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PRÓLOGO: A CÉLULA DIVIDIDA E O ESPELHO DE SANGUE
PARTE I: O EXPURGO NO HOSPITAL DO SUBÚRBIO (1999)
A madrugada sobre a Zona Norte do Rio de Janeiro não era apenas escura; era espessa, carregada de uma eletricidade estática que parecia anunciar o fim do mundo. Uma chuva ácida e persistente açoitava os telhados de zinco do Hospital Público, um monstro de concreto descascado que exalava o cheiro metálico de sangue velho, urina e o bafo de desinfetante barato que nunca conseguia mascarar o odor da morte iminente. Pelos corredores de luzes fluorescentes que piscavam em um ritmo epilético, o som dos passos apressados de enfermeiros exaustos misturava-se aos gemidos de dor que vinham de todas as direções. Era um purgatório de azulejos encardidos e macas enferrujadas.
Na sala de parto número três, o cenário era visceral, quase primitivo. Ana Lúcia, uma mulher cuja juventude havia sido devorada pela miséria e pelo vício, estava presa à maca com mãos que cavavam o estofado de napa rasgado, expondo a espuma amarelada. O suor fétido colava seus cabelos ralos na testa pálida, e seus olhos, injetados de sangue e pavor, buscavam um ponto de apoio no teto mofado que parecia estar prestes a desabar sobre ela. Ela não queria aquelas vidas; ela sentia que o que carregava no ventre não era um milagre, mas um fardo pesado demais para uma alma já totalmente quebrada.
— Respira, Ana! Empurra com ódio se for preciso! — gritava a parteira, uma mulher de mãos grossas, unhas curtas e voz que soava como lixa em madeira seca.
Com um urro que pareceu rasgar suas cordas vocais e ecoar pelos corredores vazios, a primeira criança foi expelida para a luz fria e impiedosa da sala. Luna não nasceu; ela emergiu como uma força da natureza. Não houve o choro hesitante ou o lamento frágil de um recém-nascido comum. Luna soltou um grito de comando, um som agudo e cortante que fez os vidros da sala vibrarem e os ouvidos das enfermeiras zumbirem. Seus olhos, de um castanho tão escuro que pareciam buracos negros prontos para engolir a luz, abriram-se imediatamente. Ela não estava confusa ou assustada; ela estava em guarda. Suas mãos minúsculas já estavam fechadas em punhos apertados, e quando a enfermeira tentou segurá-la para limpá-la, a bebê tensionou o corpo pequeno com uma força sobrenatural, como se já rejeitasse qualquer tipo de auxílio ou toque humano.
Mas o calvário de Ana Lúcia estava apenas na metade. Menos de dez minutos depois, uma segunda vida forçou seu caminho através do canal de parto, causando uma dor lancinante que fez a mãe desfalecer por breves segundos. O choro que se seguiu foi o oposto absoluto do primeiro. Era um lamento melódico, uma súplica de fragilidade extrema que parecia pedir perdão por cada milímetro de espaço ocupado naquele mundo hostil. Era Estela. Ela nasceu com os olhos cerrados e a pele tão clara que parecia feita de porcelana fina, tremendo violentamente sob o ar-condicionado gelado e m*l regulado do hospital, buscando desesperadamente o calor de um corpo que já a rejeitava antes mesmo de conhecê-la.
As duas foram colocadas lado a lado no berço de acrílico. O contraste era aterrorizante. Luna, instintiva e predatória, já buscava o calor da irmã apenas para empurrá-la com o ombro, tentando dominar o pequeno espaço disponível. Estela se encolhia, aceitando a submissão e o frio como se fossem sua herança natural.
Ana Lúcia olhou para as duas e sentiu um asco profundo, uma repulsa que vinha das entranhas. Ela não via filhas; via bocas que a consumiriam e mãos que a acorrentariam à pobreza para sempre. Quando a assistente social, uma mulher de olhos de gelo, lábios finos e prancheta na mão, entrou no quarto, o pacto de separação foi selado sem qualquer hesitação.
— Eu não posso com as duas. Me leva a fraca. Me leva essa que não para de tremer — sentenciou Ana Lúcia, apontando o dedo trêmulo para Estela. — Dá ela para quem tem ouro, para quem tem parede rebocada e vida limpa. Ela não sobrevive um dia no meu mundo. Ela é um passarinho de asa quebrada.
— E a outra? — perguntou a mulher, preenchendo os papéis com a frieza de quem lida com mercadoria.
Ana Lúcia encarou Luna. A bebê, de forma perturbadora, sustentou o olhar da mãe com uma frieza que não pertencia ao reino dos recém-nascidos. Não havia amor ali, apenas um reconhecimento mútuo de feras.
— A Luna fica. Ela tem fogo no sangue e veneno nos olhos. Ela vai ser a rainha do lixo se for preciso, mas ela vai mandar. Ela fica comigo.
PARTE II: A ARQUITETURA DA DOCURA E O IMPÉRIO DA CRUELDADE
Vinte e seis anos se passaram, e o abismo entre as irmãs tornou-se um universo intransponível, uma f***a no tecido da realidade que separava o luxo da lama.
Estela cresceu em uma redoma de vidro inquebrável na Zona Sul do Rio de Janeiro. Seus pais adotivos, magnatas do mercado imobiliário e colecionadores de arte, a transformaram em uma joia rara e protegida. Ela vivia cercada por quadros de pintores renascentistas, pianos de cauda de cauda polida e jardins de inverno onde o som mais alto era o tilintar de talheres de prata ou o canto dos pássaros exóticos. Estela tornou-se uma arquiteta de prestígio, conhecida por seus projetos que priorizavam a luz, a transparência e a harmonia. Ela era a personificação da empatia e da meiguice. Chorava ao ler poesias tristes, resgatava animais de rua com uma dedicação quase religiosa e pedia desculpas até para o vento quando ele soprava forte demais contra seu rosto. Ela era doce, ingênua e acreditava sinceramente que o mundo era um lugar onde a bondade sempre vencia. No entanto, em seus sonhos mais profundos e sombrios, ela sempre via um rosto exatamente igual ao seu, mas envolto em chamas, gritos e um cheiro de pólvora que ela nunca deveria ter conhecido. Ela sentia que sua vida era uma mentira bela, uma fachada cara escondendo uma herança de sombras que ela temia encontrar no espelho todas as manhãs.
Enquanto isso, na Maré, Luna construía seu império sobre uma montanha de ossos e traições. Ela nunca soube o que era um abraço ou uma palavra de conforto. Sua mãe, Ana Lúcia, morreu de uma overdose sórdida e solitária em um beco quando Luna tinha apenas dez anos; a menina não chamou a ambulância, não rezou e não derramou uma única lágrima. Ela apenas pegou o dinheiro escondido sob o colchão da mãe, comprou uma pistola usada de um vapor desesperado e começou a sua escalada.
Luna não tinha amigos; tinha súditos. Não tinha amantes; tinha ferramentas. Ela subiu na hierarquia da facção com uma crueldade que fazia os homens mais endurecidos pelo crime tremerem em sua presença. Se um batedor cochilasse no posto, ela não dava advertência; ela ordenava que lhe arrancassem as pálpebras. Se um gerente desviasse um centavo, ela não apenas o matava; ela fazia questão de que a execução fosse um espetáculo de tortura lenta para servir de exemplo pedagógico. Luna não sentia prazer no sofrimento alheio sentir prazer já seria uma forma de emoção humana, e ela se considerava acima disso. Ela era puramente pragmática e sociopata.
Foi nessa escalada de sangue que ela "escolheu" e domesticou o Pivô. Ele era um bruto, um homem de força descomunal, herdeiro do ódio das ruas, adorado pela tropa como um deus da guerra. Luna viu nele o escudo perfeito, o músculo que obedeceria ao seu cérebro. Ela o seduziu com a precisão de uma mestre-enxadrista, dando-lhe o sexo que ele desejava e a estratégia que ele jamais possuiria. Pivô acreditava piamente que Luna o amava, que ela era sua "fiel", sua parceira de vida e de morte. Ele não percebia que, por trás dos beijos gélidos e das promessas sussurradas, Luna o desprezava profundamente. Para ela, Pivô era um cão raivoso que ela mantinha na coleira curta. Ela ria da sua devoção cega e o usava para manter o morro sob controle absoluto enquanto ela gerenciava as rotas internacionais de tráfico e as lavagens de dinheiro em contas que ele nem sabia existir. Luna era a Rainha da Maré, e seu trono era feito de medo, não de lealdade. Ela era c***l, calculista e não amava o Pivô; ela amava o poder que o fuzil dele garantia a ela.