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A VIÚVA DO DONO DO MORRO

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Sinopse

O problema de matar o próprio marido é que ninguém te ensina o que fazer depois do enterro.Valentina não matou. Mas viu quem matou.E o assassino ainda mora dentro da comunidade, usando máscara de melhor amigo.Agora o comando do Morro da Fortaleza passa para Ryan "Magnata" Oliveira — o homem mais temido e mais leal que o antigo chefe já teve. Ele assume o trono jurando encontrar o traidor responsável pela morte do mentor.O que ele não sabe é que divide o território com a única testemunha viva.E que está caindo, devagar e contra a própria vontade, pela mulher que devia estar investigando.Valentina precisa escolher: ficar calada e sobreviver, ou falar a verdade e arriscar tudo — inclusive o homem que começou como suspeita e virou a única coisa que ela tem medo de perder.Porque no Morro da Fortaleza, segredo guardado por tempo demais sempre cobra um preço.E o dela está prestes a vencer.

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Capítulo 1 — O Enterro
POV: Valentina Amarro o último botão do vestido preto e penso que ninguém te prepara pra enterrar um homem por quem você não chorou. O tecido de linho grosso já tá me irritando a pele. Esquenta demais pra essa tarde abafada no Rio. Puxo a aba do botão com força, os dedos escorregando um pouco no suor. Olho pro espelho do quarto da cobertura e vejo a cama de casal atrás de mim, esticada, arrumada do mesmo jeito de sempre. Marcos quase nunca dormia ali. Vivia enfiado em reunião, em baile, em problema do morro. E, quando aparecia, eu já tava deitada na ponta do colchão, dura, contando as horas e respirando baixo pra não incomodar o homem que mandava na minha vida. Minha mãe, Dona Helena, sempre me ensinou que luto pede silêncio. Que a viúva abaixa a cabeça, aperta a boca e deixa o peso da perda assentar. Mas ela nunca me ensinou o que fazer quando o peso não vem. Eu olho pro espelho esperando a dor chegar. O que vem no lugar é um buraco no estômago. Seco. Feio. E eu não sei se isso me assusta ou me alivia. Fui mulher de Marcos por três anos. Nunca teve amor nisso. Teve medo. Teve acordo. Teve a minha mãe do outro lado da linha. Pego a bolsa preta em cima da poltrona, jogo o cabelo pra trás da orelha e puxo o ar até o peito doer. Acabou a desculpa pra ficar aqui em cima. Tenho que descer. Tenho que enterrar o homem que era dono de tudo isso. O cemitério público tá entupido de gente. O morro inteiro desceu de van, de moto, a pé. Não dá pra faltar no enterro do chefe. No morro, ausência num dia desses é ofensa pessoal. O cheiro doce e enjoativo das coroas de flores entra pelo nariz e mistura com suor, perfume barato e o peso de todo mundo ali. Soldado armado. Vapor de olho baixo. Gerente fingindo postura. O sol castiga sem dó, esquentando a pedra dos túmulos antigos em volta. Fico parada alguns passos atrás da cova aberta, de frente pro monte de terra mexida. É o meu lugar. O lugar da viúva decorativa. Silenciosa e submissa, exatamente como o Marcos sempre quis quando a comunidade inteira tava olhando. Observo o teatro ao redor do buraco na terra. Isso aqui não é saudade. É poder. Os gerentes se ajoelham na grama seca, limpam o rosto na camisa, benzem o peito, baixam a cabeça como se o chão fosse salvar todo mundo. Eles não choram pelo homem que morreu. Choram porque a cadeira do topo da Fortaleza ficou vazia. E vácuo de poder na favela chama guerra. Invasão. Facção rival testando fronteira. Sangue nas vielas. Gente correndo. Porta batendo. Mãe puxando filho pra dentro de casa. Todo mundo ali quer saber quem vai dar a última palavra a partir de amanhã. Meus olhos passam pelos rostos conhecidos e param no Léo. Subchefe. Conselheiro. Melhor amigo de infância do Marcos. Ele tá parado mais à frente, perto da minha mãe. O rosto dele tá vermelho, a pele toda marcada de choro. Abraça um vapor novinho, um garoto de uns dezesseis anos que soluça alto. Léo aperta o ombro dele, fala alguma coisa no ouvido, e o menino vai acalmando na hora. Léo sabe fazer isso. Ele fala com morador, com soldado, com mãe desesperada, com criança doente. Resolve briga, banca remédio, resolve cobrança, segura ponta. É o tipo de homem que todo mundo chama de leal sem pensar duas vezes. Meu estômago aperta. Um gosto amargo sobe pela garganta. Engulo seco. Fecho as mãos na frente do vestido preto até sentir a unha entrar na palma. Eles não sabem. Ninguém ali sabe o que eu vi. O tiro volta inteiro na minha cabeça. Aquele estampido seco rasgando a madrugada. Eu tava lá. Escondida no corredor escuro, travada no chão gelado. Vi a porta do escritório abrir. Vi o rosto dele na luz amarela do abajur. Vi a arma firme na mão. Vi o disparo acertar o peito do Marcos sem dar chance nenhuma. Não foi operação surpresa. Não foi facção rival. Foi o Léo. E agora ele tá ali, na beira da cova, chorando alto e posando de irmão enlutado. Se eu abrir a boca, eu não passo de hoje. A palavra da viúva de enfeite contra o homem mais amado do comando não vale nada. A lei do morro cai no meu pescoço antes de o sol descer. — Tá geral no caô, papo reto — Nina murmura do meu lado, sem fazer barulho. Ela tá de regata preta, cabelo puxado pra trás, óculos escuros grandes no rosto, chiclete estalando devagar na boca. Minha melhor amiga é a única pessoa ali que não baixa a cabeça pra encenação. — Olha aquele gerente do branco ali — ela aponta com o queixo, discreta. — O cara vivia reclamando do Marcos. Agora tá se rasgando de chorar. Tudo teatro. Dou um aceno curto, sem tirar os olhos do caixão. Nina percebe meu ombro duro e encosta o braço no meu. Só uma pressão leve. Um aviso simples de que eu não tô sozinha no meio daquele bando de cobra. Quando olho de novo pra frente, o olho escuro do Léo cruza com o meu por cima da madeira do caixão. No mesmo segundo, a máscara dele some. O rosto endurece. O olhar fica vazio. Frio. Seco. Fica quieta no teu canto. A mensagem bate direto no meu peito. Baixo a cabeça na hora, cravando a visão na poeira em cima do meu sapato. O padre termina a reza. A primeira pá de terra pesada bate na tampa do caixão. O som oco atravessa a roda inteira e avisa que a era do Marcos acabou. Os coveiros aceleram. O silêncio da multidão engrossa. Ninguém relaxa. Todo mundo tá olhando pros lados, medindo risco. O respeito no morro dura só até o defunto sumir debaixo da terra de verdade. A cova fecha. Jogam as coroas de flores por cima da terra mexida e o clima muda de vez. Os grupos começam a dispersar rápido. Tem gente descendo o caminho de pedra de volta pro asfalto, indo embora nas motos e nos carros blindados. Ninguém quer ficar dando bobeira com os gerentes todos reunidos num lugar só. — Meus sentimentos, patroa. A gente tá na contenção, qualquer coisa — um soldado com tatuagem no pescoço passa por mim, mão no cabo da arma. Fala baixo e vai embora sem esperar resposta. Respiro fundo. O ar quente não enche o pulmão. Tudo o que eu quero agora é sumir daqui. Descer pra casa da minha mãe, trancar o portão, arrancar essa roupa preta e pensar no que eu preciso fazer pra acordar viva amanhã. Dou um passo pra trás. Viro o corpo devagar em direção à saída do cemitério. É nessa hora que uma mão grande trava meu ombro esquerdo. Firme. Pesada. Sem carinho nenhum. Minha respiração some por um segundo. — Agora você é problema de outra pessoa. A voz grossa raspa baixo no meu ouvido. Eu me viro devagar. É o Ryan.

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