A descida do morro parecia não ter fim.
Helena caminhava sem sentir os pés direito, como se o chão estivesse distante demais do corpo. O rosto ardia onde a mão dele tinha batido. Cada vez que o vento frio tocava a pele, a dor parecia se espalhar mais. Mas nada doía tanto quanto o peito apertado, esmagado por dentro.
Ela chorava em silêncio.
Não queria que ninguém visse. Não queria que ninguém soubesse. Cada lágrima era engolida junto com o nó na garganta. O som dos passos ecoava na rua quase vazia, misturado ao barulho distante da boca funcionando como se nada tivesse acontecido.
Como se ela não tivesse acabado de perder tudo.
— Eu não fiz nada… — sussurrou para si mesma, a voz falhando.
A imagem de Murilo vinha à mente o tempo todo. O olhar duro. A frieza. A forma como ele se recusou a ouvir uma única palavra. Como se ela não tivesse valor nenhum.
O tapa.
Helena levou a mão ao rosto de novo, sentindo a pele quente, sensível. O impacto ainda vibrava dentro dela. Não era só dor física. Era humilhação. Era medo. Era a certeza de que algo tinha sido quebrado para sempre.
As pernas começaram a fraquejar. Ela parou por um instante, apoiando-se em um muro baixo. A respiração vinha curta, descontrolada. O choro ameaçava sair alto demais.
— Calma… — murmurou, tentando se acalmar. — Só… respira…
A mão desceu até a barriga sem que ela percebesse. Um gesto automático, instintivo. Ela franziu a testa, confusa com aquilo, mas não deu importância. Estava quebrada demais para entender qualquer sinal do próprio corpo.
O celular vibrou dentro do bolso da jaqueta.
O susto fez o coração disparar. Por um segundo, Helena pensou que fosse ele. Que Murilo tivesse mudado de ideia. Que tivesse resolvido escutá-la.
Mas não era. O silêncio continuava.
Com dificuldade, ela puxou o celular. A tela rachada refletia o próprio rosto inchado, os olhos vermelhos, o lábio machucado. Ela m*l se reconheceu.
Rolou a lista de contatos devagar, como se cada nome fosse distante demais, até parar em um que ainda parecia seguro.
Ana Paula.
A amiga do curso de enfermagem. A única pessoa que ela conseguia pensar naquele momento.
Helena apertou o botão de ligar com os dedos trêmulos.
Chamou.
Chamou de novo.
— Alô? — a voz do outro lado soou preocupada.
— Ana… — Helena tentou falar, mas a voz saiu fraca, quase um fio. — Eu… eu preciso de ajuda.
— Helena? O que aconteceu? Você tá chorando!
O choro que ela segurava escapou.
— Eu não tenho pra onde ir… — disse, sentando-se no meio-fio da calçada, abraçando os próprios joelhos. — Posso ir pra sua casa?
— Claro! Agora! Onde você tá?
Ela mandou a localização, limpando as lágrimas com a manga da blusa. O corpo tremia inteiro.
O caminho até a casa de Ana pareceu mais longo do que realmente era. Helena caminhava devagar, encolhida, com medo de tudo. Do escuro. Das pessoas. Do próprio pensamento.
Sentia vergonha.
Vergonha de ter sido expulsa. Vergonha de ter apanhado. Vergonha de ainda amar alguém que tinha feito aquilo com ela.
Quando a porta se abriu, a luz forte da sala fez seus olhos arderem ainda mais.
— Meu Deus, Helena! — Ana arregalou os olhos ao vê-la. — O que aconteceu com você?
Helena não conseguiu responder. As pernas falharam, e ela desabou nos braços da amiga, chorando alto, sem conseguir controlar o corpo.
— Ele não me escutou… — repetia, entre soluços. — Ele não quis me escutar…
Ana fechou a porta com o pé e a levou para dentro, com cuidado. Colocou Helena sentada no sofá, trouxe água, gelo, um pano limpo.
— Calma… respira comigo — disse, tentando acalmá-la.
Ana passou o pano gelado no rosto dela, com delicadeza. Quando afastou o cabelo para ver melhor, seu semblante mudou.
— Isso foi um tapa?
Helena abaixou os olhos.
— Foi…
— Quem fez isso com você? — a voz de Ana estava mais dura agora.
Helena demorou alguns segundos para responder. Dizer o nome dele doía quase tanto quanto o tapa.
— Murilo…
Ana engoliu seco.
— Ele te bateu, Helena?
Ela assentiu, as lágrimas voltando fortes.
— Ele achou que eu traí ele… — explicou, a voz falhando. — Usaram fotos falsas… me ameaçaram… e ele acreditou neles. Não deixou eu falar nada.
Ana sentou ao lado dela e segurou suas mãos com firmeza.
— Você vai ficar aqui — disse, sem espaço para discussão. — O tempo que precisar.
Helena tentou sorrir, mas o rosto não obedeceu.
— Eu perdi tudo… — sussurrou. — Eu não tenho mais nada.
Ana a levou até um quarto pequeno, improvisou um colchão no chão, trouxe cobertor. Cada gesto simples parecia um cuidado que Helena não sentia há horas.
— Descansa — disse Ana. — Amanhã a gente pensa no que fazer.
Helena assentiu.
Quando ficou sozinha, o silêncio voltou a pesar. Ela se deitou de lado, abraçando o próprio corpo. O choro veio de novo, silencioso, cansado.
A mão desceu outra vez até a barriga.
Ela franziu a testa.
Uma náusea leve subiu, fazendo-a virar o rosto rápido para o balde ao lado da cama.
Respirou fundo até passar.
— Deve ser nervoso… — murmurou para si mesma.
Fechou os olhos.
Naquela noite, Helena não dormiu direito. Entre um cochilo e outro, acordava assustada, lembrando do olhar dele, do tapa, da porta fechando.
Sem saber que, dentro dela, uma nova vida começava.
E que, a partir daquele momento, ela teria que ser forte sozinha.