Retorno

2147 Palavras
Eu estava no topo do Empire State Building. E uma grande guerra se passava na cidade. Aviões colidiam com grandes prédios, disparos de armas, bombas , explosões por toda a parte. Senti o medo esmagar o meu coração com suas próprias mãos. Não soube como agir. Olhava para todos os lados, a destruição, morte e o desespero assolavam a minha cidade. Era possível ouvir gritos de desespero. Muitos deles me incitavam a pular. Talvez eles tivessem razão. Não havia razão alguma para viver em um mundo assim. -Hector! -uma voz gritou. Virei-me rapidamente. Paul estava diante de mim. Ele tinha suas roupas completamente rasgadas. Seu sangue o cobria por toda parte de seu corpo. E havia uma cicatriz desconhecida por mim, próxima ao seu queixo. -A culpa disso tudo é sua, Hector! -ele se achegou contra mim. -Paul? Mas... Você está vivo?  -Você não conseguiu. Mas agora você está se vingando de mim, matando todas essas pessoas. Seu desgraçado! -Paul investiu contra mim com toda sua força, jogando-me contra a parede. Suas mãos pressionavam o meu pescoço, fazendo-me perder o ar. -Paul! Eu não queria, eu juro. Desculpe. -disse, Paul me enforcava com toda força. -Você precisa morrer, Mitchell! -ele disse, com um soco brutal em meu rosto. Acordo subitamente em meu quarto, entre algumas tosses de desespero, dentro de minha própria casa. Não há ninguém. O silêncio profundo me assusta. Alivio-me por tudo aquilo ser apenas um pesadelo. Olhei para o meu pulso, continha um curativo. Estava ligado a um soro. E então, pude notar. Meu quarto se tornara um mini emergencial. Segundos depois, uma enfermeira de estatura média e cabelos castanhos entrou correndo em meu quarto. Seu sorriso é receptivo. -Tudo bem, senhor Mitchell? -a enfermeira perguntou, preocupada. -Sim. O que houve mesmo? -Um acidente na boate. -ela respondeu rapidamente. -d***a. -eu assenti. -Está tudo bem mesmo? -ela insistiu, verificando se o meu soro estava ajustado corretamente. -Estou bem. -disse novamente. -Acordou? -papai apareceu na porta, em um sorriso. -Não se livraram de mim. -eu respondi, sorrindo. -Claro que não. -papai balançou a cabeça em negativo, pondo suas mãos nos bolsos. -Está tudo bem com ele. -a enfermeira disse ao meu pai, positiva. -Pode nos deixar a sós? -papai retirou uma de suas mãos de um dos bolsos, acariciando sua barba por fazer. -À vontade, senhor Mitchell. -a enfermeira assentiu, saindo logo em seguida. Papai começou a passear em círculos dentro do quarto. Ele parecia aflito, remexendo em seus bolsos, seus cabelos, sua barba. Era um ciclo vicioso. Papai sempre foi bom em esconder suas emoções, mas, naquele momento, não estava sendo feliz em tal tarefa. Quando finalmente percebi que ele não iria parar, resolvi interrompê-lo.  -Quer dizer alguma coisa? -perguntei, amedrontado. -Mas é claro que quero dizer alguma coisa, Hector! -ele disse irritado. -Desculpe. -disse, sabendo que não seria o bastante. -Eu disse para ficar longe de perigo, Hector. Eu... -ele balançou a cabeça em negativo, pondo as mãos em seu rosto. -Pai, eu... -Não. -ele me interrompeu. -Eu não posso lhe perder, Hector. Não entende? Eu não aguento mais perder as coisas que mais amo. -ele disse, com lágrimas nos olhos. Abaixou a cabeça em seguida. -Eu só queria aproveitar os nossos últimos dias aqui fora. -Se você morrer, não poderá aproveitar nada. -ele disse, rispidamente. -Desculpe... Houve um silêncio. Eu pensei em tudo que aconteceu nos últimos dias. Pensei nas consequências de tudo isso. Pensei em Paul. Ele deveria estar aqui. Deveria. -Onde estavam com a cabeça quando resolveram ir a uma boate em meio a uma devastação de um vírus mortal? Em um local fechado, onde o risco de contaminação é mil por cento maior. -Eu sei. -eu o interrompi. -Nós não pensamos muito, pai. -E essa falta de pensamento resultou em tragédia, Hector. Sinceramente, é duro dizer isso. Mas você me decepcionou muito, filho. Papai aproximou-se de minha cama, em seguida, sentou-se na beira da mesma. Ele pegou em minhas mãos, frias, com curativos e uma agulha que me alimentava do soro. Ele olhou em meus olhos, e eu não sabia o que sentir. Eu apenas... Me odiava. Nada mais fazia sentido. Eu decepcionei a pessoa que eu considerava a mais importante do mundo . E isso bastava para não conseguir segurar as lágrimas. -Me desculpe. -eu disse. O soluço era vergonhoso, mas não evitei. -Eu te amo. -papai disse, uma lágrima desceu em seu rosto. -Te amo muito. -disse, tentando usar minha mão esquerda para limpar o meu rosto. -Não fuja mais, por favor. -papai pegou minha mão direita, beijando a ponta de meus dedos. Eu assenti. A dor era grande, quase insustentável. A enfermeira interrompeu todo aquele momento com uma notícia que eu, particularmente, não esperava. -Desculpe. Uma amiga do senhor Mitchell veio visitá-lo. -Qual de nós? -papai perguntou, sorrindo. -Ah. É, o senhor. -Estou brincando. -papai a interrompeu, levantando de minha cama. -Deixe subir. -disse para a enfermeira. -Ela já vem. -ela disse. Desceu novamente para o primeiro andar, seguida por meu pai. Demorou pouco mais de um minuto para City aparecer em meu quarto. Meus olhos estavam fechados. Apesar de tudo, eu ainda me lembrava de minha prova de matemática. A nota ainda era um grande mistério para mim. Ela vestia uma calça preta e uma blusa branca. Seus cabelos castanhos estavam presos em um r**o de cavalo. -Então resolvemos aprontar todos na mesma noite. -City entrou com todo o seu encanto. -Parece que sim. -respondi, sorrindo. -E você? Como está? -ela abriu um largo sorriso, sentando-se ao lado esquerdo da cama. -Espera. Me lembrei. Você foi presa, não? -Pois é. Achei que levaria o prêmio de fugitiva da noite, mas... Vocês roubaram a cena! -Que d***a. -resmunguei. -E como conseguiu sair de lá? -Minha mãe acabou ficando de coração partido depois do que aconteceu no Amnesia NYC. E soube que vocês estavam lá. Ela foi lá, pagou e tudo mais. E vou ser julgada ainda. Provavelmente, serviço comunitário por um ano. -City revirou os olhos. -Não me parece tão r**m. -eu disse, estranhando toda sua felicidade. Paul estava morto, e, City parecia bem. Muito bem, aliás. -Minha vida é uma m***a. -ela resmungou. -Aconteceu alguma coisa? -perguntei. -Além de Paul estar sumido e você ter estado em coma? -Paul sumido? -indaguei. -Ainda não encontraram o corpo. -Ai meu Deus. -eu disse, radiante com a notícia. -O que houve? -Pensei que ele estava morto. -disse, lentamente. -Não está. Já vasculharam tudo. Você sabe que dia e que horas são, senhor Mitchell? -Não faço a miníma. -sorri. -Aonde quer que esteja, espero que Paul esteja bem. Vivo, de preferência. -City disse, pondo suas mãos sobre a minhas. -Não definimos o nosso local de reencontro. E agora Paul se foi. -disse, lembrando-me subitamente de nosso pacto. -Que d***a! -City irou-se, retirando suas mãos sobre mim.  -Ainda podemos escolher um.  -Sem Paul? -Vamos nos encontrar, e, depois... arrumar um jeito de achá-lo. -Na teoria parece funcionar bem. -City resmungou. -Não temos outra opção. -Onde acha que Paul possa estar? -Ainda quero entender como ele conseguiu fugir, para falar a verdade. -m***a, Paul. -Então, tem alguma sugestão? -eu a perguntei. -Acho que sim. -ela disse, abrindo um leve sorriso no canto da boca. -Diga. -disse, ansioso. -Ah! -ela sorriu, procurando algo em seu bolso traseiro. -Já estava esquecendo. Aqui, sua prova de matemática. -ela disse, desdobrando a folha. -Deixe-me ver o desastre. -disse, recebendo a prova. -Não foi tão m*l. -City disse. -C mais. Até que fui bem. -disse, e nós dois rimos. -Eu fiquei com B menos. Não fomos muito diferentes. -Eu nunca consigo chegar a um B. -lamentei. -Isso não importa mais. -ela disse, com um ar triste. -Estou ansioso para saber o lugar, City. -Deixa de ser chato. -ela sorriu. * Mamãe também veio até a mim dizer o quanto estava triste. Ela foi mais branda que papai, mas pude sentir o quanto estava triste comigo. Summer pareceu assustada, só quis ficar abraçada, dizendo que não queria me perder. Para minha surpresa, vovô e minhas duas tias também passou por lá. Ele falou algumas coisas engraçadas sobre sua juventude, como sempre fazia nas poucas vezes que eu o via. Os pais de Paul chegaram por volta das seis. Eles lamentaram muito pelo o que havia acontecido, e a senhora Hawk chegou a chorar um pouco. Eu contei sobre aquela noite, como tudo aconteceu. Disse também que não fazia ideia de onde Paul estava, infelizmente. Eles pareciam desolados, mas esperançosos para que reencontrassem o filho. Às oito, Susane e Marcus também foram me visitar. Não éramos amigos muito próximos, mas eles me acompanham em algumas aulas. Nós conversamos sobre o acidente. Eles me disseram sobre as reportagens que fizeram, os mais de cem mortos confirmados. E lamentaram pelo desaparecimento de Paul. Também me contaram que Harryson, o dono da Amnesia NYC havia sumido. Suse levou flores azul-turquesa. Achei bastante gentil. -Alguém quer falar com você. -mamãe disse, entrando em meu quarto. -Onde? Está meio tarde para visitas. -falei, brincando. -É por chamada. -ela entregou o seu celular. -Vou deixar vocês a sós. Fiquei curioso. Havia uma chamada em vídeo perdida. Um user desconhecido, não salvo. Havia uma mensagem não lida também, deste mesmo usuário misterioso. Eu disse que voltaria, não é? A foto de perfil estava vazia. Por um momento, fiquei confuso. Pensei em milhares de pessoas que poderiam ser, até ser surpreendido por uma nova solicitação de chamada. Aceitei, ansioso pelo rosto misterioso. Quando o vi, não pude acreditar. -Ei cara, você não morreu! -Reese disse, vestia um pijama azul. -Reese? Meu Deus... Você... -Eu sei. Sumi por muito tempo. Desculpe. -Onde você está? -Se eu contasse, não acreditaria. -Prometo acreditar. Reese estava diferente. Ele estava mais velho, aparentava ter vinte anos. Tinha barba, um cabelo estranhamente moderno, não usava mais óculos. Mas parecia o mesmo por dentro. -Estou na Flórida, na casa dos meus avós. -ele disse, sorrindo. -Nossa. -respondi, surpreso. -E seus pais? -Meu pai morreu ano passado. Minha mãe está na França resolvendo alguma coisa que nem quero saber. E então ela me mandou para cá. Nem sei quando ela irá voltar. -Cara...Eu nem sei o que dizer. -disse, perplexo. -Foi f**a. Mas eu já superei. Ele sofreu um acidente em Ohio. -Que d***a. -Ontem, quando cheguei aqui, procurei a antiga agenda da minha avó. E foi aí que encontrei o número da sua mãe. -Sua avó é genial. -eu disse, radiante. -E o seu aniversário? Está chegando, não é? -Faltam quatro dias. -Dois, na verdade. -ele contestou. -Que dia é hoje? -Vinte de outubro. -Eu acho que dormi muito mesmo. -Vai fazer alguma coisa? -Reese perguntou. -Daria para você vir aqui? Acho que vou para o isolamento em alguns dias. Nem sei mais. -Se você convencer as senhoras King. -ele disse, rindo. -Isso é fácil. -falei, dando de ombros. -Vou fazer o possível. -Reese. Como você está? -perguntei, percebendo algum tipo de desconforto em seu jeito de falar. -Como assim? -ele devolveu a pergunta, fingindo não entender. -Está tudo bem? De verdade? -insisti. -Claro que sim. Você ainda tem aquele seu caderno de anotações? Aquele que você anotava tudo que eu falava. -Acho que não. Posso até tentar procurar mais uma vez, mas não prometo nada. Meu quarto virou um hospital. Não faço ideia de onde estão minhas coisas. -É, Hector. O tempo é uma roda gigante que não para de girar. Eu parei por um momento, nós dois sorrimos. Comecei a lembrar do passado, um nocaute de flashbacks. Era bom o ter de volta, mesmo por pouco tempo. -Acho que preciso de um novo caderno de anotações para as frases de Reese King. + 11H43 P.M. Faltam apenas três dias para a primeira a******a dos Isolamentos de NYC. Faremos uma grande cerimônia de a******a nesta próxima quinta-feira, contando com a participação de ícones importantes do nosso país. Será transmitido para todos, então, fiquem atentos. Em breve, divulgaremos quais serão os próximos Isolamentos a serem abertos. Aos cidadãos que ainda não estão garantidos em um de nossos Isolamentos, peço-lhes que façam reserva em nosso Isolamento P1, livre para todos. Assim terão segurança e benefícios sem qualquer tipo de custo. Amanhã teremos a nossa conferência de pré-a******a. Lá serão explicados todas as regras, deveres e lazeres dos Isolamentos. -Amanhã de manhã iremos para a Conferência. Você já está liberado, falei com o médico. Já ficou tempo demais nesta cama, seu preguiçoso. -papai disse, na manhã de terça. -Nem acredito que amanhã é meu aniversário. -resmunguei. -Ninguém mandou dormir demais. -Reese talvez venha aqui amanhã. -Aquele nosso antigo vizinho? -Meu melhor amigo. -respondi. -Caramba. Onde ele está? -Na Flórida. Mas ele ainda não sabe ao certo... -Vamos torcer para que sim. -papai sorriu. -Boa noite, pai. -disse, enquanto ele caminhava até a porta, pondo as mãos no interruptor. -Boa noite, filho. -ele disse, em um sorriso. E tudo ficou escuro novamente.
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