, e Ben me olhou para mim em confusão.
- Você só pode estar brincando comigo. - ele murmurou. - Outra Capuleto? Qual é a dessa sua fraqueza súbita com as garotas Capuleto? - Ben zombou, e eu consegui reprimir um riso.
- Bom... - eu comecei, e ele franziu a testa para mim, me examinando com desconfiança.
- O que você não está me contando? - ele me pressionou, a sua expressão ficando séria.
- Nada! - eu respondi.
- Escuta aqui, seu merdinha. - Ben ameaçou, - Eu passei por muita coisa esta semana por sua causa. Primeiro, com aquela briga estúpida do lado de fora do The Cube, e agora te ajudando a entrar em um baile onde, francamente, você deveria ter sido expulso e levado uma surra de Tyler Dawes. E a escola tem sido um saco ultimamente, então, se algo acontecer, eu posso estar lá para ajudar. É melhor você só aceitar que eu sou o melhor amigo que você já teve e me contar agora.
Ben fez o seu monólogo dramático de amigo fiel, e eu suspirei, aceitando a sua teatralidade desnecessária.
- Tudo bem. - eu bufei. - Eu... eu a segui, Rosalia, e acabamos conversando durante está toda. E então, estávamos no vestiário e eu a beijei... eu tirei a máscara dela e...
- Por Deus. - Ben disse lentamente. - Não era ela, era? Eu te disse que ela parecia estranha naquele smoking. Quem era, algum tipo de lésbica futurística?
- Não. - eu respondi. - Era um cara. O primo dela. - eu contei, fazendo Ben me encarar por um longo momento antes de começar a tremer com risadas contidas. O seu rosto ficou vermelho cereja, e ele teve que morder os lábios para controlar o riso prestes a explodir.
- Continua. - eu murmurei, acenando na direção dele, e de repente, o riso escapou do seu corpo enquanto ele convulsionava em gargalhadas, segurando o estômago e se apoiando no meu ombro para se manter de pé.
- Só você mesmo.- ele disse entre respirações. - Isso só poderia acontecer com você.
- Eu sei.- eu retruquei, jogando a minha máscara agora inútil em uma lixeira enquanto continuávamos caminhando.
- Quer dizer... por Deus. - Ben finalmente se recuperou, respirando fundo algumas vezes. - Isso é simplesmente impagável. O que aconteceu depois?
- Nós conversamos por um tempo, e eu me desculpei. Mas...
- O quê? Ele ameaçou gritar para todo mundo no baile ou algo assim?
- Não... ele me beijou de volta. Quando eu o beijei primeiro. - eu revelei, fazendo com que Ben erguesse uma sobrancelha em surpresa.
- Ah, sério? Não consigo acreditar que você passaria a noite conversando com um garoto gay. - ele disse, incrédulo. - Como foi beijar um cara? - ele perguntou, e eu me contorci desconfortavelmente, evitando o seu olhar. - Que merda. - Ben riu novamente, revirando os olhos e balançando a cabeça. - Você gostou, seu esquisitão.
- Cala a boca! - eu resmunguei, socando-o no braço, e Ben levantou as mãos em rendição.
- Foi m*l, eu sei que você não gosta dessa palavra. - ele disse, sorrindo, e eu segurei o impulso de socá-lo novamente.
- Olha, eu não sei, está bem? - eu admiti, e Ben suspirou dramaticamente antes de continuar.
- A última coisa que imaginei fazer num sábado à noite era ajudar você a entender a sua sexualidade. - ele disse em tom sarcástico, tomando conta da situação. - Só esqueça tudo o que aconteceu depois do beijo. Me conta mais sobre antes disso. - ele pediu, e eu me contorci desconfortavelmente mais uma vez. - Esquece, por um momento, o fato de ele ser um garoto. - Ben acrescentou.
- Bom, eu estava a fim dela... ou dele, sei lá. Estávamos nos dando muito bem, ela... ela parecia realmente incrível. Engraçada, legal, tinha aquele jeito de franzir o nariz de vez em quando que era adorável, e como o cabelo dela caía sobre os olhos, mesmo que fosse curto. - eu me deixei levar pelas memórias, quase esquecendo que Ben estava ali até ele erguer a mão para me interromper.
- Eu entendo. - ele disse. - E não acredito que estou prestes a perguntar isso, mas o beijo... você gostou?
- Bom. Foi bom. Era como um beijo deveria ser, era... melhor, sei lá. - eu descrevi, enquanto Ben mordia o lábio, pensativo, olhando para mim.
- Ah, eu não sei como você se sente sobre toda essa questão gay em geral, mas parece que você pode estar a fim desse cara. Na verdade, parece que você pode estar mais envolvido com ele do que com a própria Rosalia, porque isso parece mais racional e não baseado no seu complexo de herói.
- Eu não tenho complexo de herói!- eu protestei.
- Ah, por favor. - Ben revirou os olhos com um leve sorriso irônico. - A única razão pela qual você estava interessado em Rosalia, em primeiro lugar, era porque ela era tão trágica. Você está sempre tentando salvar as pessoas. - eu estava prestes a discutir, mas me contive, reconhecendo a verdade em suas palavras. Eu fui inicialmente atraído por Rosalia na loja porque ela tinha aqueles olhos tristes.
- Então, o que eu devo fazer agora? - eu perguntei a Ben, desesperado. Ele deu de ombros.
- Quem sou eu, o Google? Vá perguntar a ele ou algo assim, sei lá.
- Eu não posso. Eu já disse a ele que gosto da prima dele. E ele deve estar pensando que eu sou um i****a. - eu deixei escapar as palavras com um suspiro. Ben olhou para mim, sem entender.
- Como te deixam sair de casa sem o seu guardião? - ele se perguntou. - Jesus. Tudo bem, relaxa. Eu sei o que você deve fazer.
***
Narrado por Julian.
Voltei para casa sozinho naquela noite, após ter certeza de que Liam havia desaparecido, relembrando detalhadamente todos os acontecimentos da noite na minha mente. Apesar do desapontamento que me atingira abruptamente, o meu pensamento central estava firmemente fixado no fato de que o meu primeiro beijo, finalmente aos dezesseis anos, havia sido com o cara mais atraente e charmoso da cidade - mesmo que ele fosse um Montéquio.
Ao chegar em casa, eu percebi que os meus pais já estavam na cama, então eu segui direto para o meu quarto. Com cuidado, eu retirei o smoking e afrouxei a gravata, antes de seguir para a varanda em busca de um pouco de ar fresco, admirando a serena noite lá fora. A lembrança daquele beijo incrível ainda fazia o meu coração acelerar.
Depois de algum tempo, um carro estacionou em frente à nossa casa. Com interesse, eu observei Nathan saindo do lado do passageiro, contornando o veículo para abrir a porta do motorista e trazer consigo uma surpresa: Julia. Eles se entregaram a um beijo apaixonado ao ar livre, e eu não pude evitar sentir uma ponta de repulsa por testemunhar o meu irmão beijando uma garota, especialmente depois das memórias recentes do meu próprio beijo.
- Pervertido! - Nathan chamou a minha atenção assim que Julia tinha ido embora, notando que eu o observava. Eu respondi lhe mostrando a língua, e ele riu, seguindo pelo jardim até entrar em casa e finalmente aparecendo ao meu lado na varanda.
- Bem, você já sabe como foi a minha noite. - ele brincou. - Agora, me conta como foi a sua noite com Romeo Montgomery? - ele perguntou, e a minha respiração travou. Eu o encarei, atônito.
- Como você sabe? - Nathan deu de ombros.
- Eu tentei te contar no começo da noite, lembra? Você estava olhando fixamente para ele e até me perguntou quem era. - eu revirei os olhos, desviando o olhar. - De qualquer forma, o que aconteceu? Por que ele estava no nosso baile?
Eu suspirei, encolhendo os ombros.
- Ele estava lá procurando por Rosalia.
***
Narrado por Romeo.
Eu permanecia escondido, agachado, lamentando ter seguido os conselhos de Ben. Espremido entre árvores e arbustos em um jardim desconhecido, eu apenas pensava nos danos ao meu smoking, enquanto me esforçava para permanecer o mais imóvel possível. Eu tinha certeza de ouvir vozes.
- Ele estava lá procurando por Rosalia.
- Como ele conhece Rosalia? - uma segunda voz perguntou surpresa.
- Ele disse que a conheceu na cidade há alguns dias. - essa era definitivamente a voz de Julian.
- Ah. Bem, o que ele queria com ela? - Julian suspirou. - Talvez namorar com ela ou algo assim
- Você não parece nada satisfeito com isso. Acho que alguém esta tendo uma quedinha? - provocou a segunda voz.
- Cala a boca, Nate. - murmurou Julian. - De qualquer forma, ele nos ouviu dizendo a Julia que eu era a Rosalia e passou a noite conversando comigo, achando que eu era ela. Claro que eu não sabia que era um erro, e acabei me deixando levar por isso como um t**o. Então, enquanto eu me escondia de Liam, Romeo apareceu e me beijou.
- O quê?! - a segunda voz exigiu, claramente chocada.
- Sim. Ele colocou os lábios nos meus e eu m*l conseguia respirar. É claro que, assim que ele descobriu que eu era um garoto, ele foi embora.
- Uau. - disse o segundo menino. - Que merda. Sinto muito, Julian. Sei que você gostou dele
- Não, eu nem sabia quem era ele. - retrucou Julian
- Sim, mas você o achou bonito. - insistiu o segundo menino
Julian suspirou impacientemente, fazendo um sorriso se espalhar pelo meu rosto.
- Não é exatamente novidade que ele é atraente.
- Ah, para com isso, Julian. - protestou outra voz impaciente. - Olha para você, aqui na varanda com esse olhar bobo no seu rosto. Seja honesto.
Houve uma breve pausa durante a qual o outro garoto deve ter lançado a Julian um olhar cético, porque Julian finalmente admitiu:
- Tudo bem, tudo bem! Digamos que sim, depois dessa noite, eu gosto dele. Apesar do fato de que ele deve ser meio i****a por pensar que eu era uma garota.
- Que reviravolta! - brincou o outro garoto. - Quero ver quando Tyler descobrir que você gosta, e pior ainda, que beijou Romeo Montgomery?
- Eu tive essa conversa com ele, na verdade. Digo, com Romeo, não Tyler. - acrescentou Julian rapidamente. - Decidimos que está tudo bem se Romeo quiser iniciar uma briga.
- Ah, entendi. - o outro garoto bufou. - Mas você entraria na briga?
- Claro, qualquer coisa eu apenas os ameaçaria de homofobia. Se fizesse nem Romeo ou Tyler nunca mais me tocariam. - brincou Julian, e o outro garoto riu.
- Bem, seja o que for. Só espero que você não tenha o coração partido. Tente não criar muitas expectativas, certo?
- Uhum. - murmurou Julian.
***
Narrado por Julian.
Nathan me lançou um olhar cético e revirou os olhos antes de me puxar para um abraço.
- Eu gostei dele. - eu admiti.
- Eu sei. - disse Nathan, me soltando em seguida.
- Agora, vou para a cama. Você vai ficar bem?
- Claro. Se consegui sobreviver ao Liam, posso sobreviver a isso. - eu brinquei, revirando os olhos, enquanto Nathan desapareceu entrando de volta pela casa.
Foi então que eu notei algum movimento no jardim.
- Meia-noite? - eu chamei, me perguntando se era o nosso gato desobediente. Meia-noite costumava vagar pela vizinhança e nos fazer visitas de vez em quando.
Eu quase dei um salto quando uma figura alta se ergueu, tropeçando nas plantas e arbustos enquanto saía do nosso jardim.
- Ei. - disse Romeo Montgomery, sorrindo para mim.
- Há quanto tempo você está aí? - eu perguntei, constrangido.
- Tempo suficiente. - respondeu Romeo, sorrindo.
- Bem, Rosalia já está na cama. Você pode falar com ela pela manhã. - eu retruquei.
- Eu não estou aqui para ver Rosalia. - ele disse, os seus lábios se curvando para um sorriso ainda mais amplo. - Eu queria te fazer uma pergunta.
- O quê?
- Aqui fora.