Tendo chegado em casa e na ausência do seu amado, Matilde sentou e tentou evitar que os pensamentos lhe abrissem uma lacuna que não pudesse se fechar mais, se transformando numa ferida diabética no último estágio do suspiro. Os problemas iam crescendo, mas ela tinha uma parte bem positiva, pois sabia como lidar com essas situações, coisa que para Joaquim era bem difícil, homem que as vezes acabava ficando fora do controle.
Sentado na sala, pôs no seu copo algum tipo de uísque para relaxar, bebia tempos em tempos olhando para o teto como se estivesse a buscar as soluções coladas no teto.
As suas amigas eram raras e as vezes ela mesma é que era rara às mesmas que antes conversavam e se esqueciam dos problemas facilmente. Todavia, havia uma explicação para aquela situação, mas ainda era necessário reformular da melhor forma.
Mais uma vez ela direcionou o copo à sua boca e deixando as lembranças e imaginação sofrendo uma aglutinação como uma forma de escapar da realidade e proteger a sua mente.
A cada gole, menos pensamentos rodavam na sua mente e já se preparava para mandar uma mensagem carinhosa para o marido. Ela era assim, não conseguia ficar muito tempo sem mandar mensagem de texto ou ligar para o seu amado, mesmo que fosse depois de uma grande briga de casal.
Ela não gostava de ouvir a sua mente falando fora do seu controle, pois ela era bem perfeccionista e tinha a dura certeza de acreditar que tudo ela tem que ter controle.
Levantou da sala e se dirigiu até ao quarto para poder se sentir ainda mais a vontade, sempre era assim, ela se sentia melhor quando estivesse no quarto, sendo na presença ou ausência do marido e a cor que era predominante no espaço lindo era branco.
Aquele lugar para ela as vezes era um maldito monstro, mesmo não tendo culpa, pois por lá foi onde tentou por diversas vezes engravidar. O marido gostava dali e só tinha na mente a verdade de que o sexo só pode ser feito no quarto, no entanto para Matilde era bem diferente, pois ela era bem ousada.
Chegou no quarto e sentou na cama, num silêncio e imaginando uma criança ali brincando, uma menina, que tinha o imenso desejo de lhe dar o nome, Jennifer, no entanto infelizmente era bem difícil engravidar. Elevou o seu rosto para o teto do quarto e de imediato de uma forma repentina o seu celular começou a tocar. Antes de levantar para levar o seu telefone que havia deixado numa das mesinhas no quarto, respirou fundo.
Pegou o celular e viu que na verdade na era uma chamada, mas sim uma mensagem de texto. Ela esperara que fosse uma chamada do marido ou que fosse uma ligação do mesmo, porém não era. Havia se esquecido que não configurara aquele toque para ligações, mas fizera isso para chamadas.
No silêncio leu a mensagem e esticou-se o corpo num tédio que ela sentia que tinha que eliminar numa urgência. Visualizou a imagem do seu marido da sua mente e sorriu com um sorriso embriagado para ninguém. Depois da sua leitura decidiu mandar uma mensagem de texto para seu marido que passava a vida ocupado com o seu trabalho, que fazia de coração mesmo que as vezes voltasse estranho e tinha pesadelos que lhe faziam gritar e despertar a esposa num susto.
Trocaram mensagens por alguns minutos até que Matilde recebeu uma chamada de uma amiga sua, coisa que lhe tirou do tédio, pois era para sair e espairecer um pouco com as suas amigas. Fazia muito tempo que ela não saía com elas e fazer isso agora, era a coisa certa para colocar a conversa em dia e se divertir.
Saiu de casa, no entanto não enviara nenhuma mensagem avisando ao marido.
Já era noite e ela chegou numa luxuosa casa, antes de entrar efetuou uma ligação que foi com sucesso atendida. Conversou com a pessoa do outro lado da linha.
— Amiga, entra logo, ai fora faz muito frio. — uma voz linda disse.
No interior da enorme casa havia muitas mulheres, outras sentadas e outras preparando o jantar para todas elas.
Todas eram pessoas que se cruzaram uma vez e se conheceram, a maioria era de pessoas com quais estudou, Matilde ficou impressionada com tanta gente que não mais imaginava que voltaria a se encontrar para a velha conversa de horas e horas.
Os detalhes da casa, da parte interior eram de impressionar.
— Pode sentar aqui. Sinta-se em casa. — disse a voz linda de uma mulher alta e muito magra como se não comesse nada na vida.
As mesas estavam bem recheadas, com refrigerantes e bebidas alcoólicas para matar a sede e colocar a conversa em dia. Num dos cantos da casa uma senhora estava sentada com uma garrafa de álcool e bebia com o seu olhar perdido no teto.
Matilde conhecia a senhora e as duas já tiveram uns encontros alegres onde os temas eram os mais polêmicos sobre o gênero masculino.
A mulher do médico ao ver aquela senhora caminhou lentamente na sua direção, sem que esta percebesse e sorriu ao sentar ao lado dela.
— Oi, Wilma, tudo bem? — disse ao sentar mesmo vendo e sabendo que não se mostrava estar numa pele de uma pessoa que estivesse bem emocionalmente.
Teve como resposta o silêncio, mas isso não foi suficiente para lhe fazer desistir de interagir com a senhora ali. Repetiu:
— Oi, Wilma, tudo bem? — agora as suas palavras mesmo sendo as mesmas e na mesma sequência surtiram efeito, pois ela ousou em elevar um pouco a sua voz quando colocou a questão.
A senhora Wilma não respondera porque ainda estava perdida nos seus pensamentos tendo como companhia a sua garrafa de álcool. As suas feições eram de uma pessoa com mais ou menos 40 anos de idade.
Respirou fundo e respondeu:
— Oi, Matilde. Eu... — disse e em seguida hesitou para completar a pergunta assim dando um gole no gargalo da sua garrafa. — não gostaria de falar sobre isso agora.
– Eu entendo claramente que a senhora não queira falar sobre isso, mas vejo pela sua cara que a senhora precisa desabafar para poder se sentir bem consigo mesma. – Matilde disse para outra tendo que se aproximar dela para melhor ouvir, pois o som da música tocada era alta que chegava a fazer o coração vibrar em cada subida e descida rítmica.
A mulher recebeu as palavras no silêncio bebendo o seu álcool ainda com o seu olhar perdido no futuro de muitos problemas por resolver, na verdade não eram muitos, mas da forma como encarava aquele problema fazia com que parecesse muitos problemas em um, no formato de uma legião num corpo humano.
– Vai ficar no silêncio? Levanta e vamos nos divertir, a gente merece. – Matilde disse e tinha razão, ali não era um lugar para fazer uma outra coisa além de se divertir e tentar esquecer os problemas.
Ela tentou pegar a mão da senhora Wilma para as dois dançarem na música que era contagiante e esquecer o turbilhão de problemas que não cessavam quando a mente se concentrava neles. A senhora esquivou e quase deixava a sua garrafa de álcool cair como se fosse a única coisa que conseguiria lhe trazer um sorriso.
– Você não poderia ter vindo, precisa de um momento sozinha. Não sei qual é o problema que está enfrentando, mas desse jeito não vai conseguir resolver. Vai, levanta para fazer uma outra coisa, ou levanta para a gente ir para casa. – Matilde disse, mas a outra continuou sentada sem nada dizer.
Foi uma mulher até perto das duas para saber o que estava acontecendo por conta do movimento estranho que estava havendo entre as duas que chegou a fazer algumas pessoas pensarem que estivessem a brigar, enquanto nada disso estava acontecendo.
– Está tudo bem aqui? – ela perguntou.
Era uma mulher alta e gorda e andava com dificuldades por conta de uma certa doença que havia anos tentava combater com muitos antibióticos e outras formas alternativas, no entanto sem sucesso.
– Sim, Celestina. Está tudo bem. – disse Matilde tentando matar o clima entre ela e a Wilma que nem estava aí para o que a outra disse pada Celestina.
– Não consigo acreditar que está tudo bem. Parece que vocês estavam brigando aqui. Sabem que eu não gosto disso. Não sabem?
Matilde revirou os olhos e nada disse, mas de certeza não gostou das palavras da Celestina, pois nada do que ela disse estava acontecendo ali, mas Celestina sempre era daquele jeito, não esperava que a situação fosse explicada para tirar as suas conclusões, apenas vinha com as suas suposições, coisa que gerava muitas brigas.
Matilde não era muito fã disso, então fez de tudo para que a situação não se estendesse para algo complicada, enquanto não tinha nada de complicado.
De repente a mulher com a sua garrafa levantou no seu canto sem nada pronunciar e intentou em dirigir-se para a saída quando Celestina lhe pausou:
– Espera, para já vai? Nem se despede?
– Entenda o lado... – antes que Matilde terminasse a sua fala um tapa foi de encontro ao rosto da Celestina que incrédula ficou em silêncio petrificada e envergonhada.
Wilma devagar caminhou e enquanto todos os rostos das presentes ali ainda estavam viradas para ela depois que efetuou o tapa na face da outra. A mão da Celestina colou na sua própria bochecha como de fosse uma forma de curar a dor que sentiu e também matar a vergonha que sentia, lhe corroendo o seu interior. Agora o que ela tinha como opção, mas uma das piores era correr até a outra e lhe devolver com um tapa bem dado, pior do qual recebeu.
Cada segundo que passava a Wilma ficava distante e foi assim que a Celestina desistiu de vingar-se, coisa que para ela valeria a pena, foi a primeira vez que deixou a coisa pela metade, sem retribuir, isso causou um espanto a todas presentes no convívio.
Aquele tipo de convívio era frequente, onde fofocas da última hora eram deixadas girarem boca em boca sem parar, assim tornando o papo longo e quase infinito.
Matilde ali sempre se sentia ouvida, pois era exatamente isso que acontecia, todas ouviam-se entre elas coisa que lhes tornavam fortes e unidas, tinham muitos temas para debater, temas bem interessantes.
– Pessoal, vamos tentar voltar ao nosso clima. – disse uma das moças com pratos com comida nas mãos. – O que acham da gente começar por encher a pança para depois começar com os nossos debates e por fim para as nossas maravilhosas danças? – a mulher disse com uma voz divertida como se o que acontecera segundos atrás não tivesse ocorrido.
Todas concordaram com as palavras da moça com os pratos nas mãos.
Matilde dirigiu-se para a cozinha e ofereceu-se para ajudar para colocar a comida na mesa e organizar o que era necessário para o bom andamento do convívio que muitas chamavam de festa. Bem, se encontrar para um papo era bem raro e quando acontecia ganhava o nome "festa" pois era uma, onde se reencontravam e iam descontrair e esquecer os malditos problemas, era o lugar onde os conselhos eram derramados, e os choros e tristezas eram compartilhadas.
Arrumou-se tudo ao som das músicas dos moçambicanos. Outros dançavam Marrabenta, outros Xigubo e outros Pandza, era simplesmente uma festa.
Depois que a mesa foi posta e pronta para a fase de atacar a comida, escolheram uma das mulheres para prosseguir com uma oração. Escolheram justamente Matilde e ela sem dar muitas voltas, aceitou e começou a orar.
Fazia um bom tempo que havia parado de praticar aquele hábito. Na verdade depois do casamento foi onde as coisas começaram a mudar e sempre que ponderava em resolver acabava empurrando para em baixo do tapete até que chegou numa fase preocupante. Agora que tinha sido a escolhida para fazer a coisa nobre se recordou de quão mudou e ficou errada consigo mesma, no entanto agora ela podia fazer diferente, escolhendo o certo.
Ela sabia que o seu marido não gostava de fazer oração, mas depois de um tempo lhe ensinando passou a fazer a mesma coisa.
– Vamos fechar os olhos. – pediu e todas fecharam os olhos para prosseguirem com a oração. – Senhor Jeová, pai de Jesus Cristo em primeiro lugar queremos agradecer pelo dom da vida, por acordar em cada dia com fôlego. Estamos entre irmãs para um convívio que ilustra a nossa verdadeira união e como sabemos que a comida é sagrada, estamos prestes a alimentar a nossa carne onde rogamos que o senhor Jeová em nome do seu filho, Jesus Cristo derrame muitas bênçãos, e torne este dia memorável e frequente, agradecemos, amém.
Após a oração todas abriram os olhos e puderam rever a comida com um bom aspeto, coisa que era determinante para Matilde que comia com os olhos, pois mais apreciava a aparência da comida do que do seu sabor, coisa que a maioria fazia.
Todas sentaram e começaram a servir.
Matilde não conseguia alcançar o prato que tinha salada de alface então pediu para que a Celestina lhe entregasse e no exato momento conseguiu ver uma tatuagem de uma cobra gigante com uma cabeça vermelha no braço da outra que tinha os seus braços expostos. Ela já vira a imagem em algum lugar mais já não se lembrava onde exatamente, no entanto o fato que a imagem não lhe trazia boas recordações, mas deixou passar achando que fosse apenas a sua impressão, então continuando a gozar da sua deliciosa comida preparada pelas amigas.
– Uau, a comida está nota mil. – disse Matilde sentindo o sabor deslizar pela sua língua.
Passavam alguns dias sem ela saber o que é sentir uma comida deliciosa deslizar e agradar o seu paladar e com isso mentia para ela mesma que não fazia uma boa comida, no entanto não era nada disso.
A situação era outra.
Matilde já estava percebendo que estava ficando tarde, no entanto mesmo assim decidiu continuar com as suas amigas. A conversa ficava cada vez mais interessante e descontraída.
– E o que vocês acham de fazermos o encontro na casa de Matilde próximo mês? – Celestina colocou a questão e todas ficaram em silêncio com medo de comentar antes da dona da casa algo dizer.
Celestina sabia, mas tinha a intensão de confirmar se era verdade que o doutor Slayer não gostava da presença das amigas da esposa ali e além de confirmar ela queria provocar a outra.
As outras ficaram sem nenhuma fala por algum tempo até que a coisa voltou a normalidade quando Matilde como forma de se defender contou uma mentira:
– Bem, seria maravilhoso, mas próxima semana não estarei em casa, estou viajando com meu marido.
– Sério? – disse Celestina e em seguida propôs. – Então, sendo assim o que acha de passarmos para depois da viagem, isto é, para o mês seguinte?
Matilde tentou se manter calma, mas sentia uma enorme vontade de lançar um tapa diretamente para o rosto dela, mas desistiu e desta vez, se fazendo de convencida e aceitando a proposta mesmo sabendo que arranjaria uma maneira de ter uma desculpa para o encontro não acontecer na sua casa.
– Aí sim, é uma boa ideia... pode ser.
– É isso aí garotada. Ouviram todos? Depois do próximo mês nos reuniremos em casa da Matilde. Não se esqueçam de tirar o dinheiro de contribuição para capulanas, está bem? – disse Celestina e todas responderam de imediato.
Seria pela primeira vez a terem um convívio em casa da Matilde algo que seria muito diferente, na verdade a palavra certa seria, ímpar.
Depois que o encontro terminou Matilde decidiu voltar para casa, mas no meio do percurso teve a horrível ideia de passar em casa da Wilma para saber como ela estava depois do ocorrido no encontro, no entanto já era tarde para visitar alguém, eram 24:30 minutos. Na verdade a esposa do médico já estava alterada por conta do álcool e isso lhe fez decidir fazer uma coisa impensada.
Desviou na esquina e botou o pé na estrada com o objetivo de chegar em casa da sua amiga para lhe ajudar, pois estava preocupada com ela coisa que poucas pessoas sentiam por ela.
Quando a mulher chegou perto da porta cambaleou de uma forma ligeira, mas isso não lhe impediu de tocar a campainha, a pesar das horas altas que provocariam preocupação a qualquer um que escutasse e que soubesse que uma visita estava ali para uma conversa.
Já era madrugada e os galos competiam usando as suas belas vozes soando pelo bairro inteiro.
Se apoio na parede da casa perto da porta antes de clicar no pontão para soar a campainha. Um sono agressivo lhe agredia e nem sabia se ainda conseguiria chegar em casa, no entanto o seu marido estaria bem preocupado e a espera de uma explicação para um demora absurda daquelas.
Havia passado meses sem que os dois tivessem uma briga relacionada ao problema horário do regresso, mas Matilde com aquela atitude fazer ressurgir o problema o que causaria mais atritos entre o casal.
Depois do primeiro toque no botão ele respirou profundamente e olhou para o seu lindo relógio de pulso que fora oferecido pelo seu marido numa época em que estava em crise financeira, no entanto o médico apostava em pirâmides financeiras e em jogos de azar por onde descobriu que é um homem com muita sorte e aquele tipo de jogo era para ele, no entanto aquilo nunca faria dele um homem bem sucedido, assim foi como a mulher lhe fez ver e na mesma época surgiu o vício ao álcool, coisa que deixou as coisas bagunçadas entre o casal que estava começando a vida juntos.
Nos anos de trabalho do doutor Slayer muitos conflitos foram observados, envolvidos em problemas que para ter a sua solução exigiam rios de dinheiro, o que acabou contribuindo de uma forma significativa a diminuição da economia entre os dois e lhe pondo em risco de perder emprego.
Ninguém atendeu, no entanto mesmo assim a mulher não desistiu tendo a força de teimar para conseguir o seu objetivo. Novamente tocou e pressionou continuamente o botão num ato desesperado a espera de uma resposta imediata.
Pelas ruas do bairro poucas pessoas caminhavam e aos poucos desapareciam para em seguida deixar um vazio, tendo cada uma ido ao mundo dos sonhos para acordar dia seguinte. Matilde mesmo morrendo de sono, continuava em pé e gostaria de fazer para controlar o tempo e poder fazer tudo que desejar sem precisar de se preocupar com alguma limitação do tempo.
Quando estava prestes a pressionar mais uma vez teve a sorte de ser atendida pela dona da casa o que foi uma grande sorte mesmo, pois o marido da Wilma não estava havia se ausentado para uma reunião muito importante de negócios.
– Matilde? Vice está louca? O que faz aqui a essas horas? Você devia é estar em casa agora mesmo. Vai entra rapidamente, entra. – senhora Wilma disse logo que abriu a porta e se deparando com o rosto da Matilde num estado notável de embriaguez.
– Eu... tentei ir para casa, mas primeiro queria ver como é que você estava. E... – dizia Matilde, mas a outra não a deixou terminar a sua fala, assim tendo lhe puxado para dentro da casa.
Wilma ofereceu a Matilde a oportunidade para a mulher tomar banho e serviu uma refeição antes de perguntar novamente o que estava havendo com a amiga.
Sentadas na mesa as duas estavam, em silêncio enquanto uma comia a outra apenas observava e já não via a hora de começar com a conversa e se perguntava se Joaquim já havia recebido algum aviso sobre a saída sem volta da esposa, pois ela não imaginava que aquilo acontecesse e ela ter que receber a culpa pois a mulher passou a madrugada em cada dela.
– A comida está bem deliciosa. – Matilde comenta e depois olha para a cozinheira.
– Agora me diz uma coisa. – disse em seguida pausando.
– O quê?
– Você avisou o seu marido acerca disso?
– Disso? Disso o quê?
– Disso de estar aqui a essas horas ou aconteceu algo grave com alguém próxima de si?
– Não avisei porque não sabia que levaria muito tempo.
– Então o que quer que ele pense sobre a sua demora e falta de satisfação?
– Que se dane, pense ele o que bem intender que não vai mudar coisinha nenhuma. – respondeu Matilde como se coisa normal fosse.
As suas palavras eram pensadas mesmo que o álcool estivesse presente na sua mente, ela tinha algo que lhe fazia dizer aquilo e justificaria dizendo que é por conta do seu casamento com o médico que não está tendo bons momentos com muitos problemas, assim tendo caído na rotina coisa que aos poucos matava a conexão que os dois tinham.
A outra a ouvir as palavras da Matilde fica meio que petrificada e por alguns segundos fica em silêncio se recuperando para em seguida continuar com a sua abordagem.
– As coisas não estão andando entre vós né? – Wilma depois que pausou e respirou fundo colocou a pergunta para a Matilde que respondeu com a cabeça, positivamente. – Sinto muito. – ela disse.
Na verdade a pessoa que estava numa situação pior era a Wilma que o seu marido chegou até a lhe espancar. Ela calou com a situação e a ninguém contou ou denunciou e além disso ela suspeitava que o marido estivesse a lhe trair.
Bem era exatamente isso que estava acontecendo, infelizmente, mas a Wilma não tinha como saber. Os dois tinham uma filha bonita de 18 anos que estava grávida e a Wilma tendo sabido disso mandou ajudou a filha a fazer aborto que correu tudo bem feito pelo grande médico Joaquim Slayer, no entanto depois que foi feito as coisas tomaram um rumo bem peculiar, coisa que preocupa em demasia a Wilma.
A sua filha estava parecendo uma louca quando relatava os seus sonhos que não faziam nenhum sentido e assim Wilma foi procurar uma psicóloga que pudesse ajudar a filha a se recuperar do que tinha, mas ela suspeitava que fosse algum tipo de trauma, mesmo não entendo muito sobre a mente humana, pois não é a sua área, ela é apenas uma professora do ensino primário situado no bairro 25 de junho.
– Não sinta, ainda há uma forma de resolver e tudo ficará bem. Agora o que vou pedir a ele é ficar algum tempo no meu canto colocando os meus pensamentos no lugar e na volta terrenos uma conversa construtiva. Agora não é um momento para tentar ter uma com ele, pois estamos saturados e já não conseguimos lidar com as nossas emoções. – Matilde disse em seguida molhando a sua garganta com uma água gelada e continuou – quando a gente faz assim as coisas, elas melhoram é disso que uma relação sobrevive, um bom diálogo resolve tudo, mas tem que acontecer enquanto ambos estão em condições, caso não pode haver uma briga muito feia. – quando ela disse a última parte Wilma virou para o lado oposto da Matilde.
Atrás Wilma olhava para o palco onde muitas brigas tiveram lugar e muitos gritos dela soaram. Ela sabia que aquilo não era nada saudável, mas tinha medo de desistir para recomeçar tudo de novo com o outro alguém, coisa que era de fato muito difícil, no entanto era necessário que se fizesse algo antes que alguém perdesse a vida em brigas que ainda iam chamar de "briga de casal" onde ninguém pode se intrometer.
– É verdade o diálogo tudo resolve. Mas e se ela não funcionar? – Wilma lentamente colocou a sua inquietação.
Matilde limpou a garganta e tendo água perto dela lavou as mãos secou-as com um pano branco, tudo isso sem ter dito nada e em seguida bebeu novamente a água no seu copo e olhou para a senhora Wilma que aguardava com ansiedade pela resposta da amiga.
– Bem, eu diria que é fácil, mas não é bem assim, mas o certo numa situação que o diálogo não tem efeito, seria desistir. – Matilde com calma deixou as duras palavras.
Wilma apenas nada disse e olhou fixamente nos olhos da Matilde.