Capítulo 3 – A Separação

1297 Palavras
O silêncio naquela noite era mais c***l do que qualquer grito. Isabela sentia o coração pesado no peito, como se estivesse prestes a se partir ao meio. Ela apertava a borda da mala com tanta força que seus dedos doíam, mas a dor física não era nada comparada ao que sentia por dentro. Seu pai havia decidido. Ela iria para o exterior. Sem aviso, sem opção, sem sequer a chance de argumentar. — Isso não é um castigo, Isabela. — A voz fria do senador Antunes ecoava pelo escritório imponente. — É o melhor para o seu futuro. Você precisa de uma educação de excelência, longe de distrações. Distrações. Era assim que ele via Caio. Ela quis gritar, quis dizer que isso não era sobre educação, mas sim sobre controle. Sobre o medo do pai de que ela se prendesse a alguém que não fosse digno, alguém que não fosse da mesma linhagem, do mesmo status. Mas discutir seria inútil. Ela conhecia aquele olhar no rosto dele — um olhar que dizia que não havia escapatória. Ela sairia dali no primeiro voo da manhã. Naquela mesma noite, Caio bateu na porta de seu quarto. Isabela correu para abri-la, sabendo que poderia ser a última vez que o veria por muito tempo. Quando seus olhos se encontraram, ela viu a dor refletida neles, o mesmo sofrimento que consumia seu peito. — Diz que é mentira, Isa — ele pediu, a voz rouca. — Diz que não vai embora. Os lábios dela tremeram. — Eu tentei… mas não tem jeito, Caio. Meu pai já decidiu tudo. Amanhã cedo, eu vou para Londres. Ele balançou a cabeça, descrente. — Você não quer ir, quer? — Não — sussurrou, e as lágrimas finalmente rolaram por seu rosto. Caio deu um passo à frente e segurou seu rosto entre as mãos, o polegar acariciando sua pele molhada. — Então fica. — Eu não posso… Ele fechou os olhos, apertando a mandíbula. — Droga, Isa! Eu devia ter feito alguma coisa antes… Eu devia ter te levado para longe. Ela tocou o peito dele, sentindo o coração disparado. — O que a gente pode fazer contra o meu pai? Ele tem tudo planejado, ele tem poder demais… Caio puxou-a para um abraço apertado. Ela se segurou nele como se fosse a última vez, porque, no fundo, sabia que talvez fosse. Seu cheiro, seu calor, tudo nele era familiar, seguro. Mas, ao mesmo tempo, havia algo de desesperado na forma como seus corpos se encontravam, como se ambos estivessem lutando contra um destino que insistia em testá-los. Ele afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela, e então, sem hesitação, puxou-a para si com firmeza, sua mão segurando a nuca dela, como se quisesse impedi-la de escapar. Seus lábios encontraram os dela em um beijo intenso, faminto, cheio de tudo o que ainda não havia sido dito. Foi o melhor beijo. O tipo de beijo que tira o fôlego, que faz o tempo parar e queimar por dentro. Caio a beijou como se estivesse marcando sua alma, como se estivesse tatuando nela o que palavras jamais conseguiriam expressar. E Isabela correspondeu com a mesma intensidade, deixando-se consumir pelo amor e pelo desejo que pulsavam entre eles. Quando o ar se tornou uma necessidade inegável, ele encostou a testa na dela, os olhos fechados, a respiração entrecortada. — Eu não sei viver sem você, Isa — ele murmurou contra seus cabelos, sua voz rouca de emoção. Ela deslizou as mãos pelo rosto dele, os polegares acariciando sua pele, como se quisesse gravar cada detalhe, cada sensação. — Nem eu sem você — respondeu, a voz carregada de verdade, porque, naquele instante, ela sabia que Caio era sua casa, seu destino, sua eternidade. — Então me promete uma coisa. Ela olhou para ele, tentando gravar cada detalhe de seu rosto. — O quê? — Não importa o que aconteça, não esquece de mim. As lágrimas caíram ainda mais rápido. — Nunca. Ele inclinou-se ligeiramente, os lábios pairando próximos aos dela, o hálito quente misturado ao dela. Por um segundo, parecia que tudo desaparecia — o tempo, a distância que se formaria entre eles, até mesmo o controle do pai dela. Mas então, antes que qualquer um deles se movesse, ouviram passos no corredor. — Isa? A voz do senador congelou os dois. Isabela arregalou os olhos. Se o pai visse Caio ali, tudo ficaria ainda pior. Num impulso desesperado, ela o empurrou para a sacada. — Vai! — Mas Isa… — Por favor! O olhar de dor nos olhos dele foi o último que ela viu antes de ele desaparecer na noite. Quando seu pai entrou no quarto, encontrou apenas a filha sentada na beira da cama, encarando a mala aberta, os olhos cheios de lágrimas. Ele não disse nada. Apenas a observou por um momento antes de dar as costas e sair. Ele já tinha vencido. E Isabela sentiu seu coração se partir. O aeroporto estava lotado quando ela chegou na manhã seguinte. Pessoas corriam apressadas, anúncios ecoavam pelos alto-falantes, mas para Isabela, tudo parecia um borrão distante. A única coisa que importava não estava ali. Ela procurou Caio em meio à multidão, mesmo sabendo que ele não estaria ali. O pai dela garantiu que ele nem sequer se aproximasse da casa naquela manhã. Mas, no fundo, uma parte dela ainda esperava vê-lo surgir, fazer alguma loucura, impedi-la de embarcar. Quando o voo foi chamado, ela respirou fundo e deu um último olhar para trás. Mas ele não estava ali. Caio não veio. E então, com o coração pesado e os olhos cheios de dor, sabela partiu. O avião cortava o céu, deixando para trás a cidade onde Isabela havia crescido, onde havia vivido todos os seus momentos mais felizes… e onde havia deixado seu coração. Ela olhava pela janela, mas tudo era um borrão. Lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto enquanto seus dedos apertavam o braço da poltrona, como se assim pudesse segurar alguma parte de si mesma que parecia estar se despedaçando. Caio não veio. Isso doía mais do que qualquer outra coisa. Ela sabia que seu pai havia feito de tudo para afastá-lo, mas uma parte dela ainda esperava que ele tivesse encontrado uma maneira de se despedir. De lutar por ela. Mas ele não apareceu. Talvez fosse melhor assim. Talvez Caio tivesse entendido que lutar contra algo tão poderoso quanto o senador Antunes era inútil. Mesmo assim, o vazio dentro dela parecia insuportável. Fechou os olhos, tentando se acalmar, mas cada vez que piscava, lembrava do último abraço, do calor das mãos dele em seu rosto, do olhar carregado de promessas que nunca seriam cumpridas. Ela não sabia o que a esperava em Londres. Sabia apenas que não queria estar ali. No Brasil, Caio estava parado na praia deserta onde tantas vezes haviam brincado na infância. O vento bagunçava seus cabelos, mas ele não se importava. O peito doía. Ele queria ter ido ao aeroporto. Queria ter segurado a mão dela e dito para não embarcar. Mas a realidade era c***l. O pai dela tinha feito questão de deixar claro que, se Caio ousasse interferir, sua mãe perderia o emprego, sua irmã perderia a bolsa de estudos e sua vida se tornaria um inferno. O senador não precisava usar palavras diretas. Seu olhar e sua influência eram mais do que suficientes. Então, ele ficou longe. E agora, tudo o que lhe restava era essa sensação amarga de impotência. Ele chutou uma pedra na areia, a frustração fervendo dentro dele. Um dia, ele seria alguém. Um dia, ele teria poder suficiente para nunca mais ser afastado de Isabela. Mas esse dia parecia distante. Por enquanto, ele só podia esperar. E torcer para que ela não o esquecesse. Porque ele nunca esqueceria.
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