Monstro Narrando Quando a gente trouxe o Serrão pro galpão, o ar já tava pesado. A noite parecia ter pendurado um pano escuro sobre o mundo, e naquele lugar esquecido pelo resto da cidade eu senti o sangue ferver de novo, uma mistura de raiva, alívio e cansaço. O bicho acordou se debatendo no carro, gritando como todo sujeito que acredita que a polícia vai salvá-lo. Ninguém atendeu. Deixei ele berrar até perder a voz. Era o rito da queda: o homem que achou que podia mexer com a vida do outro agora era só um corpo que respirava. — Cala essa bocarra — mandei seco, e o eco da minha voz bateu na ferrugem do galpão. — Vai falar o que eu quero saber, ou vai gritar até amanhã? O jogo começou, ele amarrado, ferro quente na tábua do queixo, chicote de couro com ponta de osso estralando: a mente

