A porta bateu com a violência de uma execução. O estalo seco da madeira contra o batente não foi apenas um ruído; foi o som de uma vida sendo partida ao meio. Murilo permaneceu estático no centro da sala, os pés fincados no chão como se tentasse impedir que a própria terra se abrisse sob ele. O silêncio que se seguiu não era paz; era o vácuo deixado por uma explosão.
Ele fechou os olhos, mas a escuridão atrás das pálpebras era pior. Lá, o filme rodava em looping: o rosto de Helena distorcido pelo pavor, a marca vermelha dos seus dedos crescendo na pele alva dela, e o som do soluço que ela engoliu antes de sair. Ele olhou para a própria mão. A palma ainda formigava, uma queimação que subia pelo braço e se alojava direto no esterno, esmagando seus pulmões.
— Traidora... — ele sibilou, mas a palavra saiu sem convicção, como uma oração dita por um ateu desesperado.
Ele caminhou até a janela. Lá fora, o Morro da Coroa pulsava. O rádio de um dos vapores chiava na esquina, motos subiam rasgando o asfalto, e o cheiro de pólvora e comida barata subia com o vento. O império dele continuava intacto, mas dentro daquela bocz, o rei estava nu e sangrando. Murilo sentiu uma náusea súbita.
O cheiro dela — aquele perfume de sabonete de ervas e pele limpa — estava impregnado no ambiente, no sofá, no ar que ele tentava, em vão, respirar. Era um veneno doce que lhe roubava o oxigênio.
Ele voltou para a mesa e pegou o celular. A tela brilhava com a prova do seu inferno. Fotos granuladas, mas nítidas o suficiente para rasgar sua alma: uma mulher que se parecia com ela em um quarto de hotel barato, lençóis revirados, mensagens de texto carregadas de uma luxúria que ele nunca associou à pureza de Helena.
— Por que, Helena? — ele rugiu para as paredes vazias.
— Eu te dei o mundo! Eu matei por você! Eu limpei o sangue das minhas mãos pra poder te tocar sem te sujar!
A raiva, sua velha e única amiga, veio em seu socorro. Ele começou a quebrar as coisas. Primeiro, um relógioque ela deu de presente. Depois, a corrente com o nome dela. Ele queria destruir cada rastro da passagem dela por ali, porque a dor de lembrar era insuportável.
Subiu para casa, no alto do morro, mas, ao entrar no quarto, ele estancou.
A cama estava arrumada com a perfeição que só ela conseguia. O travesseiro ainda guardava a depressão da cabeça dela.
Murilo caiu de joelhos. O "Lúcifer", o homem que os rivais temiam e a polícia respeitava, desmoronou como um castelo de cartas. Ele agarrou o travesseiro dela e o pressionou contra o rosto, aspirando o resto de essência que restava.
O choro veio como uma hemorragia. Não era o choro de um homem triste; era o uivo de um animal ferido de morte. Seus ombros sacudiam violentamente. Ele se lembrou da expressão de Helena quando ele a chamou de "vagabunda". Viu o momento exato em que a luz nos olhos dela se apagou, substituída por um terror gélido. Ele não apenas a expulsou; ele a assassinou por dentro.
— Se for mentira... — ele soluçou, a voz sumindo na fronha úmida. — Se eles armaram pra você e eu... eu fiz isso...
A dúvida era um ácido. Se as fotos fossem montagem, se o informante tivesse mentido, ele tinha acabado de destruir a única coisa sagrada em sua vida de pecados. Ele se encolheu no chão frio, entre o luxo da cobertura e a miséria de sua alma.
Ele começou a destruir tudo. Chutou a cômoda, derrubou os perfumes dela, vendo os frascos caros se quebrarem e o cheiro de flores invadir o quarto de forma sufocante. Ele queria apagar Helena. Ele queria arrancar a existência dela de dentro de sua alma.
Mas então, ele viu. No meio da bagunça, um único fio de cabelo comprido e escuro estava preso no travesseiro dela.
Naquela noite, Murilo morreu. O que se levantou daquele chão, horas depois, tinha olhos de vidro e um coração de pedra. A partir dali, não haveria misericórdia. Se ele estava no inferno, todos queimariam com ele.
Mas, no fundo, a pergunta que o torturava era outra: "E se ela não fez?".
A lembrança do tapa voltou, desta vez como uma lâmina quente cravada em seu coração. Ele viu o olhar de terror dela. Ele não viu culpa. Ele viu a alma de uma mulher sendo assassinada pelo homem que ela amava. Ele percebeu que, naquele momento, ele se tornara exatamente o que jurou nunca ser com ela: um monstro.
Ele se levantou de súbito, a agonia se transformando em uma inquietude maníaca. Ele começou a andar pelo quarto, passando as mãos pelos cabelos, puxando os fios com força.
— Não chora, p***a! — ele rosnou para o espelho, odiando o reflexo do homem destruído que via. — Você é o Lúcifer! Você não sente nada!
Mas o espelho não mentia. Ele sentia tudo. Ele sentia cada átomo de sua existência gritando pelo nome dela. Ele escorregou pela parede até sentar no chão frio, a cabeça encostada no gesso, os olhos fixos no teto escuro enquanto a noite avançava.
Ele poderia mandar seus homens buscarem-na. Ele poderia mandar investigar cada pixel daquelas fotos. Mas seu orgulho, aquela casca dura que o mantinha vivo no mundo do crime, o impedia. Ele preferia sangrar em silêncio a admitir que poderia estar errado. Ele preferia a dor do ódio à humilhação de ter sido enganado pela própria insegurança.