O tempo passava minuciosamente. Eu a observava por uma pequena fresta da porta de seu quarto. Ela vestia o seu sutiã preto e rendado. Suas costas beiravam a perfeição. City correu até o seu vestido completamente preto. Pegou um creme para o corpo em cima de sua pequena mesa de vidro. O pouco que caiu em suas mãos, passou sobre seus braços. Em seguida, cinco anéis foram distribuídos para os seus dez dedos. Duas pulseiras de ouro também foram postas, uma em cada braço. Ela se observava no espelho. Passava um batom vermelho. Ela roçou os lábios uns nos outros, depois sorriu para si, satisfeita com o resultado.
-City? -eu a chamei. -Você está magnífica.
Ela permaneceu parada. Parecia não me ouvir, na verdade. Segundos depois, puxou uma gaveta de seu armário, pegando uma pequena bolsa dourada. Estava de lado, mas, parecia outra pessoa. Ela estava simplesmente diferente. Devolveu a gaveta para dentro do armário, e então, virou-se em minha direção, tomando um grande susto. Mas não era City.
-Meu Deus, Hector. Não sabia que estava aqui. Espera. O que você está fazendo aqui? -Sophie perguntou, confusa.
-Sophie? -perguntei, sem entender absolutamente nada.
-Estava com saudades de você. -ela sorriu.
-Preciso encontrar Sophie. -falei comigo mesmo, caminhando sozinho pelo quarto.
-Encontrar quem? -Summer pôs a cabeça na porta, sorrindo.
-Está me vigiando? -sorri para ela.
-Você deixou a porta aberta, então... -Summer deu de ombros, adentrando em meu quarto.
-Tudo bem.
-Mas... Quem é Sophie? -ela perguntou.
-Uma garota que eu gosto. -respondi, de maneira mais descontraída possível.
-Sério? Mamãe sempre diz que você gosta de City.
-Ela diz isso?
-Sim. Eu também acho. -Summer fechou os olhos em uma expressão adorável.
-Acho que nem eu sei mais.
-Como assim? -ela abriu os olhos novamente.
-Deixa pra lá. -resmunguei. -Vamos nos arrumar logo, precisamos ir nessa maldita Conferência.
-Vai ser chato, não é?
-Muito. Mas precisamos ir. -disse, abraçando-a em seguida. Em um beijo, Summer saiu do quarto.
Sejam bem-vindos à Conferência oficial de a******a dos Isolamentos SB 4 e 5.
Era o que estava escrito nos leds que cobriam a frente do prédio. Summer segurava Chip, sua pelúcia favorita, pelo pescoço. Parecia distante, seus pensamentos puros vagavam em torno de seus incríveis olhos. Segundos depois de ter percebido que estava sendo observada, olhou-me, assustada. Em seguida, passamos pelo detector de metais. Mamãe pegou um cartão de visitas que a ofereceram, sendo a primeira a entrar. Vestia um longo vestido preto, assim como City e Sophie em meu sonho. Papai estava tão arrumado quanto, sendo o segundo a passar pelo detector. Abotoei o último botão de minha camisa social branca, também pegando a cartilha que continha todo o mapa do grande local.
-Quanto tempo vai durar? –perguntei ao meu pai enquanto estávamos parados bem no centro do salão, no primeiro andar. Pessoas caminhavam por todos os lados, elegantes. Uma criança caiu enquanto corria próximo a mim.
-Você deveria ter colocado o smoking. –mamãe resmungou. –Olhe como todos estão.
-Odeio tudo isso. –disse.
A questão é que todos sempre acham que eu e toda minha família somos pobres quando vamos aos locais, geralmente. Tirando os três carros de papai (um viciado em automóveis), nunca fomos de demonstrar riqueza. Sempre me vesti de forma simples, assim como meu pai, minha mãe, Summer e Thomas.
-Sei que não ligamos para essas bobagens, mas aqui é um local importante. Seu pai terá uma oportunidade, como sabe.
-Por isso ele precisa estar de smoking, não eu. –ironizei.
-Você não quer apanhar na frente desses riquinhos, não?
-Eu estou bem vestida, mamãe? –Summer perguntou.
-Mas é claro que sim, filha. Uma linda princesa. –ela sorriu. Summer deu uma breve volta com seu vestido azul.
-Está muito linda. –papai disse, enfim. –Eu preciso ir. Encontro vocês no final. Ainda nem gravei minhas falas. –ele riu.
-Até parece. –mamãe disse. –Tudo bem, vá. –ela disse, despedindo-se com um beijo rápido.
[]
Uma moça com um sorriso largo e cabelos castanhos presos em um coque esperava a todos na entrada no salão da grande conferência. Com uma pequena câmera em mãos, ela esperava identificar a todos. Posicionei-me de frente para seu pequeno equipamento. Imediatamente, o mesmo reconheceu a minha íris ocular. Um pequeno sinal sonoro e um led de cor verde acenderam ao mesmo tempo. Minha entrada estava permitida.
-Seja bem-vindo. –a recepcionista disse, simpática.
Mamãe e Summer passaram logo em seguida. O salão era simplesmente incrível, gigantesco, com capacidade para cinco mil pessoas. Era em formato circular, uma mescla de teatro, cinema e um auditório aumentado. Tudo era reluzente. Os assentos eram comportados como em um estádio de futebol e um cinema, do mais alto até o mais baixo. Summer insistiu para que sentássemos no topo.
-Filha, quero ficar mais para o meio. Não fico muito confortável lá em cima. –mamãe explicou.
Apesar da cara f**a, Summer pareceu concordar rapidamente. Descemos as escadas laterais até chegarmos ao meio da disposição de cadeiras.Lá no fundo, havia um grande palco, e uma tela que cobria toda a parede, do teto ao chão. Pessoas chegavam aos poucos, sempre muito sóbrias e importantes. Por um momento, pensei ver Paul. Um menino muito parecido com ele vestia um smoking dourado algumas cadeiras acimas. Certamente, meu amigo jamais vestiria algo como aquilo.
-Espero que não atrase muito. Acho que irei sair com City ainda hoje.
-Você não vai a lugar algum. -mamãe respondeu, ríspida.
-Por que? –perguntei a mamãe, indignado.
-Preciso responder? –ela revirou os olhos.
-Mamãe não quer que você quase morra de novo. –Summer disse, quando nos sentamos nas cadeiras confortáveis.
-Não vou morrer, prometo. –falei.
-Sem saída e ponto final. Amanhã você chama seus amigos para comemorar seu aniversário lá em casa. É bom que você já se despede de todos. Chamei seus tios e sua avó também.
-Aniversário em casa?
-Não ouse reclamar. A culpa é sua. –mamãe apontou para mim, colocando sua perna direita sobre a esquerda. Demonstrava o poder feminino.
-d***a.
O auditório/estádio/salão se encheu gradativamente. Existiam entradas pelo norte, sul, leste e oeste do local. Surgiam pessoas a cada minuto. Trinta minutos depois, a fileira em que estávamos havia lotado. Estávamos calados, infelizes e entediados. Não sabíamos e não tínhamos o que dizer.
-Vou ao banheiro. –disse subitamente.
Subi as mesmas escadas em direção a entrada. Um rosto familiar estava ali, prestes a entrar. Estava em um vestido verde escuro, totalmente liso. Ficara bem mais alta com seu enorme salto.
-Annie? –eu a chamei.
-Hector! –ela disse, fingindo estar animada.
-Onde está Sophie? –perguntei. Ela riu imediatamente, vindo em minha direção. –Desculpe, é... Você está bem?
-Sophie vai para o 13. Inaugura só em um mês, dois, talvez.
-Por que ela não me procurou?
-Você que anotou o número dela, não? Aliás, ela está bem triste com você.
-Eu perdi meu celular no acidente.
-Pensei que tinha morrido. –Annie falou, arqueando as sobrancelhas.
-Decepcionada?
-Deixa de ser i****a. Enfim, ligue para ela, okay?
-Ainda estou sem celular. Mas eu posso procurá-la no Gree.
-Sophie Makabe. –ela disse, satisfeita.
-Obrigado. –disse, aliviado.
-Amanhã é meu aniversário. Pode ir lá em casa com Sophie, se der. –disse.
Annie não respondeu. Ela não iria, obviamente. Passou ao meu lado como se desejasse nunca mais esbarrar comigo. Esperava que Sophie não pensasse como a amiga.
Segui para a saída. Não queria ir ao banheiro, para falar a verdade. Então, para demorar mais, resolvi sair do salão e ir ao banheiro do lado de fora. Andei pelo local extenso, haviam também algumas lojas, com diferentes estilos. Passei por todas lentamente até finalmente chegar ao banheiro. Havia um garoto no mictório da extremidade sul. Fui em direção a extremidade norte, e então, esperei que algo acontecesse. Não importava o quão demorado poderia ser.
-Também fugindo da Conferência? –o garoto do sul perguntou enquanto urinava.
-Mais ou menos. –respondi, mantendo meus olhos fixados na parede.
-Tá afim de dar uma volta e fugir disso? –ele sugeriu, em uma naturalidade surpreendente. Parecíamos amigos de infância.
-Onde que ir? –perguntei, mesmo estranhando a situação.
-Aqui mesmo. Subir alguns andares, sei lá. –ele disse, pude ouvir o som do zíper se fechando.
-Pode ser. –disse, estranhando toda a situação.
-Justin. –ele disse.
-Hector. –respondi em seguida.
Esperei por mais alguns segundos até finalmente me convencer que, definitivamente, não havia o que fazer. Justin lavava as mãos freneticamente. Pus minhas mãos próximas a torneira e a água saiu instantaneamente.
-Vai para o isolamento quatro? –ele perguntou.
-Sim. –respondi, secando as mãos no ar quente. Olhei para o meu reflexo no espelho. Meu rosto denunciava minha preocupação.
-Eu também. –ele disse, sorrindo.
Justin era n***o, cabelo raspado, com um par de olhos cinzentos. Parecia ter 1.75m. Estava de camisa social branca, assim como eu.
-Então é melhor se acostumar comigo. –ele disse.
Saímos do banheiro em direção ao elevador. Não demorou muito para estarmos no décimo primeiro andar. Tudo era muito luxuoso. A parede era uma grande tela, onde passavam-se propagandas aleatórias. O silêncio reinava. Os televisores anunciavam que a Conferência havia começado. Na tela, o presidente falava com maestria.
-Então, Justin. De onde vem? –perguntei.
-Washington. Meu avô e eu resolvemos nos Isolar aqui em Nova York. Pareceu mais seguro.
-Sou daqui de Nova York mesmo. –falei.
-Tem cara. –ele disse, sorrindo. –Hã...Tenho 18 anos. Só tenho meu avô mesmo. Acho que é isso.
-Faço 17 amanhã. Tenho dois irmãos novos, pai, mãe...todos aqui.
-Tenho que te mostrar uma coisa. –Justin disse, misterioso.
Caminhamos mais à frente onde haviam duas portas no fim do corredor. Do outro lado haviam dois elevadores. Justin tirou um molho de chaves de seu bolso da calça. Alguns segundos se passaram até que ele achasse a chave correta para a porta 20.
-Meu avô é diretor na Organização que gerencia os Isolamentos. Ele me contou algumas coisas terríveis. E ele pediu para que eu falasse com você.
Estava confuso. O quarto era exuberante. Havia uma cama de casal grande, quadros caros pendurados nas paredes. Móveis antigos que pareciam valer milhões de dólares.
-Está preparado? –Justin perguntou. Acenei em positivo com a cabeça. A tela surgiu em um holograma em meio a parede. A tela permaneceu preta, mas uma voz vinda do vídeo surgiu no recinto.
Nós proibimos qualquer tipo de tentativa de cura. Nós temos a tecnologia, mas... Não precisamos disso. Quero mais é que esses sul-americanos morram. E nossos vizinhos do norte também. Aguentaram o câncer e várias epidemias por tantos anos... Quem se importa?
Mas senhor.... Eles prometeram atacar. Não cedemos ao menos a vacina. Eles estão em uma situação crítica.
Que se f**a, Martin! Pelo amor de Deus.
-Parece a voz do presidente, não? –perguntei, assustado.
-O próprio. Martin é o senador de Washington.
-Atacar? Cara. Isso pode ser manipulação de edição nas vozes. Sei lá.
-Não seja inocente, Hector. Por que acha que eu e meu avô viemos para cá? Washington será atacada!
-Você está enlouquecendo. –resmunguei.
-O presidente está cometendo um grande erro, Hector. Eu sei quem é o seu pai. Você precisa alertá-lo.
-O quê? Como assim você sabe quem é o meu pai?
-Doutor Mitchell, cientista e médico cirurgião.
-Justin...
-Seu pai pode estar sendo impedido de trabalhar para o bem da humanidade, Hector. Ele pode descobrir a cura, não pode? Seu pai é um ícone importante. Mas o presidente não deseja isso. Assim como todas as outras doenças e epidemias que já enfrentamos. Meu avô pediu para que eu insistisse.
-Meu pai não sabe de cura nenhuma, Justin. Eu não sei o que seu avô enfiou na sua cabeça, mas...
-O governo está agindo como se tudo estivesse bem, Hector. Mas não tem nada bem. Não vê? Milhares de pessoas morrem ou viram um demônio todos os dias em todo o mundo.
-Justin. Preciso voltar para a Conferência. –disse.
Nesse momento, ele trocou a tela da parede para a transmissão ao vivo da Conferência. James Fillmore ainda falava para todo o país.
Os Isolamentos demonstram isso. Nós estamos ajudando nossos amigos do sul, construindo Isolamentos de alto padrão por lá. Também estamos exportando nossos medicamentos de prevenção ao vírus.
-Ele é uma piada. Mentiroso.
-Preciso ir. –disse, enquanto a voz de Fillmore soava no fundo.
Deixei o quarto de Justin assustado. Entrei no elevador e voltei ao primeiro andar. Passei pela recepcionista e voltei ao grande Salão. Mamãe pareceu preocupada.
-Demorou! –ela disse. –Onde esteve?
-Me perdi. –menti, evitando mais conversas.
A Conferência se encerrou uma hora depois. Meu pai disse algumas palavras gravadas no fim. Pensei em como ele era um objeto na mão do governo. Imaginei que, talvez, de alguma forma, Justin tinha razão. Todos saíam rapidamente, cansado de tudo aquilo. Mas, sem perder a elegância, obviamente. Coincidentemente, encontrei Annie mais uma vez na saída. Ela estava falando no celular, ao lado de sua mãe, supus. Ela deu um breve sorriso falso.
-Ele está bem aqui, na minha frente. –Annie disse para o outro lado da linha. –Espera, eu vou passar.
-Oi. –eu disse para ela.
-Tome. –ela me disse, entregando-me seu celular.
Não pude deixar de sorrir. Lembrei-me do meu estranho sonho na noite passada. Finalmente, o celular de Annie encontrou meu ouvido.
-Sophie?