O sol se punha atrás das colinas, tingindo o céu de tons dourados e alaranjados, enquanto Isabela corria pelo vasto jardim da mansão dos Vasconcellos. O vento fresco bagunçava seus cabelos longos e castanhos, mas ela não se importava. Sua risada ecoava pelo gramado, misturando-se com os gritos animados de Caio, que vinha logo atrás dela.
— Você nunca vai me pegar! — ela desafiou, olhando por cima do ombro.
Caio, dois anos mais velho e sempre mais rápido, sorriu de lado.
— Quer apostar?
Antes que Isabela pudesse reagir, sentiu um impacto suave e foi ao chão, Caio caindo ao lado dela na grama macia. Ambos riram, ofegantes, enquanto olhavam para o céu.
— Isso não vale, você sempre ganha — ela resmungou, ainda sorrindo.
— Claro que vale! Você é péssima fugindo — ele provocou, cutucando seu braço.
— Não sou! Eu só… não corro tão rápida.
Caio virou o rosto para ela, os olhos escuros brilhando com diversão.
— Então eu sempre vou correr atrás de você, Isa. Sempre.
Ela riu, mas no fundo sabia que aquilo significava mais do que parecia. Desde que se conheciam, Caio sempre estivera lá. Seu amigo, seu protetor, seu refúgio.
Desde criança, os dois eram inseparáveis. O pai de Isabela era um dos sócios do império dos Vasconcellos, e por isso, ela e a mãe estavam sempre na mansão da família. Enquanto os adultos tratavam de negócios, ela e Caio viviam suas próprias aventuras pelos jardins e corredores imensos.
Ele era seu porto seguro.
E ela, a única capaz de fazê-lo baixar a guarda.
Naquele verão, Isabela e Caio passavam quase todas as tardes juntos. A casa dos Vasconcellos possuía um lago nos fundos, cercado por árvores antigas que pareciam saídas de um conto de fadas. Era ali que se refugiavam, fugindo das obrigações, das aulas particulares e do olhar atento dos adultos.
— Vamos nadar? — Isabela sugeriu, já se livrando dos sapatos.
Caio cruzou os braços, olhando-a com uma expressão que ela já conhecia bem.
— Você sabe que sua mãe vai me matar se souber que eu deixei você entrar na água sozinha.
Ela revirou os olhos.
— Eu não sou tão frágil assim.
— Não, mas é teimosa.
— E você é mandão.
— E você me adora assim.
Isabela tentou disfarçar o sorriso, mas falhou miseravelmente. Ela realmente adorava.
Sem esperar mais, ela entrou na água, estremecendo ao sentir o frio envolver seu corpo.
— Viu? Eu consigo.
Mas, no instante seguinte, seu pé escorregou em uma pedra e ela afundou, sendo tomada pelo desespero da água cobrindo seu rosto.
Foi rápido. Antes que pudesse lutar contra o medo crescente, mãos fortes a puxaram para a superfície.
— Isa! — A voz de Caio soou urgente, e ela piscou para afastar as gotas d'água dos olhos.
Ele a segurava firme contra o peito, o coração batendo forte sob sua pele.
— Você está bem?
Ela assentiu, mas o susto ainda estava estampado em seu rosto.
— Eu… eu escorreguei.
— Você podia ter se afogado! — A voz dele era uma mistura de preocupação e raiva.
— Mas eu não me afoguei — ela murmurou.
Ele apertou o maxilar.
— Porque eu estava aqui.
Os olhos de Isabela se fixaram nos dele. Havia algo ali, algo intenso demais para ser apenas uma amizade infantil.
— Você sempre está.
Caio suspirou e passou os braços ao redor dela em um abraço apertado.
— Sempre estarei, Isa.
E ela acreditou.
Os anos passaram, mas Caio nunca quebrou essa promessa.
Quando um dos garotos da escola tentou puxar o cabelo de Isabela para provocá-la, Caio lhe deu um soco e foi suspenso por dois dias.
— Você não precisava fazer isso — ela disse, depois de encontrá-lo sentado nos degraus da escola.
Ele esfregou os nós dos dedos machucados e deu de ombros.
— Ninguém te machuca enquanto eu estiver por perto.
Quando sua mãe adoeceu, foi Caio quem segurou sua mão no hospital.
— Você não precisa ficar aqui o tempo todo — ela sussurrou.
— Preciso, sim.
Quando ela teve sua primeira decepção amorosa, aos quinze anos, foi nos braços dele que chorou.
— Ele era um i****a, Isa.
— Mas eu gostava dele…
Caio a segurou contra seu peito, passando a mão por seus cabelos.
— Ele não merecia você. Nenhum deles merece.
Ela riu entre as lágrimas.
— Nenhum deles?
Ele ficou em silêncio por um longo tempo antes de murmurar:
— Talvez um dia, alguém prove que eu estou errado.
Mas ele não parecia acreditar nisso.
E, no fundo, Isabela também não.
Porque desde o início, desde os primeiros passos compartilhados, desde as risadas e lágrimas, Caio sempre foi a única certeza em sua vida.
O único que a conhecia de verdade.
O único que importava.
E talvez, só talvez, fosse ali que o amor começava. Muito antes de qualquer um dos dois perceber.
O tempo parecia fluir de maneira diferente quando estavam juntos. Para Isabela, Caio sempre foi mais do que um amigo. Ele era sua fortaleza, o único que realmente a enxergava além do sobrenome e das expectativas da família.
Naquela tarde, após passarem horas explorando a floresta atrás da casa, Isabela e Caio deitaram-se sob uma árvore antiga, observando as folhas dançarem ao vento. Ela virou o rosto para ele, o peito leve e feliz.
— Você acha que um dia vamos ser como os adultos? — perguntou, traçando padrões invisíveis na terra com os dedos.
Caio franziu o cenho.
— Que tipo de adultos?
— Sérios demais. Com tantas regras que esquecemos de ser felizes.
Ele sorriu.
— Se eu me tornar assim, você promete me lembrar de como era ser criança?
Isabela assentiu, sorrindo.
— E você promete que, não importa o que aconteça, nunca vai me deixar sozinha?
Os olhos dele se tornaram intensos, carregados de uma promessa silenciosa.
— Nunca, Isa.
Algumas semanas depois, enquanto brincavam no quintal, um trovão cortou o céu e, em questão de segundos, a chuva desabou.
— Venham para dentro! — uma das empregadas chamou da varanda.
Mas Isabela apenas riu e girou de braços abertos, deixando a água escorrer por sua pele.
— Isa, vamos entrar — Caio insistiu, pegando-a pelo pulso.
Ela puxou a mão e continuou rodopiando, até que um trovão mais forte a fez se sobressaltar. Seu pé escorregou na grama molhada, e antes que pudesse se equilibrar, caiu de joelhos, arranhando a pele.
Caio correu até ela, agachando-se ao seu lado.
— Você se machucou?
Ela franziu o cenho, olhando o joelho ralado, mas antes que pudesse responder, ele já segurava seu rosto com delicadeza.
— Não faz isso, Isa — sua voz era baixa, mas firme.
— Isso o quê?
— Se arriscar. Não gosto quando você se machuca.
O tom protetor fez seu coração aquecer.
— É só um arranhão, Caio.
— Ainda assim, eu não gosto.
Ela sorriu, e ele, sem pensar, abaixou-se e pressionou os lábios sobre o machucado.
— Pronto — disse. — Agora vai sarar mais rápido.
Isabela sentiu algo dentro de si se remexer, um calor desconhecido se espalhando por seu peito.
Ela não sabia o que era aquilo.
Ainda não.
Mas sabia que sempre que Caio estava por perto, o mundo parecia mais seguro.
E que, de alguma forma, ele sempre a protegeria.