Prisão com Vista para o Passado

1043 Palavras
Lyana não conseguia encarar Sebastião por muito tempo. A raiva fervia em seu peito, misturada com o medo e o ressentimento que cultivou durante cinco longos anos. — Eu vim aqui pelo divórcio — disse, a voz começando firme mas tremendo no fim. — E não vou embora sem ele. Sebastião serviu uma bebida sem se abalar, como se ela tivesse apenas pedido um café. Com a elegância fria de um homem acostumado a controlar tudo ao redor, ofereceu o copo a Lyana. — E se eu não aceitar? — disse, com o mesmo tom sereno que usaria para comentar o clima. Lyana quase deixou o copo cair. O sangue subiu-lhe ao rosto, o peito arfando de raiva. — Como você ousa, Sebastião? — gritou. — Depois do inferno que foi esse maldito casamento? Depois de tudo o que tive que passar por sua culpa? Ele a encarava com aquele olhar distante, calculado, como se ela estivesse exagerando, como se fosse louca. Aquilo a irritava mais do que qualquer palavra dura. — Pra quê quer o divórcio? — perguntou ele, encostando-se no encosto do sofá como se assistisse a um espetáculo. — Pretende se casar com outro homem? — Sim! E se for? — retrucou, o queixo erguido em desafio. — O que você tem a ver com isso? Não sou sua mulher há cinco anos. A vida anda pra todo mundo. Ou você já esqueceu que nem esperou eu sair pela porta e já estava com outra v***a? Sebastião se levantou de forma brusca, os olhos faiscando. — Do que você está falando? — Sua voz agora carregava raiva. — Você não é louca de estar com outro homem. Mas eu sei que não... Eu sei que seu corpo e sua mente sempre foram meus. Ela deu um passo para trás, confusa. — Como você sabe? Ele não respondeu de imediato. Apenas a olhou como quem carrega uma verdade que muda tudo. Naquele silêncio cortante, Lyana entendeu. — Mamãe... papai... não acredito... Sebastião apenas concordou com a cabeça. — Durante cinco anos, te dei liberdade — disse ele, como quem dá um presente. — Mas seus pais me prometeram que você voltaria. Que só precisava estudar, crescer... e que voltaria pra mim. Porque você sempre foi minha, Lyana. Sempre será. Ela cambaleou para trás, jogando-se no sofá como se tivesse levado um soco no estômago. A traição era mais profunda do que pensava. Seus próprios pais. Tinham mentido. Negociado com ele como se ela fosse propriedade. — Eu não sou sua, seu maldito! — gritou, tentando conter as lágrimas. — Eu te dei espaço. Você era nova, inocente. Eu esperei. Agora acabou. É hora de voltar ao que deveria ser desde o início. Sebastião se aproximou e a puxou com força pelo braço. Lyana tentou se soltar, empurrou o peito dele com ambas as mãos, mas ele era mais forte. — Me solta! — gritou, se debatendo. Mas ele apenas acariciou o rosto dela com a mão livre, os olhos fixos nos dela, o rosto perigosamente perto. — Não me toque! — ela gritou, virando o rosto. O cheiro dele, o toque... tudo nela gritava por liberdade, mas uma parte suja da memória ainda se lembrava do que já sentira por aquele homem. Isso a fazia odiá-lo ainda mais. Ela conseguiu empurrá-lo com força suficiente para se afastar. Ele, no entanto, apenas sorriu de canto. — A partir de hoje, esta é sua casa, Lyana. Seu lar. E nem pense em fugir. Se tentar, eu vou atrás de você até o inferno e te trago de volta arrastada. E então ele a deixou sozinha, atordoada. A noite caiu, e o velho mordomo, sempre discreto, veio buscá-la para mostrar o quarto. Ela o seguiu sem dizer uma palavra, mas quando a porta se abriu, sentiu o sangue ferver. Era o antigo quarto de casal. — Não. Aqui não é meu quarto. Vou para o de hóspedes — disse ela, virando as costas. Mas então a porta do banheiro se abriu, e Sebastião saiu, coberto apenas por uma toalha enrolada na cintura. Gotas de água desciam pelo seu peito, escorrendo até o cós da toalha. Ele tinha o mesmo corpo esculpido de antes, talvez até mais forte agora. — Aqui é seu quarto, querida esposa — disse com ironia. Lyana sentiu o corpo queimar de raiva e constrangimento. — Você está louco, Sebastião? Eu não sou sua mulher! Estamos separados há cinco anos! Para com essa loucura! Ela girou nos calcanhares e saiu do quarto como se estivesse pegando fogo, trancando-se no quarto de hóspedes. Finalmente sozinha, sentiu o peso do dia cair sobre os ombros. A única coisa que desejava naquele momento era um banho quente, lavar o suor, a poeira e o toque indesejado daquele homem. Mas assim que entrou no chuveiro, memórias indesejadas a atingiram como um raio. A água quente descendo pelas costas, o vapor... e o pensamento, maldito pensamento, de como era quando fazia amor com Sebastião debaixo d’água. A maneira como ele a segurava, os beijos ardentes, o calor. Ela apertou os olhos com força e se xingou mentalmente. — Estou maluca. Como posso pensar nesse maldito? Saiu do banho e procurou uma roupa. Com a bagagem limitada da pequena maleta, tudo o que tinha era um pijama simples. Vestiu-se e se jogou na cama. O sono veio rápido, mas os sonhos não deram descanso. Imagens dele invadiram sua mente, lembranças proibidas, sensações que ela achava enterradas. Na manhã seguinte, acordou exausta. Vestiu a mesma roupa do dia anterior e desceu para o café. Queria terminar aquilo. Queria que Sebastião assinasse logo os malditos papéis. Ele a esperava na sala de jantar, impecável em sua roupa de negócios, como se aquela fosse apenas mais uma manhã comum na vinícola. — Bom dia, querida — disse, com um sorriso debochado. Lyana parou, os olhos faiscando. — Não me chame de querida. Pra você, é Lyana. Ele riu, saboreando o momento. — Mas quando eu te possuía, você gritava no meu ouvido meu amor. — Cale a boca! — ela gritou, envergonhada e furiosa. — Isso foi no passado! A única coisa que desejo de você é o divórcio. E então o silêncio foi quebrado pela chegada de uma mulher.
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