MARCOS ELLIOT NARRANDO
O dia estava quente e abafado, ou talvez fosse o meu nervosismo. Quando saí da delegacia, com meu coração batendo de forma acelerada, percebi que realmente era o meu corpo, e não o ambiente. Os olhares curiosos dos meus colegas de trabalho pareciam pesar sobre mim enquanto eu bufava e tentava manter a compostura, mas eu odeio, odeio mesmo quando Belinda Elliot decide se meter em encrenca. Acho que ela é a única coisa com que me importo no mundo, pra falar a verdade. A preocupação com minha pequena Billie, que agora não é tão pequena assim, pesava como uma pedra no meu peito. Minha filha tem aprontado demais.
Ao me aproximar do meu carro, o que era apenas mais uma complicação em um dia que já estava péssimo, me atingiu como um soco no estômago. Meu pneu estava completamente rasgado, provavelmente algum filho da mãe o rasgou como represália. Não seria novidade, afinal, eu sou delegado nessa merda e as pessoas decidem se vingar justamente de mim, e já que não tem acesso diretamente a mim, meu carro geralmente sofre. E aquilo era um sinal de que as coisas não estavam indo bem, e o nervosismo só aumentou. Eu odeio quando as coisas saem do meu controle.
Rapidamente, reentrei na delegacia, desesperadamente procurando uma solução para chegar até Billie o mais rápido possível. Foi então que decidi chamar Ana Luiza, minha colega de trabalho, a única que parecia se importar um pouco e então, chamei-a cautelosamente, sem que ninguém ficasse muito alarmado.
- Ana Luiza, preciso da sua ajuda. Aconteceu uma emergência com a Billie e a droga do pneu do meu carro foi rasgado. - eu disse, com a voz tentando transparecer calma. Uma calma que eu sinceramente não tinha.
Ela imediatamente assentiu e me seguiu até o carro dela.
- O que aconteceu? - Ela disse, assim que entramos no carro. Ela, obviamente, iria dirigindo. - Para onde estamos indo?
- Hospital Santa Mônica. - Ana Luiza pareceu assustada ao me ouvir.
- O que ela tem? - Perguntou, enquanto dirigia o mais rápido que podia.
- Belinda Elliot é simplesmente uma cópia do pai na adolescência e se meteu em uma briga, porque obviamente eu preciso pagar meus pecados em vida também... - Ana Luiza riu baixo ao me ouvir. - Ela levou um soco no rosto e precisou de alguns pontos.
Os olhos de Ana Luiza se encheram de preocupação enquanto ela processava a informação. Eu sabia que podia contar com ela, de verdade. Apesar de ela não saber muito sobre mim, ela parece gostar verdadeiramente de mim. Coitada... Eu fico com pena. Se ela soubesse quem eu sou e o que eu fiz, ela provavelmente me daria um tiro na cara.
- Então, eu vou conhecer sua filha? Acho que sou a primeira pessoa daquela delegacia que vai conhecê-la. - Ela disse.
- Na verdade, o Miguel e o Linhares já conhecem ela. - Ana Luiza me olhou indignada.
- Como eles a conhecem e eu não? - Eu sorri ao ouvir o ciúme.
- Eles são homens, nós fomos beber um dia na minha casa, jogar baralho... E aquela peste entrou pela janela, achando que eu não estava. Mas voltando a falar do pequeno incidente... Minha ex-mulher estava gritando como uma louca enquanto falava com Billie no telefone. Ela está revoltada com a garota, por causa da briga.
O silêncio se instalou no carro enquanto as palavras pesadas pairavam no ar. Ana Luiza finalmente quebrou o silêncio, colocando a mão em meu ombro. Não sei, mas ela pareceu até um pouco chateada por não conhecer minha filha.
Fechei os olhos por um momento e permiti que as memórias me envolvessem como uma onda suave, enquanto Ana Luiza dirigia o carro com maestria. O que me veio na cabeça? O dia em que eu percebi que morreria por Belinda Elliot, minha pequena Billie.
Eu soube depois de quase dois anos que ela era minha filha. Tive um caso com Vanessa, a mãe dela, por dois ou três meses e então, nós seguimos nossas vidas. Vanessa tinha outros parceiros além de mim, e depois que teve Billie, não sabia quem era o pai. Como nós não mantivemos contato, acabou que nos achamos só muito tempo depois. Demorei para entender que era pai... Mas quando entendi, decidi que seria um pai diferente do que eu tive.
[MEMÓRIA DE ELLIOT]
Eu percebi que a amava em um dia daqueles de verão, com o sol lançando seu calor sobre o parquinho, os malditos mosquitos voando e picando tudo que não estivesse usando repelente. Billie, com seus quatro anos de idade naquela época, estava radiante em seu vestido amarelo e seus tênis brancos, seu cabelo escuro como o meu e os olhos azuis brilhando sob os raios de sol. Ela era uma garotinha linda e bagunceira, o "terror da creche", como dizia Vanessa.
Lá estávamos nós, no seu parquinho preferido. Segurei Billie com cuidado, colocando-a delicadamente no balanço que ela mais gostava. Seu sorriso puro e contagiante encheu o ar enquanto eu começava a balançá-la devagar para frente e para trás, mas ela logo pegou impulso sozinha e começou a se empurrar mais e mais para o alto.
- Isso aí, Billie! - Eu disse com um sorriso, contagiado pela felicidade que ela irradiava. Aliás, ela era a única pessoa que me fazia sorrir verdadeiramente.
Billie ria e se empurrava mais. Era um momento de pura alegria compartilhada entre pai e filha, e eu não poderia estar mais feliz. Senti que não merecia aquela bênção, porque afinal, eu era um monstro... Eu havia magoado uma garotinha de dez anos, alguns anos antes. Ela tem lembranças como essa, com seu pai?
No entanto, como a vida costuma nos lembrar e esfregar em nossa cara, a felicidade pode ser efêmera e eu sequer a mereço. Billie decidiu que era hora de explorar outros brinquedos, e, com a empolgação típica de uma criança, saiu do balanço apressadamente, perdendo o equilíbrio e caindo no chão de cimento próximo ao gira-gira.
Meu coração apertou de preocupação enquanto eu corria em direção a ela. Billie estava chorando, seu joelho ralado e sujo. Rapidamente, a peguei nos braços, tentando acalmar seu choro.
- Está tudo bem, meu amor, o papai está aqui. - Eu sussurrava, beijei sua bochecha e verificando o ferimento com calma. Era apenas um joelho ralado, mas ver minha pequena garota chorando mexia comigo. Pelo visto, eu tenho um coração e ele bate verdadeiramente por essa garotinha.
Cuidei do machucado, limpando-o cuidadosamente e aplicando um band-aid. Enquanto fazia isso, uma enxurrada de emoções me inundou: preocupação, amor, e uma profunda sensação de que faria absolutamente qualquer coisa para proteger minha filhinha.
Segurei Billie nos braços, enquanto ela soluçava baixinho.
- Está tudo bem, meu anjo. Papai está aqui para cuidar de você. Sempre estarei. - Afirmei.
Aquela cena permaneceu viva em minha memória, um lembrete constante do amor inabalável que sentia por minha filha. Mesmo naquele momento de dor e lágrimas dela, eu compreendi plenamente o quanto Billie significava para mim e o quanto estava disposto a enfrentar para mantê-la segura e feliz.
[FIM DA MEMÓRIA DE ELLIOT]
- Chegamos. - Ana Luiza disse, e eu desci do carro rapidamente. Entrei no hospital correndo, com pressa. Queria ver minha filha o mais rápido possível e livrá-la da encrenca que arrumou.
- Pois não? - A recepcionista disse, me olhando.
- Estou atrás de Belinda Elliot, ela é minha filha. - Falei. Ela começou a procurar na papelada, o que me irritou. - É a garota de cabelo azul, moça.
- Ah, a garota de cabelo azul? Está na sala de medicação número dois, é só seguir o corredor... Segunda porta a direita. - Ela disse e eu fui rapidamente.
De longe, eu ouvia a voz de Vanessa gritando com ela. Ela parecia bastante revoltada também, respondendo a mãe... Socorro...
- Você quer que eu entre no quarto com você ou prefere que eu espere no carro? - Eu ouvi a voz de Ana Luiza, e aí que percebi que ela estava comigo o tempo todo.
- Pode vir comigo. Só... Não se mete com a Vanessa. Ela é uma barraqueira. Tá ouvindo os gritos? Típicos dela. - Eu afirmei. Ana Luiza concordou, e seguimos.