Há quem diga que os Isolamentos são uma estratégia fodida do governo para resolver todo o caos alastrado pelo mesmo. Eu não estava bem para enfrentar pessoas hipócritas, programas de televisão, câmeras por todas as partes, apresentadores que pareciam estar superfelizes, e, muito menos, James Fillmore, o presidente.
Mas não adiantou muito. Depois de sairmos totalmente desolados da reclusão, chegamos à Cerimônia de a******a completamente frustrados, por volta das nove. Mamãe parecia que iria explodir em lágrimas a qualquer momento. Summer parecia distante. Meu pai parecia culpado, acho. Eu sentia vontade de explodir cada pessoa presente no palco. Exceto por Rick.
-Agora teremos o sorteio mais esperado da noite. -a apresentadora disse em seu microfone quase transparente. -Um sortudo -ela fez uma pausa,mostrando todos os seus dentes, alguns deles dourados. -Ou uma sortuda, terá a chance de uma vaga extra no Isolamento 4. A sua família também entrará,obviamente. -a mulher alta sorriu, mais uma vez.
Havia um palco, algumas pessoas assentadas em enorme poltronas logo atrás de Elisabeth, a apresentadora. Atrás deles, uma tela digital onde se mostrava abandeira dos Estados Unidos. Câmeras sobrevoavam por todo o local.Uma tela de 45.7m de comprimento por 32.8 m de altura se encontrava ao lado do palco. As pessoas estavam de pé, esperando por algo. Atrás do palco, a entrada para o Isolamento 4.
A multidão gritou. Cerca de mil pessoas estavam presentes, aproximadamente. Elisabeth caminhou pelo palco, de um lado para o outro, parecendo procurar por alguém. Até que, de repente, ela parou e apontou para alguém da plateia.
-Você mesmo, de cabelos azuis. Gostei de você! -ela disse, risonha. -Suba até aqui! Você irá sortear o felizardo de hoje.
Alguns seguranças acompanharam o pequeno garoto até o palco. Ele deveria ter aproximadamente nove anos, usava roupas maltrapilhas, 1.50m de altura, pele clara, e, claro, cabelos azuis.
-Podemos saber o seu nome? -ela disse, aproximando o microfone a boca do menino.
-Rick.-ele respondeu, tímido, balançando de um lado para outro.
-Ele não é fofo, pessoal? -a mulher o abraçou, demonstrando afeição pela criança. Tudo aquilo é para mostrar solidariedade aos pobres em rede nacional. Tudo para a mídia, claro. Inclusive o sorteio.
Um homem n***o, de terno, parou ao lado da apresentadora. Deu a ela uma caixa média, feita de vidro. Ela segurou a caixa de frente para acriança, e, em seguida, mandou-o retirar um nome de lá. O menino permaneceu com a mão direita dentro da caixa por alguns segundos, até finalmente trazer um pequeno cartão cinza, onde se encontrava o nome do vencedor.
-Ryan Hill. -ela disse, e toda a multidão ficou em silêncio.
O vencedor gritou, aparecendo segundos depois. Um homem de meia-idade, cabelos brancos, vestindo um casaco verde e uma calça jeans antiquada, subiu correndo até o palco, feliz por ter ganhado um apartamento no Isolamento que iria inaugurar em algumas horas. Pelo seu sorriso, aquilo deveria resolver todos os problemas de sua vida.Parece que, finalmente, ele teria paz, sossego, segurança para a sua família, e ainda iria se livrar de qualquer tipo de contaminação. Mas será que os Isolamentos representavam mesmo essa esperança? Peguei-me pensando nisso enquanto toda a cena ainda acontecia pelo palco.
-O presidente tem um recado para o grande vencedor. -a apresentadora anunciou.
Fillmore apareceu após o anúncio de Elisabeth. Ele estava em seu terno levemente dourado (eu o detestava, particularmente) de sempre, uma barba por fazer e o cabelo penteado direcionado para a direita. Sua mensagem gravada era simplesmente repugnante. O homem,totalmente satisfeito, agradeceu após os aplausos da multidão para o presidente.
-Não sei nem como agradecer. Eu não costumo ter muita sorte, mas dessa vez eu tive. Acho que tenho que agradecer muito ao Rick, não é mesmo? -o homem riu, abraçando a criança, e a multidão o acompanhou.
O momento de descontração foi interrompido por uma grande desgraça.Um tiro certeiro, bem no peito de Rick Hill, até então, o homem mais sortudo da cerimônia de a******a. As pessoas ficaram perplexas.A criança dos cabelos azuis correu para fora do palco. Mais disparos acertaram a grande tela ao lado do palco. Em seguida, a apresentadora mais famosa de NY foi atingida, despescando de uma altura de 5 metros, do palco. O desespero tomou conta do recinto. As pessoas corriam, apavoradas.
-Quem são? -mamãe disse, segurando nos ombros de meu pai.
Não era tempo para conversas. Todos saíram correndo, imediatamente.Permaneci parado, ainda sem acreditar. Como as pessoas ainda pensavam em paz? Ela simplesmente não era mais possível. Observei a todos. O presidente da Peace For the Future correu para as portas dos fundos no palco. A mulher idosa caída ao chão, onde ninguém a ajudou a levantar. Uma jovem, bonita, em uma poça de sangue. Uma criança, perdida dos pais, chorava. A mãe o encontrou depois, pegando-o no colo. Rostos apavorados corriam sem rumo. Rick, o garoto azul, estava caído, e muitos o pisaram. Ele gemia de dor, mas ninguém o notava. Não havia altruísmo, muito menos amor ao próximo. As pessoas pensavam apenas em si mesmas, e é por isso que tudo estava errado. Annie apareceu em minha frente, segurando uma criança em seu colo.
-Hector?Hector, nós precisamos correr! O isolamento está aberto! -ela gritou, tentando buscar minha atenção.
Eu a olhei rapidamente, em seguida, corri em direção a criança. Um homem alto esbarrou em mim, sem pedir desculpas. Continuei em direção a Rick, enquanto Annie gritava. Eu a respondi por cima dos ombros que seguisse em frente, sem mim.
-Rick!Onde está sua família? -eu o levantei, pegando-o por debaixo dos ombros. Ele estava com alguns ferimentos em seu joelho, nariz e próximo a orelha.
-Eu não sei. -o menino tremia, desesperado.
Segurei sua mão esquerda, e o guiei para fora daquele tumulto. Nós desviávamos das pessoas, que corriam desesperadas. Ouvia-se tiros e mais tiros por todos os lados. Caminhávamos encurvados, olhando para todos os cantos. Pessoas morriam a cada segundo. Por um instante, vi um dos infectados armado em meio a multidão. Ele não parecia muito ofensivo, para falar a verdade. Estava vestido de preto, e olhava calmamente para todos na multidão. As pessoas passavam ao seu lado, apavoradas. Avistei o palco mais uma vez, e os políticos já não estavam mais lá. Esperava que todos estivessem mortos.
-Quero minha mãe. -o menino disse, apertando minha mão.
-Vamos para o Isolamento. -disse, sem pensar.
Corremos em direção ao sul, para trás do palco, onde o Isolamento estava.Vi Annie com sua irmã mais nova, e sua mãe também. Elas corriam,assim como todos. Os grandes portões do Isolamento estavam abertos.Seguranças chamavam a todos, pedindo para que fossem mais rápidos.A parte de cima era um prédio, não muito grande, com mais ou menos oito andares. Sua frente era feita toda em vidro. Um quatro gigante ia do topo ao chão do prédio. Era o começo para o fim.
-Hector!Onde você estava? -papai apareceu ao meu lado.
-Rick precisava de ajuda. -disse.
-Ah. Onde está a mãe dele? -ele inquiriu.
-Espero que esteja lá dentro. -falei.
Continuamos em direção ao prédio, até finalmente entrarmos. Eu senti cada vibração daquele momento. No instante em que passei pelos portões,soube que tudo seria diferente. A entrada estava lotada. Todos parados, com medo. Soldados da força americana, com uniformes cinzas, saíam do prédio, em direção a multidão. Eles iriam tentar deter os infectados. Toda a movimentação foi interrompida por um infectado que pegara o microfone de Elisabeth.
-Isso é só o começo, senhor presidente. Seu país irá pagar caro, por tudo. -ele disse, com uma voz embargada, demonstrava dor.
Logo após, um tiro. Sua voz sumira, junto a sua vida. Os soldados tomaram conta do local, ajudando alguns feridos. Policiais e ambulâncias chegaram logo depois. Tudo estava sendo transmitido ao vivo, e nós podíamos ver de dentro do isolamento. Alguns infectados fugiram, mas grande parte deles foram mortos.
Os portões do Isolamento começaram a se fechar minutos depois.Enquanto ele se contraía, lentamente, eu observei cada segundo que pude, o mundo afora. Haviam sirenes das vans, pessoas sendo carregadas, morte e gemidos de dor. A despedida de NY, na verdade,foi pior do que eu esperava. Uma tragédia.
E então, estávamos presos ali. Todos na recepção do isolamento,apertados. O chefe de segurança local iria falar, e, para isso, foi pedido silêncio a todos os presentes.
-A entrada não ocorreu como planejávamos. Bem, se você se aproveitou da situação e aproveitou para se infiltrar aqui, desista. Você será expulso. -o general disse, frio.
As pessoas começaram a olhar para todos os lados, como se pudessem identificar qualquer suspeito a olho nu. Rick ainda segurava minha mão. Percebi que deveria me manifestar.
-Trouxe esta criança comigo, pois estava perdida de seus pais. -disse. As pessoas abriram um caminho, olhando para trás, até Rick e eu ficarmos visíveis para os seguranças, o general, e todas as outras pessoas.
-O menino azul. -o general disse. -Levem-no para casa.
Alguns soldados caminharam em nossa direção. Rick lançou-me um olhar assustado.
-Tudo vai ficar bem. -eu disse. Em seguida, eu o abracei, despedindo-me do garoto.
Ele foi levado,e, aparentemente, tudo iria ficar bem. Olhei para frente, pude ver Summer e minha mãe, sorrindo. Aquele era um sinal de aprovação, certamente.
-É bom saber que ainda existem pessoas como você. -uma voz conhecida surgiu sobre os meus ombros.
-Oi,Justin. -virei-me, não muito surpreso por encontrá-lo.
-Precisamos conversar. Mais tarde, é claro. -ele sorriu.