Íris Narrando
Me chamo Íris Lima, tenho vinte e cinco anos e, como meu pai sempre fala, carrego no cabelo o fogo que me move. Uma ruiva de olhos azuis, 1,65 de altura e um coração que não cabe dentro do peito quando o assunto é cuidar do próximo. Sempre ouvi ele dizer que sou a cópia perfeita da minha mãe, não só no rosto, mas também no jeito de viver.
Minha mãe é enfermeira. E não uma qualquer: é a mulher que transformou o sonho de ajudar o mundo em realidade. O hospital da nossa comunidade existe porque ela acreditou e porque meu pai acreditou nela. Sem verba, sem ajuda de político, sem apoio de ninguém. Ele, que é conhecido como um monstro lá fora, construiu com as próprias mãos o lugar que hoje salva vidas todos os dias. Para mim e para o meu irmão, o nosso pai é o melhor homem do mundo. Para minha mãe, é um príncipe. Só que para o resto da sociedade, ele é só mais um traficante perigoso.
Crescer nesse meio foi como andar sempre na corda bamba. De um lado, a luz da minha mãe, os jalecos brancos, os sorrisos de gratidão dos pacientes. Do outro, a sombra pesada do meu pai, o respeito que todo mundo tem por ele, mas também o medo, a violência e a marca do crime. Eu escolhi ficar do lado dela. Já meu irmão gêmeo, o Leandrinho, escolheu seguir os passos do nosso pai.
— Cada um tem que viver sua própria vida, filha — minha mãe sempre me disse. — Você não é obrigada a seguir os erros de ninguém.
Eu sempre respondi com o coração:
— Mãe, eu quero é salvar vida. Quero ser enfermeira como a senhora.
E foi o que eu fiz. Me formei, entrei para a equipe do hospital e desde então sou feliz de verdade só quando estou lá dentro. Minha vida é corrida, quase não sobra tempo para respirar. Mas cada vez que eu entro em um quarto e vejo um paciente se recuperar, cada vez que aplico uma medicação e a dor de alguém passa, cada vez que uma mãe sorri porque o bebê nasceu bem, é como se meu coração explodisse de alegria.
Não existe nada mais gratificante.
A verdade é que eu vivo para isso. Não tenho vida social, não tenho liberdade para andar em qualquer lugar sem ouvir cochichos por ser “filha de bandido”, mas tenho algo que ninguém tira de mim: a certeza de que ajudo pessoas todos os dias.
Minha melhor amiga entende isso. Safira, filha da minha madrinha Rayssa e do meu padrinho Cabeça. A gente cresceu juntas e ela acabou de se formar em odontologia. Os pais abriram uma clínica para ela na entrada do morro. Sempre que dá, nos encontramos, mas ultimamente só tenho conseguido nos finais de semana, quando não estou cobrindo os plantões de quem mora fora da comunidade.
— Tu ainda vai morrer de tanto trabalhar, amiga — ela vive reclamando.
E eu sempre retruco rindo:
— Vou nada! Eu nasci pra isso, Safi. Salvar vidas é o que me faz feliz.
Ela revira os olhos, mas sabe que é verdade.
Aqui dentro do hospital não é só minha mãe que manda bem. Minha madrinha Rayssa também trabalha com a gente, além da tia Nina, madrinha do meu irmão. Duas mulheres fortes, que viraram minhas referências. Cresci vendo essas três guerreiras cuidarem do povo, e foi nelas que encontrei forças pra seguir minha vocação.
Mas, claro, nem tudo é tão simples.
Eu carrego comigo um segredo que só a Safira e minha mãe sabem. Um amor que nasceu lá atrás, quando eu tinha treze, quatorze anos. Meu primeiro beijo foi com Antônio, filho da tia Nina. Aquele beijo me deixou sem chão, parecia que eu tinha encontrado meu lugar no mundo. Só que logo depois veio o medo: medo do meu pai descobrir, medo da confusão que poderia virar. E então a gente se afastou.
Passaram-se os anos. Antônio seguiu a vida dele, eu segui a minha. Ele começou a namorar uma garota da escola, e eu sofri tanto que cheguei a ter febre. Era uma boba apaixonada. Mais tarde, tive dois namorados: um médico do hospital e depois o dono de uma distribuidora de bebidas. Mas nenhum deles ocupou o espaço que sempre foi do Antônio.
Meu coração nunca foi meu. Sempre foi dele.
— Você tem que esquecer isso, Íris — minha mãe já me aconselhou tantas vezes. — Não é justo carregar esse peso sozinha.
Eu respiro fundo e respondo:
— Eu sei, mãe. Mas não dá pra mandar no coração.
E ela me abraça, como se quisesse dividir a dor comigo. Sei que ela sofre por não poder me ver viver esse amor.
Hoje em dia, eu e Antônio somos adultos. A gente se cumprimenta, troca meia dúzia de palavras, e cada um segue seu rumo. Ele nunca me procurou. Eu nunca o procurei. Talvez ele nunca tenha me amado. Talvez só eu tenha ficado presa nesse sentimento. Mas eu nunca cobrei nada dele e nunca vou cobrar. Ele não tem culpa se o meu coração escolheu ele.
Na verdade, eu aprendi a conviver com isso. Me escondo atrás do meu trabalho, do meu jaleco, das noites em claro dentro do hospital. Enquanto salvo vidas, esqueço um pouco da minha própria.
Outro dia, por exemplo, chegou uma senhora em estado grave. Pressão despencando, respiração fraca. Todo mundo se agitou, parecia que não ia dar tempo. Eu respirei fundo, lembrei dos ensinamentos da minha mãe e fui firme. Fiz as medicações, organizei a equipe, não deixei ninguém se desesperar. Quando ela estabilizou e voltou a respirar direito, eu senti aquele nó na garganta de emoção.
— Obrigada, enfermeira, você salvou minha mãe — a filha dela disse, com lágrimas nos olhos.
Naquele momento, não existia mundo lá fora, não existia tráfico, não existia rótulo de “filha de bandido”. Só existia eu, a paciente e a vida que tinha sido preservada.
É isso que me move. É isso que me faz levantar todo dia.
Claro que nem sempre é fácil. Às vezes, chego em casa exausta, com olheiras profundas e o corpo pedindo descanso. Meu pai, preocupado, pergunta:
— Filha, até quando tu vai se matar de trabalhar assim?
E eu sorrio, segurando a mão dele:
— Até quando Deus quiser, pai. Porque é isso que me faz feliz.
Ele não entende muito, mas respeita. No fundo, acho que tem orgulho. Mesmo sendo o homem que é, ele vibra quando ouve as pessoas elogiarem o hospital. É como se, através de mim e da minha mãe, ele pudesse mostrar ao mundo que não é só o monstro que pintam por aí.
A vida aqui no morro é feita de contrastes. De um lado, as armas e o medo. Do outro, os sorrisos e as curas. Eu caminho entre esses dois mundos todos os dias. Mas não me arrependo da escolha que fiz.
Eu sou Íris. Enfermeira, filha de traficante, filha de enfermeira. Metade sombra, metade luz. Mas inteira no amor que tenho pela minha profissão.
E, mesmo carregando um amor impossível dentro de mim, eu sigo. Porque, no fim das contas, o que realmente me define não é quem eu amo em silêncio, mas as vidas que consigo salvar em voz alta.