O CHAMADO DOS ULTORES

2214 Palavras
Bairro 25 de Junho — Hospital de Moamba — 18 de Janeiro de 2030 — 12:30 A tarde de sexta-feira fazia calor dos infernos. — Essa merda de ar condicionado decidiu parar de funcionar. — disse Slayer agredindo a mesa onde se encontrava. E o seu raio de visão foi parar numa foto de uma revista. Tinha lá um recém nascido nas mãos da mãe, esta que sorria para a câmera. Slayer levantou até aquela outra mesa para ler o conteúdo da revista. Começou a ler: "Não impeça o que Deus Projetou" Tereza Mboa, uma mulher de 24 anos de idade tinha decidido fazer aborto porque não se achava preparada para ter filhos, porém a voz de Deus a mostrou o caminho certo através da boca da senhora Esperança crente, da igreja Zione. Deus age dessa forma, usando as pessoas que lhe aceitam como mensageiros da verdade é salvação. Conta a jovem Tereza: "Eu já não tinha outra ideia além de fazer aborto, claro que sabia sobre os perigos que ia encontrar durante o processo deste tipo de coisa, mas a senhora Esperança conseguiu me salvar e agora estou vivendo bem com a minha pequenina filha que vai completar uma semana de vida, depois da entrevista que tive com a vossa equipe muitas pessoas tem se oferecido para me ajudar." Para aqueles que vão até a mesa de cirurgia e aqueles que manuseiam instrumentos que acabam com a vida, com a coisa mais preciosa, que aniquilam as pequenas criaturas, temos um vídeo, ou melhor o filme que mostra todo o processo que ocorre no interior do útero da mãe para a retirada desta vida. O filme nos proporciona imagens assustadoras para não dizer horripilantes. Recomendado para maiores de 18 anos de idade e em caso de você ser uma pessoa sensível o melhor é não acessar o conteúdo. Paraistir ao filme é só acessar o link que se segue https://www.youtube.com/o-grito-silencioso/ " Depois de ter lido a informação, Slayer ficou indiferente e jogou a revista na lata de lixo. — Licença. — alguém pediu licença. — Entra. Um homem forte e alto entrou. — Boa tarde senhor. Estamos aqui para consertar o ar condicionado. — Está bem, podem começar agora. E não esqueçam este ar condicionado proporciona um ambiente estável para mais de 1000 pessoas, ou seja, é um aparelho geral. — Não se preocupe senhor nós fazemos um trabalho de qualidade, acredite, não vai se arrepender por ter nos escolhido. — Okay. Bom trabalho. Vou aproveitar ter o meu intervalo. — disse Slayer tirando a sua bata e deixando na sua cadeira. Bairro Madinguini — Casa da senhora Euzinha - 14:59 — Licença mãe — ninguém respondeu — Licença mãe. — novamente ninguém respondeu. Então Slayer decidiu abrir a porta. A porta cedeu e ele entrou. — Mãe! Mãe, estás aí? Ninguém estava ali, então Slayer foi se sentar no sofá da sala de estar. O espaço estava organizadinho com todos os detalhes da dona Euzinha, aquilo era da família, todos tinham a mania de deixar tudo organizado. De repente o seu celular começou a tocar. — Trim... Trim... Trimm. — Oh meu Deus que toque tão antigo tenho que mudar. Tirou o celular do bolso, atendeu e direcionou ao ouvido direito usando a mão direita. — Oi? — Boa tarde chefe, tudo bem? — Sim estou bem Ronaldo e você? — Também estou bem. Só queria te dizer que minha mulher já deu parto. — Uau, que bom. — O desejo dela era ter uma filha, mas tivemos um filho. Slayer se sentiu roubado a sorte pois a conversa que tivera com a esposa na noite anterior ainda estava assente na sua mente. Matilde também tinha o mesmo desejo que a mulher de Ronaldo. — Assim qual é o nome do garotão? — Dino. — Dino? — Sim, em homenagem ao meu pai. A propósito, queria te convidar para viajarmos juntos até Moamba o país dos mistérios. Quero visitar a minha família e deixar essa informação em primeira mão, ao vivo. — Oh pa, sinto muito meu amigo mas não posso, pois tenho uma lista grande de mulheres que estão para fazer aborto. — Mas não há como deixar essa lista para os seus colegas. É que eles querem te conhecer. — Eles quem? — A minha família. — A viajem é pra quando? — É pra terça-feira da próxima semana? — Opa, não vai dar. — Mas... Okay, está bem era isso mesmo, tchau tenha um bom trabalho. — Obrigado e você tenha uma boa viagem, falamos em breve. — desligou e meteu no bolso. Um som vindo do quarto da mãe de Slayer fez-se ouvir. — O que será? — se questionou silenciosamente. Levantou e tentou seguir de onde vinha o som, mas constatou que vinha do quarto, logo desistiu, pois sabia desde criança que quarto é um local muito sagrado que não se pode entrar de qualquer maneira. O som não parou, parecia que alguém dava toques agressivos à porta, cada toque intrigava Slayer. — Quem está aí? Ninguém respondeu Slayer repetiu: — Quem está aí? — ninguém respondeu. O som continuou, Slayer lentamente caminhou até ao quarto, a curiosidade lhe invadira o interior por completo. — Quem está aí? De novo a resposta não foi pronunciada de jeito nenhum. Slayer chegou perto da porta, o som parou. O homem viu a porta semi aberta, com muito cuidado empurrou o objeto e entrou no interior, ninguém lá estava, o local estava vazio, quando virou para direita viu alguém totalmente parecido com ele, com os olhos finos e castanhos-escuros, o seu terno preto que combinava com os seus pretos sapatos que brilhavam na luz do sol, mesmo na ausência desta, produto do trabalho da esposa, Matilde. Ele ficou assustado, porém, se acalmou logo que descobriu que era apenas um espelho. — Oh meu Deus, é apenas um espelho. Ele sempre usava aquela interjeição, "Oh meu Deus", mas ao mesmo tempo era cético, usava apenas por saber que a sentença faz parte da língua, não porque acreditava numa divindade que se encontra nos céus controlando tudo. Então decidiu aproveitar o instrumento para verificar o seu look, que na verdade não tinha nada que pudesse ser chamado, novo. De uma forma abrupta um estribilho familiar soou, vindo do mesmo espelho que o homem contemplava. Era um estribilho que acompanhava e infernizava a vida do médico. — LIBERTE-NOS DESTE INFERNO. LIBERTE-NOS DESTE INFERNO. — VAI PRA INFERNO!! — gritou Slayer, procurando algum objeto para quebrar o espelho. Durante a sua procura a sua visão periférica observou a sua imagem mudar para uma face de uma criança, uma menina linda e inocente, com os olhos brilhando, logo este virou e voltou a contemplar o espelho. "Mais uma alucinação, tenho que aceitar que tenho problemas na mente" — pensou. A criança no espelho, pareceu ouvir o pensamento do homem e logo respondeu. — Não se trata de uma alucinação, mas sim da realidade. Apenas aceite e nos tire deste inferno. — disse a menina com a sua voz fina e tocante. Slayer estava muito atónito, ainda que as visitas daquele gênero tivessem sido frequentes na vida dele, mas não conseguia perder o sentimento que circulava em si agora. "Não acredito que estou a falar com um espelho" — ele pensou. O ambiente no espelho mudou, assim ficando escuro e apenas se observando a face da criança agora com uma expressão dos infernos. Os olhos da menina ficaram totalmente vermelhos e os dentes assemelharam-se aos de tubarão. — OLHA PRA MIM SEU DESGRAÇADO!!! É A ÚLTIMA VEZ QUE TENS ESTA OPORTUNIDADE... Tampa Levou um vaso que se encontrava no rodapé da janela e lançou na direção do espelho, assim quebrando aquilo, deixando em estilhaços. Interrompeu o discurso da coisa. A porta do quarto rangeu baixinho, mas Slayer percebeu. Passos pesados soavam vindo na direção do quarto, ele tapou os seus ouvidos com as mãos, no entanto, mesmo assim conseguia ouvir o som. — NÃO ESTÁ ACONTECENDO. NÃO ESTÁ ACONTECENDO. — tentou se iludir. Veio à sua mente a ideia de sair dali, o problema era que os passos vinham da única saída, pois não sairia pela janela porque as janelas tinham grades. O som dos passos continuou e um cheiro pútrido circulava por toda parte da casa. De repente a porta abriu-se por completo, como se alguém tivesse dado um pontapé em desespero. Slayer olhou na direção da porta e um homem apareceu. O coração do médico martelou no momento que o seu raio de visão atingiu o proprietário dos passos. — Senhor Afuzal? — Joaquim, MEU FILHO, ACORDA! — a voz disse. Slayer abriu os olhos e viu que estava no sofá da sala, em casa da dona Euzinha, a mãe. — Que engraçado estava a procura da mamãe e acabou adormecendo, que fofinho. Isso me lembra quando tu ainda eras criança. — disse a velha. — Nem me lembro como aqui cheguei. — Transpiraste muito meu filho, tiveste um pesadelo? Slayer queria dizer "não", mas sabia que a sua mãe lhe conhecia muito bem, a meia verdade resolveria aquilo. — Sim mãe, foi um pesadelo sem pé nem cabeça. — Andaste a ver assombrações? Quando criança, Slayer sofria de pesadelos que o levava para um dos medos sem cabimento, considerando que ele era muito cético. O médico tinha pavor de assombrações, coisa que não tinha explicação. — Sim. — Não se preocupe, siga-me. Os dois foram ao quarto que Slayer odiava, o quarto das orações onde sempre iam quando alguém tivesse qualquer tipo de pesadelo. — Fique mais perto, vamos orar. Quando estavam prestes a começar o celular do Slayer tocou. — Desculpa mãe, mas tenho que atender. "Uffa que bom" pensou, se sentindo salvo daquilo. — Não há problema. — disse dona Euzinha. Slayer se distanciou para atender o celular, na tela estava escrito, "Amor eterno." — Oi meu amor, tudo bem? — Estou bem e você? — Também estou bem. — Que bom, liguei para dizer que vou sair esta tarde e não voltarei cedo. Vou visitar meu pai, ele não está bem. — Okay, não quer que eu te acompanhe? — Não precisa, fica pra próxima. Tchau meu anjo falamos em breve. — Okay, tchau. — Espera não desliga. Quase esquecia de dizer que fiz o prato que você adora, adivinha. — Adivinhar, ou afirmar? — disse Slayer rindo — Xima e Cacana. — Exatamente, ha, ha, ha, tchau. Um beijo. — Tchau, beijo. Desligou o celular e foi até ao local onde a mãe estava ajoelhada. — Vamos começar, meu filho. A velha pronunciou algumas palavras e ao ter terminado disse: — Amém — ela levantou — pode se levantar. Slayer levantou. — Agora, como se sente? — Euzinha perguntou. — Me sinto melhor, mãe! — Vamos tenho uma coisa para te mostrar. Os dois caminharam até a sala de estar, onde tudo estava bem organizado, tudo em seu lugar e o chão careca brilhava nos olhos de qualquer um. — Fique aqui venho já. Hospital — Bairro 25 de Junho Slayer estava na sua sala, sentado na sua cadeira e contemplando o objeto que estava nas suas mãos e tentando decifrar, com que fito ele aceitou aquilo. O objeto o fazia viajar para os tempos velhos, e viu o seu rosto de criança brincando com um pai que em segundos, de repente sumiu. Quando o pai sumiu Slayer tinha 5 anos de idade, ele lembrava daquilo claramente. Quando a imagem do pai sumindo na mente dele surgiu novamente teve uma vontade de despedaçar o brinquedo. O brinquedo era a imagem do caçador "Ashlem." Slayer amava o personagem que encontrava nos livros da saga "Os Caçadores de Ouro", além de Ashlem, também amava Jack Kent outro caçador. — Um presente. — ele disse. Fora um presente que o pai quisera lhe dar, porém a mãe o impedira naquela época. "Será que Afuzal se importava tanto assim com o filho?" "Eu entendo o porquê a minha mãe não quis me dar este objeto, era para me proteger" ele pensou. De repente a porta foi aberta pelo Arnaldo às pressas. — Precisamos de um especialista para fazer raspagem. Uma moça lá fez um aborto clandestino e agora precisa de... de fazer raspagem antes de perder a vida. — É pra já. — disse Slayer levantando as pressas diretamente para a sala de raspagem. Bairro Livivini Casa dos pais da Matilde Matilde estava a limpar a casa toda, Zubaida e Roberto, os pais, estavam sentados trocando carícias. A doença que acatava o senhor Roberto, começara três anos atrás, uma das doenças que rasga o coração de quem cuida do portador desta doença e mesmo a própria pessoa portadora, no entanto às vezes se esquece disso e até de simples coisas da vida, como o que comeu ontem, qual é o seu nome e entre outras. Quando Matilde acabou de fazer as suas tarefas de casa, foi pôr a mesa organizando tudo de acordo com os gostos dos pais, ou melhor da mãe, pois o pai perdera estes gostos tendo a memória falhando. — Luísa onde é que está a sua bicicleta? — perguntou o pai. Um sentimento triste assolou Matilde. Ela ficou por ali, teve a refeição, conversou com eles e foi para casa.
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