Capítulo 6

3157 Palavras
A tarde fora agradável para Daphne. Apesar de estar preocupada com Erik. Ele parecia desconfortável no meio da multidão. Olhava para todos os lados e parecia pálido. Não comeu o sorvete que ela havia comprado para ele e ela acabou tendo de comê-lo sozinha. Não que ela não apreciasse, mas gostaria que ele tivesse se divertido. - Senhor, acredito que é melhor encerrarmos nosso passeio - ela disse, saindo de uma loja de chapéus, na Piccadilly, sem comprar qualquer um. Nada estava do seu agrado - Vou pedir a Antony que deixe o senhor em casa. - Não, de maneira alguma. Não é correto que almoce sozinha com ele - Erik protestou, com o braço enganchado ao dela. - E não seria o certo eu sair com o senhor, sem acompanhante - ela piscou para ele, rindo por dentro. De fato, se fosse o caso de manter o decoro, Daphne teria que ter levado sua criada. Mas, era muito melhor Erik como seu acompanhante do que Amélia. Ela sempre contava tudo o que Daphne fazia para seus irmãos. - Tem razão - ele concordou a contragosto - Mas, o melhor é que eu esteja junto da senhorita. Daphne olhou de soslaio para Erik. Ele parecia tenso. Seus olhos estavam demonstrando todo seu desconforto por estar sendo analisado pelas pessoas nas ruas. Até mesmo um garoto havia apontado para ele, devido a mascara. Ele estava sendo uma grande atração, enquanto andava por Piccadilly. - Tem certeza? - ela perguntou a ele - Estou preocupada com o senhor. Sei que não deve ser fácil andar no meio de tantas pessoas. Se o senhor já passou m*l conosco ontem, no almoço, quem dirá hoje. Está transpirando - Ela havia notado gotículas de suor em sua testa. Apesar de o clima estar agradável, com um vento gelado tocando suas faces. Ele ao ouvir isso, passou a mão sobre a testa, com uma careta de desgosto. Daphne pegou seu lenço dentro da bolsa de contas e ofereceu a ele. - Pode usa-lo, senhor. Ele pegou o lenço, passou sobre sua testa e o guardou no bolso da calça. - Obrigado - ele disse, parecendo constrangido. - Que tal irmos para casa? - ela sugeriu, sentindo pena dele - Vou enviar um bilhete a Antony pedindo desculpas por não pode almoçar com ele. Ele soltou o ar que estava prendendo. - Graças a Deus - ele murmurou. Daphne riu. - Ok, vamos pedir uma carruagem, para chegar mais rápido. Ele assentiu e já se pôs a procurar uma carruagem na rua. Era visível que Erik estava ansioso para ficar em um lugar mais tranquilo e menos movimentado. Ela se perguntou o que tinha acontecido a ele, para ter tanto medo de estar em multidões. Ele parecia arredio e com uma expressão fechada todas as vezes que olhou em sua direção, durante o passeio. Logo embarcaram na carruagem e chegarem em casa. Ele pediu licença, para se retirar e ela foi até seu quarto, para escrever o bilhete cancelando o almoço com Antony, informando que buscaria as impressões do esboço do rosto de Erik até o final do dia. Pensou consigo mesma que poderia ter sido feito uma fotografia dele. Mas, já era muito tarde para pensar nisso. Mandou o bilhete por um lacaio e trocou suas roupas de passeio com a ajuda da sua criada, Amélia. Colocou um vestido de cor verde água e saiu do quarto, esperando encontrar Erik, mas segundo, seu irmão Charles, ele estava com dor de cabeça e preferiu almoçar no quarto. Daphne ficou desanimada. Acreditou tanto que estivessem progredindo na relação deles, mas pelo visto, Erik era um cavalheiro arisco. - Charles, você está bem? – ela perguntou, enquanto almoçavam na sala de jantar menor da mansão Derby. Tinha apenas doze lugares. Ele a fitou, do outro lado da mesa, com uma expressão desanimada. Aquela tarde, somente ela e Charles estavam na mansão. Sua prima Louise estava com tia Antonietta, em sua residência, não tão distante da deles, em Mayfair e seu irmão Jonathan estava na câmara dos Lordes. - Quer a verdade? – ele perguntou. - Somente a verdade, Charles – ela sorriu, o encorajando. - Bom, parece que Flora não me quer como seu noivo – ele disse, com tristeza. Daphne fez uma careta. Sua prima Flora, filha do visconde Severn tinha apenas dezesseis anos. Era injusto que ela tivesse que se casar com Charles, que contava com a idade de vinte e oito anos. Era o dobro da idade da prima. Ela deixou transparecer a careta de estranhamento. E ele soltou um longo suspiro. - Não vai me dar um sermão, vai? Eu gosto dela, Daph. E ela não é mais uma criança – ele argumentou - Já é uma dama. Quando ela completar dezessete anos, vai debutar e eu já quero ter o nosso noivado anunciado depois do seu debute. - Por Deus, Charles...- Daphne disse, enjoada – Isso tudo é sórdido. Nosso tio colocou ideias estranhas nessa sua cabeça? Ele a fulminou com o olhar. - O visconde de Severn apenas me disse que ela precisava de um noivo. E nada mais adequado que o primo – ele disse, entredentes – E eu não sou um monstro. Eu a amo muito. Daphne estava atordoada. Era comum que jovens da idade de dezessete anos se casassem com homens do dobro da idade delas, ou o triplo. Já viu um casamento entre o duque muito velho, beirando aos setenta anos, com uma jovenzinha de dezoito anos. Ela teve tanta pena daquela dama. - Charles, espere mais um pouco para fazer isso. Deixe que ela aproveite seu debute. E se ela se apaixonar por outro? Ele franziu os lábios, segurando o garfo com força. - Eu não sei se posso suportar isso. Eu acho que matarei meu rival – ele murmurou. Daphne arregalou os olhos, assustada. Seu irmão sempre fora calma, plácido. Não tinha o temperamento de Jonathan. Ele era libertino, se envolvendo com mulheres casadas e sendo um costumas jogador de cartas. E fazer muitas apostas em cavalos. Para sorte de todos, ele era tão bom com apostas, que nunca perdeu a fortuna, nem precisou vender a própria irmã para quitar qualquer divida. E ver Charles daquela maneira, em estado frenético, apaixonado, era novo para ela. Charles era o pilar da família. O irmão que era mais racional e correto. Se ele perdesse a razão, quem a controlaria e Jonathan? Não que ela fosse uma devassa. Estava mais para sufragista. - Pare de dizer bobagens – ela ralhou. Ele bufou, largando o garfo na mesa e se levantando da cadeira. - Eu preciso de ar – ele disse, se afastando. Daphne fez o mesmo que irmão e o seguiu. - Charles, por favor – ela pediu, seguindo-o porta a fora. Passaram pelo corredor, decorado por quadros e afrescos – Não faça isso. Não faça nenhuma besteira. - É o que estou tentando fazer. Acredito que irei para o campo – ele parou de andar – Vira comigo? - Perdão? – ela exclamou. - Eu perguntei se quer ir comigo para o campo – ele repetiu a pergunta, em tom exasperado – Preciso pensar. Eu...preciso confidenciar um segredo. E isso vem me matando. Eu já perdi Flora, infelizmente. - Como assim, perdeu Flora? – Daphne perguntou – Onde nossa prima está? Ele respirou fundo. - Eu não sei...eu não...- ele passou a mão pelos cabelos castanhos. Era o único dos irmãos que tinha cabelos mais claros e olhos verdes água – Eu sinceramente espero que esteja com o advogado do pai dela. - Advogado? – ela perguntou, atônita – O que está acontecendo? Ele mordeu os lábios, desviando o olhar. - Ela disse que estava apaixonada por Martim Leblanc – ele respondeu – O advogado do pai dela. E acredito que eles tenham fugido para França. Pois, ele veio de lá. Daphne ficou pasma. Seria o fim da reputação da sua prima, com certeza. E Daphne não fazia ideia de quem era esse advogado. E se ela fosse apenas usada e descartada por ele, sozinha na França? Por Deus. O que seria de Flora? - Está pensando o mesmo que eu? – ele perguntou, com um olhar triste. - Eu não sei o que você está pensando, irmão. Mas, eu estou pensando que Flora será desonrada e largada em um país que m*l conhece. m*l nós sabemos falar francês – ela disse, mordendo os lábios – Precisamos resgata-la. - Resgatar? – ele perguntou e piscou algumas vezes. Depois, sorriu – Tem razão. Vamos atrás deles. Vou perguntar ao tio para onde ele acha que seu advogado foi de fato. Nós vamos encontrar Flora. E quem sabe, ela me agradeça por salvar sua reputação – ele se aproximou de Daphne, abraçando-a e beijando suas bochechas, pelo menos, três vezes. Ela sorriu – Você é brilhante, irmã. Simplesmente, brilhante. - Se continuar falando isso, vou ficar muito convencida – ela disse, rindo, beijando ele de volta na testa – Vai ficar tudo bem, Charles. Eu tenho certeza – ela tocou a bochecha dele. Ele puxou sua mão e depositou um beijo em seu dorso nu. - Eu acredito em você. É nossa estrela da sorte – ele disse e se afastou dela – Agora, eu vou até a residência do nosso tio. Voltarei em breve. - Está bem. Ficarei aqui. E como faremos com o senhor Erik? – ela perguntou, pensando nele, sozinho naquela residência. Como encontrariam a família dele? - Bom, já fez o retrato dele? – Charles perguntou. Ela assentiu - Vamos pedir aos empregados que espalhem o seu retrato por Londres. Aonde conseguirem deixar. E vamos até a polícia, deixar um retrato dele e comunicar seu desparecimento. Já devíamos ter feito isso, quando ele chegou. - É verdade – ela disse, batendo os dedos nos lábios – Vou providenciar isso. Charles negou com a cabeça. - Eu vou. Onde você pediu para imprimir o retrato dele? – ele perguntou. Ela corou – Foi na editora Harrison, não foi? - Sim – ela respondeu. - Sabe que o senhor Morgenstein é apaixonado por você, não sabe? – Charles disse. Ela assentiu – Então, por que faz isso com ele? Sabe que ele não seria o par ideal para você. - Como se isso importasse. Não quero me casar com um conde ou visconde. Não me importo com nada disso – Mas, ela também não queria Antony. Gostava dele como amiga e ele a tratava como uma amiga, apesar de flertar. - Eu não veria problema. Mas, as más línguas vão dizer muito sobre isso. A filha de um conde se casando com um simples burguês – ele balançou a cabeça – Bom, sabe o que faz irmã. Se gosta dele e se ele pedir a minha benção, pode se casar com ele. - Ele precisa pedir a benção de Jonathan, Charles – ela disse, revirando os olhos. Ele sorriu – Mas, quem tem mais firmeza na família e você, é claro. - Eu sempre tive – ele piscou para ela – Agora, irei partir irmã. Vou até a residência do visconde Severn e pegar o retrato de Erik. Você, fique em casa, me aguardando. Ele a fitou em advertência. - Como se eu tivesse outro lugar para ir – ela disse, bufando. - Eu sei que tem. Suas amigas sufragistas adoram tomar chá e bolar planos mirabolantes para causar tumulto em Westminster – ele disse, em um tom severo, mas deixou um sorrisinho escapar – E não precisamos de mais problema agora. Se preocupe em entreter nosso convidado. - Mas, o senhor Erik não quer companhia – ela disse amuada. - Então, vá ler um livro – ele sugeriu – Agora, eu vou. Até mais tarde. Ele se virou e seguiu pelo corredor. Daphne rumou para a sala de música. Iria treinar no piano, para não enlouquecer. Mas, a sala já estava ocupada por Erik. Ele estava com o violino em mãos, prestes a tocar, com arco e em uma mão e o violino apoiado no queixo. Ele a fitou, parecendo desconsertado em vê-la na soleira da porta. - Perdão – ele disse, baixando o instrumento, para o lado dos quadris – Eu deveria ter pedido permissão para utilizar a sala...eu... - Está tudo bem, senhor – ela disse, sorrindo e entrando na sala. Ele parecia desconfortável com a presença dela. E isso não passou despercebido por ela – O senhor gostaria de me acompanhar? Tocarei o piano e o senhor, o violino. - Parece uma ótima ideia – ele disse, sorrindo. Ela sentou-se na banqueta e abriu o tampo do piano. Tocou um dó, com o dedo indicador, depois começou a tocar uma sonata n.º 14, Op. 27 n.º 2, de Beethoven. Erik a acompanhou com o violino e o dueto ficou harmonizado. Parecia certo que eles se encaixavam perfeitamente, unidos pela música. E isso preenchia o peito de Daphne, que estava encantada por tocar ao lado dele. Erik não errava uma nota sequer, enquanto que Daphne às vezes errava. Ela não era tão boa assim, mas ele não havia parado, para critica-la. A música findou depois do que pareceram horas. Havia algo no ar, um sentimento de estar no lugar certo. E Daphne se sentia completa e preenchida. Ela olhou para ele, que parecia absorto, ainda segurando o violino, recostado no queixo. Ele piscou algumas vezes e baixou o instrumento. - Eu sinceramente não imaginava que saberia tocar assim – ele murmurou. - Lembrou-se de algo? – ela perguntou. - Lembrei-me de estar em um palco, mas eu não tocava. Eu apenas gesticulava, como o maestro da orquestra. E o teatro era lindo. Em tons vermelhos e dourados. Era tudo tão...- ele ficou absorto, parecendo deslumbrado e olhou para Daphne – Eu não sei como explicar, senhorita. Eu sabia que aquele teatro era minha casa. Era onde eu sentia que minha alma deveria repousar. Era onde eu sonhava as mais belas melodias. E sinto que sempre ao anoitecer, eu encantava o publico. Eu era o mestre da música, mas ela quem acabou me comandando agora. O sentimento de estar sendo envolvido, enquanto tocava com a senhorita foi muito mais forte. Senti-me cativo da nossa melodia. Ela respirou profundamente, tocada pelo discurso dele. Ele falava da música como se fosse um pedaço de sua alma. E com certeza, através dela, ele iria encontrar suas memórias perdidas. - O senhor é magnifico – ela deixou escapar, ruborizando, assim como ele – Quero dizer, com o violino. E com certeza que com a prática musical, ira encontrar suas memórias de volta. Ele assentiu. - Bom, aproveitando que estou aqui, quero avisar que vamos partir para França em breve. Eu e Charles – ela disse. - Vão? – ele perguntou um pouco desconsertado – Mas, para o que? Se me permitir saber. - É claro. Na verdade, vamos atrás de uma prima. Ela está em apuros – Daphne respondeu, pensando em como ajudar Flora e Charles. Se o senhor Leblanc fosse bom para ela, não haveria problema algum, mas Charles sofreria com isso, com toda certeza. - Que tipo de situação ela se colocou? – ele perguntou – Se vão partir, posso ir junto. Pode ser perigoso. Ela sorriu pela oferta dele. - Acredito que seja melhor que fique com Jonathan – ela disse – Mas, agradeço sua ajuda. Na verdade, minha prima fugiu com o advogado do meu tio, visconde Severn. E precisamos resgata-la, antes que sua reputação seja destruída. - Entendo – ele disse – Mas, gostaria de ser útil. Não sei se suportarei ficar sem fazer nada. - Se deseja ir conosco, então está convidado – ela disse, muito alegre por ter a presença dele, desde que ele não fosse tentar controlar seus passos, é claro. - Então, quando partiremos? – ele perguntou, se afastando e colocando o violino em um pedestal, recostado a parede. - Vamos partir em breve. Primeiro vamos deixar seu retrato com a polícia e espalhar por Londres – ela disse – Assim, sua família pode encontra-lo. Ele assentiu. Então, Daphne o convidou para almoçar e dessa vez, ele não recusou. Aquela tarde, enquanto eles aguardavam o retorno de Charles, conversaram sobre música e o quanto ele se lembrava de partituras musicais. * Paris, 1881, primavera, Hotel Savoy - Recebemos uma noticia de Londres – Robert comentou com Anne e Henry – Meu detetive soube por intermédio de um colega que um homem mascarado estava caminhando com a senhorita Daphne Harris, em Hyde Park. - E o que isso diz respeito a nós? – Henry perguntou, franzindo o cenho. - Ora, não é óbvio? Será que não está pensando primo? – Robert zombou. - Robert, modere suas provocações – lady Klyne disse, com um olhar severo sentada em um divã. - Não se preocupe, milady – Henry disse, sorrindo, sem parecer nem um pouco irritado com o primo – Robert gosta de provocações e eu sei muito bem o gênio que meu primo tem. - Ora, vamos Robert, diga logo o que tem a dizer – Anne disse irritada – Estou cansada dessa procura. Quero meu filho de volta! – Henry a abraçou, beijando sua cabeça, vendo que sua esposa estava tremula e nervosa. - Está bem – Robert disse – Eu acredito que possa ser Erik. Eu pedi para meu detetive ir para Londres, verificar a pista, enquanto permanecemos aqui. - Por que acredita que seja ele? – Anne perguntou se desvencilhando dos braços do marido, ficando frente a frente do Robert – Precisamos ir para lá, agora! - Eu temo que seria um desperdício de viagem, se fizermos isso, Anne – ele explicou, pensando em tocar sem ombro, mas baixou a mão. Ainda não sabia como se portar com ela ou com Henry, apesar de anos que ele causou problemas ao seu primo e a ela. Afinal, Anne fora sua amante por alguns dias e ele tentou atrapalhar o casal. - Mas, por que um cavalheiro iria se sujeitar ao ridículo se usar uma mascara? Essa atitude com certeza é para esconder alguma cicatriz. Pode ser ele. Ele usava para agradar sua noiva, às vezes – Anne disse, andando de um lado ao outro do cômodo. - Anne tem razão. Pode ser que Erik esteja lá – Henry disse, concordando com a esposa. - Então, devemos ir agora – Anne disse exasperada – Vamos voltar Henry. Robert balançou a cabeça. Não concordava com atitudes precipitadas. - Acredito que precisamos ficar. Ou eu ficarei esperando – ele argumentou. - Fique se quiser, eu não me importo – Anne disse, indo para fora do cômodo, intempestiva. Robert deu de ombros. Ela tinha o direito de ficar brava, afinal era mãe de Erik. Mas, Robert não iria agir por impulso. Ficaria na França e deixaria que Henry e Anne partissem em busca do filho. Quem sabe, não desfrutasse mais da companhia da sua esposa? Afinal, precisavam de uma segunda lua de mel.
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