capítulo 6

1014 Palavras
O braço de Paulo se fechava em torno do de Fernanda como uma algema viva. O barulho do local parecia distante demais, como se o mundo tivesse sido colocado no mudo no instante em que ele surgiu. — Me solta — ela sussurrou, os olhos queimando de ódio e pânico. Paulo não respondeu de imediato. O olhar dele varreu o ambiente, calculista, avaliando quem observava, quem poderia interferir. Depois se inclinou, a voz baixa, cortante: — Você realmente achou que podia sair de casa, beber, rir… fingir que nada mudou? Fernanda puxou o braço com força, conseguindo se soltar por um segundo. — Você não manda em mim. Paulo sorriu de lado, um sorriso frio, sem humor. — Mando mais do que você imagina. Sabryna se levantou num impulso. — Ei, ela disse pra soltar— — Isso não é assunto seu — Paulo cortou, sem sequer olhar para ela. — Fernanda vem comigo. Will e Viny trocaram olhares, desconfortáveis. Não havia clima de festa ali. Havia algo errado, pesado demais para ignorar. — Quem você pensa que é? — Will perguntou, tentando soar firme. Paulo finalmente o encarou. — O homem que o pai dela escolheu para cuidar do futuro dela. Fernanda sentiu o estômago despencar. — Não ouse falar do meu pai — ela rosnou. Paulo se aproximou mais uma vez, invadindo o espaço dela. — Seu pai confiou em mim. E deixou isso claro no testamento. Você pode fugir, espernear, se rebelar… — ele inclinou a cabeça, a voz quase um sussurro c***l — mas o destino já foi decidido. — Você não é meu destino — ela respondeu, tremendo, mas sem baixar os olhos. Por um instante, algo perigoso brilhou no olhar dele. Não raiva. Posse. — Ainda vai entender que é. Uma sirene distante cortou o ar. Talvez apenas trânsito. Talvez algo mais. Paulo afrouxou a postura, recompôs o rosto. — Vamos conversar em casa — disse, agora num tom falsamente calmo. — Isso aqui já virou espetáculo. Fernanda respirava rápido. Cada instinto gritava para correr. Para desaparecer. Mas ela sabia: aquilo não era só uma discussão. Era uma guerra silenciosa começando. E Paulo não era o único jogando. Quando ele se virou para sair, confiante de que ela o seguiria, Fernanda fez algo que nem ela mesma sabia que teria coragem. — Eu vou anular esse testamento. Paulo parou. Virou-se lentamente. — Tente. O sorriso que surgiu em seu rosto não era de alguém com medo. Era de alguém que já tinha planejado todos os próximos passos. E, naquele instante, Fernanda entendeu: o maior perigo não era obedecer. Era desafiar alguém que acreditava que ela já lhe pertencia. Paulo não pediu. Ele simplesmente segurou o pulso de Fernanda e a conduziu para fora do bar, ignorando os olhares curiosos e os protestos abafados dela. O caminho até o carro foi silencioso, pesado, como se cada passo marcasse mais uma casa num tabuleiro invisível. — Entra — disse ele, abrindo a porta. — Eu não vou — Fernanda respondeu, o queixo erguido. Paulo se inclinou até ficar à altura do rosto dela, a voz baixa, controlada. — Vai sim. Ou eu explico para todos aqui fora exatamente por que seu pai confiou você a mim. Ela engoliu seco. Entrou. O trajeto até a casa foi sufocante. O rádio desligado. Apenas o som do motor e da respiração tensa dos dois. — Você não pode me arrastar assim — Fernanda quebrou o silêncio. — Eu não sou sua propriedade. — Ainda não — Paulo respondeu sem olhar para ela. — Mas está fazendo de tudo para fingir que não sabe o que está escrito naquele testamento. — Aquilo não é uma sentença. É um papel que pode ser contestado. Paulo finalmente a encarou no semáforo, o olhar frio. — Você acha mesmo que seu pai deixaria brechas? A casa parecia diferente à noite. Maior. Mais silenciosa. Hostil. Assim que entraram, Paulo trancou a porta. O clique ecoou alto demais. — Não tranca — Fernanda disse, virando-se rápido. — Aqui é minha casa também — ele respondeu, largando as chaves sobre o aparador. — E você saiu sem permissão. — Eu não preciso da sua permissão! — Precisa enquanto viver sob esse teto. Fernanda avançou um passo. — Você usa o nome do meu pai como arma. Isso é doentio. O maxilar de Paulo se contraiu. — Eu cumpro promessas. Diferente de você, que foge, provoca e depois finge surpresa quando as consequências chegam. — Consequências ou controle? — ela rebateu. — Porque tudo em você gira em torno disso. Silêncio. Paulo se aproximou devagar, não tocando nela, mas invadindo o espaço o suficiente para fazê-la recuar até encostar na parede. — Você acha que esse joguinho vai durar quanto tempo, Fernanda? — perguntou. — Você muda chip, muda rotina, desafia… mas volta sempre para o mesmo lugar. — Porque você me encurrala. — Porque você ainda não entendeu as regras. Ela respirava rápido, mas não desviou o olhar. — Então explica — disse. — Porque eu não vou ser a garota obediente que você espera. Algo mudou no rosto dele. Não raiva. Avaliação. — As regras são simples — Paulo respondeu. — Você para de testar meus limites… e eu paro de apertar os seus. — Isso é uma ameaça? — É um aviso. Fernanda empurrou o peito dele com força suficiente para criar distância. — Eu vou derrubar isso. O testamento. Você. Tudo. Paulo riu baixo, sem humor. — Você fala como se estivesse sozinha. — Ele se virou, subindo o primeiro degrau da escada. — Mas não está. Ele parou no meio do lance. — E é isso que torna o jogo interessante. Fernanda ficou ali, no meio da sala escura, sentindo o peso da casa sobre si. Ela não era mais apenas observada. Ela estava presa com o inimigo. E isso era o bastante para deixá-la furiosa e sem muito o que fazer. subiu as escadas em direção ao quarto deixando ele falando sozinho. Minhas lindas e lindos, seguem a autora no i********:: @thalitamarques_books no t****k: autorathalitamarques
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