Eu costumava perder em Break: A vingança dos Half -o jogo preferido de Paul, por sinal– nas tardes em que passávamos no porão da Bullet Street. O jogo era uma simulação de guerras apocalípticas totalmente futurísticas, onde seres trans-humanos dominam a Terra. Eu era péssimo, para variar. No final, Paul sempre vencia, e eu já esperava por isso. E nunca liguei para essas coisas, para falar a verdade. Eu nunca tirei a nota mais alta na classe, e também nunca venci as partidas nas competições de xadrez. Também nunca fui bem nas aulas de educação física, muito menos nas de artes. Até um ser sem mãos faz um desenho melhor que o seu, como dizia City. Nas aulas de música, tinha ajuda de Paul, mas nunca o suficiente para ser o melhor. E eu nunca liguei para nada disso. Não que eu seja um derrotado funcional, porém, quase nada me faz pensar no que outros irão achar. Talvez isso seja de família. City vê isso como um defeito, porque, segundo ela, se você não se preocupa (nem um pouco) com a opinião dos outros, você também nunca aceitará crítica alguma, e, consequentemente, esta nunca será construtiva para qualquer coisa que você esteja fazendo. Mas sempre vi toda essa situação por outro lado; vejamos: se você gosta daquilo que faz, e tal coisa lhe faz bem, qual a importância das opiniões alheias? Foi assim que eu sempre pensei. Talvez não funcione para você, mas sempre funcionou comigo.
Porém desta vez, tudo era diferente. Não era uma simples perda. Uma partida qualquer, de um jogo qualquer. Também não eram as competições de olimpíadas da escola, muito menos a disputa pelo grêmio estudantil. Eram pessoas, de carne e osso. Pessoas que eu amava. O mundo na qual eu andava estava se estilhaçando. Estava ficando sem chão.
-E, Hector. -Reese disse enquanto esperávamos o táxi, bem próximo ao meu prédio. -Sinto muito pelo Thomas. Eu sei que é difícil. Eu nem o conheço, mas...
-Minha mãe estava grávida dele quando você foi embora.
-É. Eu... Eu espero que ele fique bem, de verdade.
O dia estava nublado. Cada nuvem demonstrava um sentimento diferente de cada um de nós, que olhávamos para elas. Pelas calçadas de cada avenida, uma multidão de pessoas caminhavam pela esperança de uma vida melhor. De um mundo melhor. Mas este mundo não existia mais, e nem iria existir. O Peace For The Future, com suas camisas verdes, não me traziam sonhos. Eles eram apenas deputados, senadores, associados e presidentes disfarçados de pessoas comuns. O programa em que seria celebrado a a******a dos primeiros Isolamentos seria transmitido para todos, é claro. Haveria música, alegria, prêmios em sorteio para os que aparecessem.... Infelizmente, muitos iriam até lá. Muitos ainda acreditavam em um futuro. Porém, o amanhã dependia do agora. E o agora estava destruído.
-O que vai fazer da vida, Reese? -perguntei, enquanto observávamos a passeata verde.
-Acho que vou me fantasiar como aquele herói antigo. Ele usava um arco e flecha, e uma roupa verde também. Assim, eu me infiltro dentro da PFF, e, sei lá. Mato um por um, quem sabe.
Começamos a rir imediatamente. De repente, me peguei imaginando Reese King como um grande arqueiro assassino aniquilando cada participante da Peace For the Future. E vi que, realmente, tudo iria piorar. Pensei no vídeo mostrado por Justin, onde o presidente se mostra um completo i****a. Se o nosso futuro estava nas mãos daquele cara, bem, realmente, não havia como pensar positivo.
-Já sabe para qual Isolamento você vai? Quer dizer, você vai com os seus tios, não?
-Provável que sim. Talvez eu volte para a Flórida, deve ter um Isolamento na praia lá. Seria bem mais interessante do que mofar debaixo da terra, não acha? -Reese deu uma piscada rápida com o olho direito.
-Só você mesmo, Reese. -disse, rindo mais um pouco.
-Agora, falando sério. -ele parou de rir para prosseguir. -Acho que vou para o 11.
-Você odeia esse número. -falei, relembrando do Reese que conhecia aos 12 anos.
-Mas é claro. Não lembra do que aconteceu com aqueles dois prédios exatamente iguais? Aqui mesmo, em NY. Eles formavam um onze, caro Hector. E todos sabemos como estes gêmeos terminaram.
-Isso já faz muito tempo. -eu disse, ainda admirando o senso de humor de Reese, mesmo em meio a toda a situação delicada.
-Preciso te entregar uma coisa. -ele disse, subitamente. Abriu sua mochila, retirando uma pequena caixa preta. Um laço dourado a envolvia, fazendo que aquilo se tornasse um belo presente.
-Com certeza, você não fez esse laço. -disse, rindo, enquanto ele fechava o zíper de sua mochila.
-Foi a mulher da loja que sugeriu. Nem iria ter embalagem. Essa caixa foi cara, Hector. -Reese disse, sorrindo.
-Eu esperava. -falei.
-É seu. -ele disse, entregando-me a pequena caixa. -Abra depois, bem mais tarde. Você sabe, eu não choro em público. -King sorriu.
Eu o abracei pela última vez quando um táxi parou ao nosso lado. Eu pude ver o seu sorriso sarcástico, o seu andar engraçado, suas roupas descoladas e o seu modo desajeitado de acenar pela última vez. O táxi partiu alguns segundos depois, Reese pôs sua cabeça para fora rapidamente, dizendo o último o adeus. Eu olhei em volta, e me peguei sozinho, com um presente em mãos, em uma calçada movimentada, em ruas lotadas de pessoas esperançosas. Era mais um adeus para a minha coleção.
Quando voltei ao apartamento, Summer estava conversando com Oliver em nossa sala. Ele vestia uma blusa verde, uma calça azul e um par de tênis cinza. Parecia perigoso e cauteloso, como sempre. Deixei a pequena caixa preta na mesa de centro.
-Oi, Oliver. -falei, um pouco surpreso.
-E aí, Hector. -ele me abraçou, animado. -Só passei aqui para me despedir. Sei que só nos falamos uma vez na vida, mas... Foi um dia importante. Eu nunca irei esquecer.
-Vai para o quatro ou cinco? -perguntei, olhando para Summer, que parecia um pouco triste.
-Não, eu vou para o 8. Mas estou indo para Washington visitar minha mãe, antes de ir para o Isolamento. Me despedir, você sabe.
-Washington. -repeti, lembrando-me negativamente o que Justin havia me contado. -Ótimo.
-É isso. Espero que dê tudo certo para vocês. E mande um abraço para o seu pai.
-Muito obrigado por tudo, Oliver. Por ter salvo minha vida no 32. E espero que dê tudo certo para você também.
-Não foi nada. -ele assentiu, sorrindo. -Então, era isso. Minhas malas já estão prontas, acho que já vou.
-Boa viagem. -disse, estremecido.
Acompanhei-o até a porta, dando mais um último adeus. Eu estava os colecionando, de verdade.
-Ele me dá medo. -Summer disse quando Oliver saiu.
-Por que? Ele é um herói, Summ. Tem nome de herói, até.
-Não! -Summer riu por um segundo. -Dele! -ela apontou para televisão, que até então eu não havia notado que estava ligada.
-Medo do presidente? -perguntei, observando James Fillmore dando um de seus pequenos discursos ao vivo.
-É. -ela respondeu, distante.
-Ele não é tão f**o assim. -disse, tentando descontrair.
-Acho que mamãe precisa de ajuda. -Summ disse.
Quando cheguei ao seu quarto, mamãe estava chorando. Tive um pequeno déjà vú, pela grande semelhança da cena do dia quando Thomas foi levado e Summer havia sumido.
-Mãe? -entrei no quarto, vendo-a de costas, com sua cabeça abaixada.
Caminhei até sua cama, sentando-se à beira, ao seu lado. Ela tentava limpar o seu rosto das lágrimas, mas outras mais caíam. Soluçava, demonstrando desespero. Temi pelo causa do choro.
-O que houve? -perguntei, colocando minhas mãos sobre as dela.
Ela permaneceu parada, tremendo um pouco, movendo seu corpo de um lado para o outro. Continuava a limpar os oceanos que habitavam em suas pequenas bochechas. Um tempo depois, ela se levantou, ficando de costas para mim. Abriu o seu armário, pegando uma grande mala ali dentro. Ela a pegou com dificuldade, mas conseguiu jogá-la em cima da cama. Em seguida, arrancou suas roupas dos cabides sem pena alguma, tacando-as para dentro da mala azul.
-Mãe? O que está acontecendo? -eu a chamei, levantando-me. Ela continuou a arrancar suas roupas com todo ódio. -Mãe? Mãe? -eu segurei suas mãos, fazendo-a olhar em meus olhos. -O que aconteceu?
-Como o que aconteceu, Hector? -ela disse, irritada. Suas lágrimas voltaram a cair. -Seu irmão ainda está lá, preso. E nós vamos para o Isolamento hoje. Morrer lá! E eu nunca mais vou ver o meu filho.
Ela disse, engolindo em seco. Seus punhos estavam cerrados.
-Papai disse que iríamos à reclusão antes de irmos para o Isolamento. -eu disse, tentando acalmá-la.
-Por favor, Hector. Faltam apenas algumas horas para irmos, e eu ainda nem arrumei a d***a da minha mala! -ela puxou seus punhos para fora das minhãs mãos, irritada. -E vá arrumar a sua também. Acabou, d***a! -ela disse, puxando mais algumas roupas de seu cabide.
Saí do quarto, fechando a porta cuidadosamente. Summer estava parada, bem próxima ao meu quarto. Ela segurava sua pelúcia de estimação pelo pescoço, como de costume. Ficamos um tempo parados, um observando ao outro. Quando finalmente percebi as verdades que mamãe havia me dito eram completamente urgentes, eu corri. Abracei minha pequena a irmã. Pedi seu celular, e ela rapidamente o me emprestou. Desci as escadas, procurando o número de papai perdido nas últimas ligações.
-Precisamos ver Thomas hoje. -falei, decidido.
-Thomas? Não é tão simples, Hector. Você sabe que não depende de mim, e...
-f**a-se. Pense na sua esposa, em Summer, e em mim. Além disso, é seu filho, pai! Sabe que nunca mais o veremos, não é?
-Hector, não é assim! -papai vociferou. -E olhe como fala com o seu pai!
-Minha mãe está chorando, pai! -eu disse, com um tremor de emoção em minha voz. -É insuportável tudo isso! -completei, começando a chorar.
Ele se fez por silencioso durante um momento. Não sabia mais como fazer, mas simplesmente não poderia ver minha mãe sofrer e não fazer nada. Insisti, implorando por misericórdia. Ele parecia triste ao outro lado da linha. Desculpei-me por ter sido grosso.
-Posso tentar. -ele disse. -Mas não posso prometer nada.
Papai desligou em seguida. Iria trabalhar, segundo ele. Mas não havia mais nada a se fazer, e eu sabia disso. No fundo, não aguentava mais os seus segredos. Papai estava lá, no meio daquilo tudo. Ele conversava com os mandantes, os políticos e todos os seus amigos cientistas. Eu esperava que meu pai não fosse como todos eles.
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Summer e eu passamos o resto do dia arrumando nossas malas. Eu a ajudei com tudo o que precisava, sempre respondendo suas perguntas como: "Estou esquecendo mais alguma coisa, irmão? Olha!". Mamãe não falou muito, mas também arrumou sua mala. E a do meu pai, também. A tarde caiu rapidamente, pegando-nos desprevenidos. A a******a do Isolamento estava marcada para às 8, mas muitos já estavam lá, aguardando. Afinal, muitas pessoas importantes estariam presentes para o grande evento, inclusive o líder da Peace For the Future. Aquele b****a.
Enquanto eu ajudava a mamãe a descer com todas as malas pela escada, papai chegou de seu trabalho. Ele passou pela porta, sorrindo. Jogou sua pequena pasta no sofá, conforme o costume. Ele olhou para o presente que Reese King havia me dado mais cedo. Ao ver a pequena caixa preta com o laço dourado, semicerrou os olhos, curioso.
-O que é isso? -ele perguntou, sorrindo.
-Um presente. Eu ainda não abri. -disse, colocando a última mala no chão da sala.
-Guarde logo, antes que deixe para trás.
-Vou guardar. -falei, indo buscar a caixa.
-Eu consegui, Hector. -ele disse, quando minhas mãos tocaram a caixa.
-O quê? -parei por um momento.
-Vamos visitar seu irmão. -papai disse.
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A reclusão era um lugar desagradável. Era como uma prisão, porém com um ar diferente. Simplesmente porque os presos nunca sairiam dali. Não havia segunda chance para aqueles que fossem para lá. Era como um local exclusivo de condenação perpétua.
-Thomas Mitchell. Meu filho. -meu pai disse ao homem da recepção. Mamãe, Summer e eu estávamos abraçados bem atrás dele, ansiosos.
A recepção era completamente escura, o cinza cobria todas as paredes do local. O homem atrás do balcão vestia um uniforme preto, Steven estava costurado em seu peito esquerdo. Minutos depois, todos nós sentamos nas poucas cadeiras desconfortáveis que haviam lá. Uma mulher alta, cabelos claros, trajando o uniforme da polícia, apareceu.
-Família de Thomas Mitchell? -ela perguntou, passando pela pequena porta que havia atrás do balcão de Steven.
Mamãe sorriu, respirando fundo. Caminhamos logo atrás da Delegada Witt. Passamos por um corredor escuro, com portas e janelas fechadas. Era possível ouvir pessoas chorando, outros batendo nas portas, rangidos estranhos. Subimos, pela escada velha da reclusão, para o segundo andar. Witt permaneceu calada até finalmente chegarmos ao segundo andar.
-Já se passaram mais de sete dias. Então, como devem saber, Thomas já está afetado visivelmente. Não esbocem reações de pavor ou medo. Ele ainda não está completamente incontrolável. Demos um remédio a Thomas para que pudessem visitá-lo. Estando medicado, não há o que temer. Isso serve para a pequena também. -a delegada disse, com sua voz rouca e séria. Summer mostrou um pequeno sorriso.
-Um de cada vez? -perguntei, enquanto caminhamos mais a frente, até finalmente chegarmos a última porta do corredor.
-Dois, no máximo. Delegada Witt. Visita. -ela disse, para a porta, aparentemente.
Uma pequena câmera surgiu da parede, bem próximo à porta. Seu olho esquerdo foi reconhecido pelo programa, abrindo a porta automaticamente.
-À vontade. -a delegada disse.
Mamãe e eu fomos os primeiros. A sala estava fria, m*l iluminada e um pouco densa. No fim dela, a parede era completamente de vidro. Thomas estava sentado, do outro lado do vidro que nos separava. Havia uma luz fraca que iluminava o lado de meu irmão. Ele estava em um lugar completamente vazio. Era apenas ele ao centro e as três parede brancas, com uma porta ao fundo. Seus braços não se moviam, pois estavam presos à cadeira.
-Thomas? -mamãe disse, desconfiada se ele nos ouviria.
Sua cabeça estava completamente lisa. Seus pés se moviam bem lentamente, e seus braços tremiam. Ele levantou a cabeça gradativamente, até nos deparamos com o seu rosto assustador. Lembrei da delegada neste exato momento. Não esbocem reações de pavor ou medo.
-Filho? -mamãe disse, pondo suas mãos na parede de vidro, tentando ficar o mais próxima possível.
Ele não disse nada. Escorriam lágrimas de seus olhos, mas ele continuou sério. Seus olhos estavam fundos,e também haviam manchas por todo o seu corpo. Seus lábios estavam excessivamente esbranquiçados.
-Thomas. Nós. Nós amamos você.
Ele continuou parado, ainda em tremores. Seus lábios se mexiam, mas não saíam som algum. Seus dedos batiam nos braços das cadeiras freneticamente. Sua sobrancelha estava falha, quase não havia mais nada ali. Mamãe abraçou-me repentinamente, debulhando-se em lágrimas. Eu a segurei, mesmo sem forças. Foi quando olhei para Thomas. Ele parecia querer dizer alguma coisa.
-Thomas. Eu não estou entendendo. Thomas? Thomas?
Mamãe largou-me instantaneamente. Nossas cabeças estavam coladas no vidro, como um imã. Ele parecia querer sair dali, passou a se mexer descontroladamente. Começamos a entrar em desespero, meu irmão havia perdido o controle. Ele gritou, e, finalmente, ouvimos sua voz. Mamãe gritava, batendo contra o vidro. Eu a segurava, mas já não tinha forças para lutar contra aquilo. Thomas, depois de tanto insistir, tombou junto a cadeira. Suas mãos continuaram presas, e isso ainda o irritava. Ele tornou a gritar, balançando-se com a cadeira no chão. Segundos depois, dois homens entraram do outro lado, levantando-o. Eles retiraram Thomas da cadeira, segurando-o com força, arrastando-o para a saída. Mamãe gritava para que o deixassem, mas já não havia tempo. Suas últimas palavras foram:
Eu amo vocês.