Pré-visualização gratuita cap 01 apenas um mentira
Kelly
Segunda-feira chegou de novo, e eu tinha que me levantar para ir à escola — mas eu estava completamente destruída de ressaca. Ontem saí com minhas amigas: começamos a noite na praia e acabamos em um barzinho qualquer. Se a minha mãe descobrir, eu estou perdida; ela odeia quando eu bebo. Na verdade, a minha criação é cheia de regras e muito sufocante. Meu pai é dono da Rocinha, então ele sempre exigiu muito da minha mãe, e já dá para imaginar como é: eu não posso fazer nada.
Meus pais se separaram há uns quatro anos. Ele nos tirou do morro e nos colocou em um apartamento na Barra. Meu pai, conhecido como Fantasma, é incrível — um pai maravilhoso, e eu sou completamente apaixonada por ele. A gente se vê todo mês: ele vem até aqui, para a Barra, e fica em outro apartamento, já que minha mãe está namorando de novo. Eu costumava ir ao morro passar o fim de semana com ele, mas quando completei 14 anos, ele não deixou mais eu pisar lá. Hoje, quase não me lembro de como é o lugar.
Levantei depressa, fui até o banheiro do meu quarto, tranquei a porta e liguei o secador de cabelo no quente, direto no pescoço. Meu Deus, me perdoa, mas eu precisava inventar uma mentira bem convincente para não ir à aula hoje. Quando a pele já estava bem quente, me deitei na cama. Em poucos segundos, minha mãe abriu a porta.
— Kelly, você ainda está dormindo? — Ela entrou e puxou a minha coberta.
— Ai, mãe, eu estou doente, para com isso — puxei o cobertor de volta e fiz a maior cara de quem estava sofrendo.
Fiz todo um teatrinho, e ela me olhou, desconfiada.
— O que você tem, Kelly? — Ela tocou a minha testa. — Nossa, você está com febre, filha — disse, já preocupada.
— Acho que comi alguma coisa estragada ontem. Minha barriga está doendo muito — gemi, e ela se sentiu ao meu lado na cama.
— Meu Deus... Você não bebeu, não é?
— Claro que não, mãe. A senhora sabe que eu não gosto de bebida — Me perdoa, Senhor, por mentir assim.
Ela suspirou, me olhou com carinho e se deitou comigo, beijando minha testa e fazendo um cafuné. Era assim sempre que eu realmente ficava doente.
— Tenho que te levar ao médico, vamos?
— Não, mãe, eu só preciso dormir um pouco, juro — respondi rápido, e ela concordou com a cabeça.
— Ai, Jesus... Tenho tanta coisa para resolver hoje no salão, e você fica doente logo agora — levantou-se, já agitada.
Nem comentei nada. Ela tem um salão de beleza grande e muito famoso aqui na Barra. Ela só vai lá para administrar e ver se tudo está correndo bem; foi meu pai quem deu o salão para ela há muitos anos, e ela fez ele crescer sozinha.
Ela saiu do quarto e voltou logo com um remédio — dipirona — e um copo d’água, me obrigando a tomar. Tive que engolir, mesmo achando um gosto horrível.
— Olha só: o Renato não vai trabalhar hoje, eu pedi para ele ficar de olho em você. Se você não melhorar até mais tarde, vamos ao médico, entendeu?
Assenti de novo, mas fiz uma careta só de pensar que o Renato ia ficar em casa. Eu acho ele super estranho. Eles estão juntos há dois anos, ele não mora aqui — meu pai não deixa, de jeito nenhum — mas minha mãe sempre acaba dando um jeito de ele ficar aqui, contrariando tudo o que meu pai diz. Enfim... a mentira funcionou, e agora posso dormir tranquila.
(....)
Fantasma
Hoje é dia de movimento no morro, e está uma loucura. Recebemos duas cargas de uma vez: drogas e armas. Estávamos todos com a cabeça cheia, mas o “menino”, filho do Urso — que é o meu braço direito — fez tudo acontecer exatamente como planejado. O garoto é esperto pra caramba; me lembra muito de mim quando era jovem. Ainda era cedo, e nós estávamos conferindo tudo, vendo se veio tudo certo. Essa parte de conferir é sempre a pior, mas é necessária.
— Chefe, tudo certo. A mercadoria está correta. Agora vamos ver o armamento — veio me avisar o Digão.
— Beleza, deixa tudo anotado direitinho — respondi, e ele saiu.
Ouvi o celular tocar. Quase não atendi, mas quando vi o nome Tainara na tela, peguei o aparelho. Hoje é dia de pagamento da pensão, e essa mulher vive me cobrando as coisas logo cedo, sem paciência. Atendi já irritado.
Ligação iniciada
— Fala, Tainara. O que é que você quer? — perguntei, sem paciência nenhuma.
— Bom dia para você também, Marcos — ela bufou.
— Já falei: o que quer? O dinheiro vai cair na conta daqui a pouco — acendi um cigarro.
— Não estou aqui para cobrar pensão, não. Você sabe muito bem das suas responsabilidades — fez uma pausa, e eu revirei os olhos. — É a Kelly... ela está doente, não foi à escola hoje. — Ela falou com a voz preocupada. Kelly raramente fica doente.
— Como assim? O que ela tem? — perguntei, já ficando preocupado também. O Urso me olhou, percebendo a mudança no meu tom.
— Está com febre. Disse que comeu alguma coisa estragada na rua ontem.
Eu bufei, já sentindo a raiva subir.
— Ela saiu ontem? Eu já avisei mil vezes: quando ela sair, você tem que me avisar, p***a! — falei, alterado. Essa mulher só me enche o saco.
— Ela saiu com as amigas, Marcos! Qual é o problema, afinal?
— O problema é que eu tenho um monte de inimigos querendo a minha cabeça. Se eles acharem que a minha filha é um ponto fraco fácil, vão usar ela contra mim, vão machucar ela, c*****o! — Eu já estava furioso; recebo ameaças todo dia. Bati com força na mesa de madeira do galpão.
— Quando você estiver mais calmo, a gente conversa de novo, seu i****a — e desligou na minha cara.
Ligação encerrada
Essa mulher ainda acha que está certa em tudo... Tirei o fuzil que eu carrego no pescoço, nervoso. Não consigo nem imaginar alguém fazendo m*l à Kelly. Ela é a minha única filha, a única que eu quis ter nessa vida. O mundo de quem comanda o morro não serve para criar família, não serve para ninguém. Minha filha é o meu coração, o meu ponto fraco, a única coisa que realmente importa.
Peguei o celular de novo, queria ligar para ela, saber como ela estava de verdade. Afastei-me dos outros rapazes para falar com ela sozinho; ninguém precisa me ver todo mole e carinhoso falando com a minha menina, senão depois ficam tirando onda com a minha cara.
Ligação iniciada
— Oi, pai! — Ela atendeu depois de alguns segundos, com a voz sonolenta.
— Oi, meu amor. Como você está? Sua mãe me contou que você não está bem — falei, com a voz bem calma e suave.
— Já estou melhor, pai. Não precisa se preocupar, não — respondeu, ainda com voz de sono.
— O papai vai aí na Barra mais tarde, tá? Vou te ver rapidinho.
— Tá bom... Agora eu vou voltar a dormir, ainda é cedo — falou de um jeito manhoso, e eu sorri, fraco, de saudade.
— Te amo, filha.
— Também te amo, pai! — e desligou.
Ligação encerrada
Guardei o celular e voltei para o galpão. Coloquei o fuzil de volta no pescoço e fui procurar o Digão. Ele é o chefe de toda a segurança daqui; coloquei ele nesse cargo há alguns meses, e ele tem feito um trabalho excelente.
— Você vai descer comigo hoje. Você e mais três homens de confiança. Vou até a Barra resolver umas coisas — avisei ele.
— Hoje, chefe? Hoje é dia de recebimento de carga, não é bom a gente sair do morro, fica perigoso — ele alertou.
Dei de ombros, já decidido.
— Por isso mesmo é que eu quero os melhores ao meu lado. Prepara tudo, e mais tarde quero tudo pronto para irmos.
Ele concordou, e eu saí para resolver os outros problemas do dia.
(...)
Kelly
Que droga... a minha mentira foi longe demais, chegou até o meu pai, e isso acabou me deixando preocupada. Levantei depois de um bom tempo, já me sentindo bem melhor da ressaca. Tomei um banho, lavei o cabelo e, quando terminei, deixei ele secar naturalmente. Vesti um vestido leve e fresquinho para ficar em casa.
Senti o estômago roncar forte e fui até a cozinha. Lá estava o Renato, o vagabundo, deitado no sofá da sala assistindo qualquer coisa.
— Tá se sentindo melhor, garota? — perguntou ele, da sala, sem nem se levantar.
— Estou — respondi seca. A gente quase não se fala, e eu gosto assim.
— Você engana direitinho a sua mãe, hein? Que atuação de primeira, p***a.
Revirei os olhos, com nojo. Fiz um sanduíche, ignorando ele completamente. Quando terminei, virei para ir para o quarto.
— Cuida da sua vida, Renato — falei, passando por ele, e bati a porta do meu quarto.
Não sei o que a minha mãe vê nesse homem. O grau de chatice dele é impossível de calcular. Comi o lanche enquanto assistia séries na minha TV, e o dia passou assim, parada no quarto, até que escureceu.
(...)
Acabei cochilando, mas acordei de repente. Tinha alguém me olhando parada ali, bem perto. Levei um susto enorme: era o Renato, parado no meio do meu quarto, me encarando de um jeito esquisito. Franzi a testa, sem entender o que ele estava fazendo ali, sozinho, dentro do meu quarto.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, assustada, me sentando rápido na cama.
— Vim ver se você estava bem. A casa estava toda calada, sem barulho nenhum — ele disse, e sorriu um sorriso falso, que me deu arrepios. Depois, olhou direto para o meu peito, que ficou um pouco aparecido quando me sentei. Puxei a barra do vestido depressa, me cobrindo.
— Você não pode entrar no meu quarto assim, sem bater! — falei, já irritada e assustada, me levantando da cama. — Sai daqui, agora!
Ele continuou me olhando, com um olhar cheio de malícia, e eu já estava morrendo de medo.
— Deixa eu te contar uma coisinha... Você é muito mais gostosa que a sua mãe... Eu sou louco por você, sabia? — Ele foi se aproximando devagar, e eu arregalei os olhos, recuando até bater com as costas na parede, sem ter para onde ir.
— Você está maluco? Sai de perto de mim, seu nojento! — gritei, nervosa.
Ele me segurou forte pelo cabelo com uma das mãos e tentou passar a outra mão por dentro da minha roupa, tentando me tocar. Foi aí que eu comecei a gritar, bem alto, pedindo ajuda, sem parar.