-Achei que estivesse morto. –Sophie disse, desolada.
-Acho que foi um milagre. –eu disse, também consternado. Annie me observava, séria.
-Fiquei preocupada. Você foi muito irresponsável, sabia?
-Eu sei. A pior parte é que não encontrei Paul.
-Sinto muito... –Sophie disse alguns segundos depois.
-Ele não morreu. Está desaparecido.
-Como assim?
-Conto a você com mais calma depois. Você está bem?
-Sim. Quer dizer, vou perder minha melhor amiga em dois dias. E você também.
-Vou ter que aturar Annie no Isolamento. Você deveria trocar de lugar com ela. -eu disse, sorrindo para Annie, que revirou os olhos, sorrindo logo após.
-Coitada de Annie! –Sophie riu, naturalmente.
-Amanhã é o meu aniversário. Poderia ir até minha casa amanhã?
-Hã... Assim, do nada?
-É, do nada. Meu aniversário é do nada.
-Bobo. Não sei. Depois do que aconteceu, minha mãe ficou traumatizada. Talvez ela não deixe.
-É exatamente por isso que vou comemorar meu aniversário em casa. Mães, sabe como são.
-Prometo fazer o possível.
-Quero muito ver você. Talvez seja a última vez... você sabe.
-Não torne as coisas mais difíceis, Hector... Bem, preciso desligar. Preciso ajudar minha mãe. Vamos viajar para Carolina do Norte nesse final de semana.
-Uau. Por quê?
-Depois explico melhor. Me chame no Gree.
-Tudo bem. É... fica bem. Foi bom falar com você novamente. Senti sua falta.
-Eu também senti. -ela disse, delicadamente. -Um beijo. Até mais.
-Beijo. Até...
Entreguei o celular a Annie. Nos despedimos rapidamente e voltei para casa com Summer e minha mãe. Meu pai havia ido para algum tipo de reunião.
[]
No dia seguinte, acordei com meus 17 anos. E foi como todo ano, nada de especial aconteceu. Não era um dia mágico. Era simplesmente o natural do nosso ciclo de vida. Nós nascemos, e, a cada minuto que passa, estamos mais próximos de nossos fins. A única coisa boa, de fato, era poder rever Reese. Esperava que ele viesse verdadeiramente.
-Além de agora estar mais próximo da morte, Paul e eu não vamos fazer nossa cerimônia especial de aniversário que sempre fazemos.
-Cerimônia especial? –mamãe perguntou, enquanto colocava um cordeiro para dentro do forno.
-É. Nós sempre fazemos em nossos aniversários.
-E posso saber o que é? –ela perguntou enquanto retirava suas luvas de p******o.
-Onde está a empregada nova? –perguntei, lembrando-me que mamãe geralmente não cozinhava sempre.
-Cancelamos, obviamente. Amanhã iremos embora daqui, Hector.
-Talvez Paul não gostaria que eu lhe contasse. Vamos respeitar a memória dele.
-Não fale assim, querido. Creio que Paul esteja bem e vivo. -ela disse, fazendo que o ambiente ficasse nebuloso.
Aquilo soou melancólico demais. O dia não estava agradável. Eu não me sentia feliz por estar mais velho. A minha vida normal acabaria em algumas horas, e, talvez, nunca mais veria Paul. Era o que provavelmente iria acontecer.
-Preciso fazer uma coisa. –disse, virando o copo com água e o pondo na pia ao terminar a água.
-Fazer o quê? –mamãe perguntou, enquanto pegava um pirex no armário.
-A cerimônia. –falei, tentando conter as lágrimas.
Corri para porta, abrindo-a depressa. Ouvi mamãe gritar para que eu não saísse, e que era o meu aniversário e eu iria receber convidados. Entrei em meu carro e saí ferozmente. As lembranças martelavam minha mente, despedaçando-se em pequenos pedaços de vidro. Anos e mais anos se passavam através dos espelhos quebrados de cada memória alojada em minha mente. Passei por algumas ruas vazias até finalmente chegar ao porão da Bullet Street. Era sempre ali, duas vezes ao ano, nos últimos cinco anos. Na primeira vez, quando tínhamos 13 anos, chegamos ali, no aniversário de Paul, por um acaso bem engraçado. A festa de Paul em seu décimo terceiro aniversário aconteceu na casa de sua tia Lexie, duas ruas antes onde o nosso porão fica localizado. Na festa, éramos apenas pré-adolescentes imaturos. E, infantilmente, tínhamos o costume de fazer muitas apostas bobas. Este foi o último aniversário em que Reese King passou conosco, antes de se mudar para a Flórida. Lembro como se fosse ontem. Foi uma aposta esportiva, e, para a infelicidade de Paul, Reese acabou acertando o time vencedor. Ele sempre foi melhor que nós em qualquer coisa relacionada a esportes. Nessa situação, Paul deveria fazer realizar o desafio escolhido por King. E ele escolheu, simplesmente, que, em sua própria festa, Paul abordasse Kurty, uma garota bonita de nossa sala na qual ele era apaixonado. As horas e a festa foram se passando, e Reese pressionava Paul a todo tempo. Ele estava tenso, no fundo, sabia que não conseguiria fazer tal proeza. Aos dezessete, ainda não aprendera como conversar com as garotas da maneira correta. Por isso, certa hora em que Reese deu uma pequena trégua, Paul simplesmente fugiu. Mas eu fui o único que o vi correr a fora, sozinho pela avenida. Disfarçadamente, eu o segui, até encontrar o porão. Depois de o ver entrar, bati na porta rapidamente, identificando-me para que me recebesse. Ele abriu a porta, tenso, preocupado em fechá-la novamente.
-Sabe o que acontece com quem não cumpre nossas apostas, não sabe? –ele disse, andando de um lado para o outro dentro do porão.
-Uma surra rápida, e mais algumas outras punições terríveis. –eu falei, rindo.
-Você não está ajudando em nada.–ele disse, colocando as mãos sobre o rosto.
-Vai ficar tudo bem. –disse, tentando amenizar toda a situação.
-O seu grande amigo não perdoa ninguém, Hector. –ele disse, referindo-se a Reese.
Mais tarde, depois de duas horas dentro do porão, Paul e eu voltamos para a sua própria festa. Todos haviam ido embora, exceto Reese. Ele esperava lá, com um grande sorriso no rosto.
-Então você fugiu, pequeno fugitivo? -Reese disse, rindo.
-Esqueça isso, por favor. –eu disse a ele. –Todos já foram. Finja que você bateu em Paul e tudo ficará bem.
-Nada disso. Apostas são apostas! Ou vocês dois pensam que eu esqueci o último soco que levei bem aqui? –Reese apontou com seu dedo um pouco abaixo de seu olho esquerdo.
-Reese, por favor...
-Sai da frente, Hector. São as malditas regras! -ele vociferou.
-Antes terá que passar por mim. –eu disse, o encarando de frente, me pondo entre os meus dois melhores amigos.
Eu não teria chance contra King. Mas, por sorte, a mãe de Paul junto a minha, perceberam um estranhamento entre nós, e, graças aos deuses protetores dos magrelos indefesos , nos separou daquela briga desnecessária. Reese foi para casa logo depois. Paul e eu fomos interrogados por longos minutos sobre o porquê do nosso sumiço em meio a comemoração. Lembro-me que Paul e eu ficamos alguns dias brigados com King, mas, no fim, tudo ficou bem. E é por isso que todos os anos íamos até o porão. Era o nosso lugar refúgio. O nosso pequeno esconderijo, onde nossos segredos ficavam bem guardados. O local onde a nossa amizade se fortaleceu.
Entrei no porão, forçando a a******a da porta de madeira velha. O lugar estava vazio, empoeirado e silencioso. Escondíamos sempre algo novo a cada aniversário. No meu aniversário de 13 anos sugeri que fossemos até lá, assim como em seu aniversário. Assim, todos os anos passamos fazer isso. Às vezes, levávamos meu vídeo game e passávamos a tarde jogando. Deixamos a TV velha da avó de Paul por lá, escondida entre alguns panos. Nos quinze anos de Paul, ele já sabia tocar violão. A partir desse ponto, sempre cantávamos, com nossas horríveis vozes, as canções de rock que nós amávamos. As prateleiras com livros antigos permaneciam intactas. Surpreendentemente, achei meu pequeno caderno de anotações das melhores frases de Reese King no chão, perdido entre alguns brinquedos. O pequeno filme onde Paul corria para todos os lados tentando esconder este pequeno caderno me veio em mente. Os quadros velhos nas paredes, a pequena mesa, os brinquedos jogados pelos cantos... Eu não queria perder tudo isso. Mas parecia inevitável. As melhores coisas da vida são aquelas que não duram para sempre, afinal. Tudo precisa ter um fim, para que haja um novo começo.
[]
Depois de passar toda a tarde no porão, voltei ao apartamento. Mamãe havia arrumado uma bela mesa de jantar, o cordeiro brilhava ao centro. Para minha surpresa, City estava sentada em nosso sofá. Um sorriso brilhante cobria o seu rosto.
-Por onde o senhor andou? –ela perguntou quando entrei.
-Fui dar uma volta. –falei, fechando a porta.
-Sua mãe disse algo sobre uma tal cerimônia.
-Ah... É uma coisa que Paul e eu sempre fazemos no dia do nosso aniversário.
-E como nunca eu soube disso? –City finalmente se levantou, pondo suas mãos em meus ombros.
-Coisa de garoto. –eu disse, tentando fugir do assunto.
-Espero que seus amigos não furem. Fiz comida para um batalhão. –mamãe disse, gritando da cozinha.
-Pelo jeito há muitas coisas sobre você que eu não sei. –City disse, insinuando algo que não compreendi imediatamente. Fomos interrompidos pelo som da campainha.
Quando a porta se abriu, Sophie Makabe estava parada, em uma calça jeans, blusa roxa e argolas em cada orelha. Seus olhos estavam miúdos, como da última vez. Parecia temer por estar ali.
-Oi. –eu disse, quebrando o silêncio e tensão do momento.
-Boa noite. –ela disse ao entrar. Nos cumprimentamos apenas com beijos no rosto.
-Quem é você? –City perguntou a Sophie sem discrição alguma.
Sophie pareceu desconfortável.
-Esta é Sophie, uma amiga que conheci no Amnesia NYC. Sophie, esta é minha amiga, City.
City pôs o cabelo para trás da orelha e revirou os olhos rapidamente.
-Ah, entendi.
-É... Quer sentar? –disse, fechando a porta novamente.
Enquanto Sophie sentava, City virou-se e caminhou até a cozinha. Segundos depois, ela e mamãe conversavam.
-Annie disse que talvez venha mais tarde. Para me buscar.
-Ela não gosta mesmo de mim, não é?
-Não é exatamente isso. –Sophie riu discretamente.
-Quer uma bebida?
-Acho que aceito. Nada muito forte, por favor.
-Quando voltar, me conte sobre sua viagem.
Fui até a cozinha procurar alguma coisa para oferecer a Sophie. Mamãe e City conversavam baixinho. Assim que cheguei, tentaram fingir que não estavam falando sobre mim.
-Podem continuar, eu não ligo. –disse, ironicamente.
-Então essa é a sua ficante? –City perguntou.
-Isso é ciúmes ou quê? –perguntei, pegando uma garrafa de Free na geladeira.
-Ciúmes? Por favor, Hector. Eu só não quero que meu melhor amigo, que não me conta mais absolutamente nada, fique se agarrando com nenhuma v********a por aí.
-Ela não é nenhuma v********a, City. E é exatamente por isso que eu não contei. E eu m*l tive tempo para isso.
Ela não disse mais nada. Voltei para sala com a garrafa e dois copos em mãos.
-Gosta? –perguntei, levantando a garra de Free.
-Muito. –ela sorriu, estonteante.
Quando pus a garrafa e os dois copos sobre a mesa de centro, a campainha entrou em ação novamente. Desta vez, Susane e Marcus, sempre juntos, estavam a porta. As flores que Su me trouxera ainda estavam lá, intactas, no quarto de Summer.
-Que bom que vieram. –disse, convidando-os para entrar.
Mais tarde, meu pai, minha avó materna, meu avô paterno, meus dois tios e outros da família também chegaram. Annie chegou bem no final, quando todos estavam comendo a sobremesa. Conversei com Sophie sobre Paul, contando tudo o que aconteceu depois do acidente. Ela me contou sobre sua vida, sobre a viagem para a Carolina do Norte e muitas outras coisas na qual eu não sabia sobre ela. Porém tudo soava monótono. Os meus poucos convidados fingiam estar felizes, mas, verdadeiramente, não havia motivos satisfatórios para a realização de uma comemoração deste modo. City passou o tempo todo com o rosto fechado, insatisfeita. Isso me deixou m*l, porque, certamente, seria o nosso último dia juntos. Ter de aceitar que eu nunca mais veria aquelas pessoas outro dia não era uma tarefa fácil, mas eu tentei.
No momento do ritual que chamam de parabéns, eu olhei para cada um com muita concentração. Eu os observei lentamente, tentando guardar ao máximo daquela cena em minha mente, para que eu nunca a perdesse, por anos e anos. Todos batiam palmas, com as luzes apagadas, a vela fincada a um bolo de chocolate em minha frente. Summer era a minha esperança. Sabia que eu não a perderia, e que ainda viveríamos muitos anos além. No fim, eu assoprei a vela, apagando a pequena chama que balançava para todos os lados no topo. Ali, tudo acabou. Parecia um último episódio de uma série de drama, uma das minhas preferidas, aliás.
Todos foram embora depois do mousse delicioso que mamãe preparou. Abracei a cada um por quase um minuto. Falei para City que ela não deveria agir daquela maneira, e que eu a amava. Ela sorriu, me dando um beijo na bochecha, pedindo desculpas. Annie me deu um rápido abraço. Sophie foi a última. Não sabíamos exatamente como agir, mas, por impulso, encostei meus lábios nos dela por alguns segundos.
-Agradeça sua mãe por ter deixado você vir. Espero te ver por aí, quem sabe. –disse, olhando além de seus pequenos olhos.
-Pode deixar. Vê se não morre, Hector Mitchell. –Sophie disse.
Logo depois, ela se foi. E era isso, não havia mais o que fazer. Eu não sabia o que pensar ou que fazer. A casa agora voltara ao silêncio de costume. Mas, para a minha surpresa, a campainha ainda não havia terminado o seu serviço do dia. Havia mais alguém atrás da porta. Um atrasado.
-Eu disse que viria, não? –Reese King estava do lado de fora, em uma calça de jeans rasgada, uma blusa azul e um pouco mais alto que eu, como sempre.
-Pensei que não viesse mais. –disse, surpreso.
-Sou um homem de palavra, senhor Mitchell.
Eu o abracei forte, deixando transparecer meu momento de fragilidade. Mamãe, papai e Summer também foram cumprimentar King. Em seguida, corri para o quarto buscar o caderno de anotações que achei no porão da Bullet. Reese ficou impressionado. A cada frase que líamos, ríamos mais alto, e mais alto. Eram ótimas lembranças. Se fosse possível, voltaríamos no tempo, só para vivencia-las mais uma vez. Ele também me contou sobre toda a sua vida enquanto esteve fora, sobre seus namoros, suas decepções, suas grandes viagens...
Depois de passarmos toda a madrugada conversando, dormimos um pouco. Reese iria para casa de seu primo no outro dia, não muito longe do Central Park. E foi assim o meu último dia de liberdade. Tudo pareceu alegre e nostálgico. Antes de pegar no sono, peguei mais uma vez o pequeno caderno de anotações das melhores frases de Reese King e o abri em uma página aleatória. A frase de número 84 dizia o seguinte:
Não se pode esperar o melhor da vida. Ela é traiçoeira e perversa, então, não fique parado, esperando que a felicidade corra até você. Levante de onde você caiu e siga em frente. Talvez, a recompensa venha logo em seguida. No final, o que nos sobra são apenas lembranças. Lute para que você possa ter as melhores possíveis. Ao contrário disso, depois de tudo, tudo não passará de cinzas.
Paul não poderia se tornar apenas cinzas. E eu lutaria por isso.