O REENCONTRO DAS ALMAS E O FIM DA CEGUEIRA NARRAÇÃO: ESTELA O silêncio do ateliê era profundo, uma redoma de paz que eu tinha construído entre telas e solventes, quebrado apenas pelo som rítmico e quase hipnótico das cerdas do pincel deslizando sobre a trama da tela. Eu estava mergulhada naquele universo de cores, retocando com uma precisão febril a expressão do Marlon, tentando aprisionar no quadro aquela mistura contraditória de fúria selvagem e proteção absoluta que só ele conseguia ter. Sob o moletom cinza flanelado dele, que exalava aquele cheiro de tabaco e madeira, eu me sentia aquecida, enraizada naquelas paredes que, por um golpe bizarro do destino, tinham se tornado o meu verdadeiro lar. Eu estava tão concentrada no detalhe daquela cicatriz perto do olho dele uma marca que eu

