CAPÍTULO 23 — O IMPREVISTO QUE MUDOU A NOITE

819 Palavras
O dia seguinte parecia feito de promessas. Hana passou a manhã concentrada, mas com o pensamento fugindo o tempo todo para o mesmo lugar: o jantar. Ji-Won tinha dito “sem reuniões, sem tensão, só nós”. Parecia simples, mas dentro dela havia uma mistura de ansiedade e esperança que fazia o coração bater rápido demais. Quando o relógio marcou seis e meia, ela estava pronta. Vestido leve, maquiagem suave, o cabelo solto. Não queria parecer perfeita — queria parecer real. O som da campainha fez o coração dar um salto. Ela abriu a porta e o viu: Ji-Won, em roupas simples, o olhar calmo e um sorriso genuíno. — Você está… — ele começou, parando no meio da frase. — …incrivelmente linda. — E você… está nervoso — ela respondeu, divertida. Ele riu, passando a mão pelo cabelo. — Talvez um pouco. Não costumo ser bom com primeiros encontros. — É o primeiro, então? — O primeiro que importa. ⸻ O restaurante era pequeno, com luz baixa e mesas cercadas por janelas que deixavam ver a cidade acesa. Ji-Won escolheu o lugar mais reservado, e Hana percebeu que ele estava fazendo de tudo para que a noite fosse perfeita. — Eu pensei em te levar a um lugar chique — disse ele —, mas achei que a gente precisava de algo mais real. — Concordo. — Ela olhou ao redor. — É acolhedor. O garçom trouxe vinho. Eles brindaram sem dizer muito, apenas sorrindo um para o outro. A conversa fluiu leve: lembranças, planos, risadas que quebravam o silêncio de meses. Por um instante, parecia que nada poderia estragar aquele momento. Mas o destino, como sempre, tinha outros planos. ⸻ Hana percebeu o movimento primeiro. Uma mulher entrou no restaurante, alta, elegante, com um olhar que fez o ar entre as mesas mudar. Ela tirou os óculos escuros devagar. Ji-Won congelou. Hana olhou para ele e entendeu. Não precisou de palavras. Era alguém do passado dele. A mulher sorriu ao ver Ji-Won. — Faz tempo, Ji-Won. — A voz dela era doce, mas afiada. Ele respirou fundo. — Yoon-Hee… o que está fazendo aqui? Hana ficou em silêncio. O nome ecoou como algo distante, mas incômodo. — Eu voltei de Londres ontem. — Yoon-Hee se aproximou, ignorando completamente a presença de Hana. — E imagine minha surpresa ao descobrir que você está saindo… com sua funcionária. O tom foi sutil, mas venenoso. As palavras, no entanto, caíram como faca. Ji-Won manteve a postura. — Isso não é da sua conta. — Oh, mas é — ela rebateu, sorrindo. — Afinal, eu era sua noiva. O mundo pareceu parar por um segundo. Hana sentiu o ar sumir. — Sua… noiva? Ji-Won se virou imediatamente. — Hana, não é como parece. Yoon-Hee deu um pequeno riso. — Sempre não é, não é? Hana tentou controlar a respiração. Não queria fazer cena, não queria chorar — mas o impacto foi forte demais. — Ji-Won… — ela começou, com a voz trêmula. — Você não me contou isso. — Porque terminou há anos — ele respondeu, tenso. — Antes de eu conhecer você. Yoon-Hee cruzou os braços, olhando diretamente para Hana. — Terminou, sim. Mas algumas histórias não acabam tão fácil. A dor no peito de Hana voltou — aquela velha conhecida que ela achou ter deixado para trás. Não era ciúme. Era o medo. O medo de ser, de novo, a segunda opção na vida de alguém. Ela pegou a bolsa e se levantou. — Acho que vocês têm muito a conversar. — Hana, espera — Ji-Won se levantou também. Ela balançou a cabeça. — Eu confiei em você. Mas parece que ainda há partes da sua vida que eu não conheço… e que talvez ainda te prendam. Ji-Won tentou se aproximar, mas ela deu um passo atrás. — Eu só preciso pensar — disse ela, e saiu. Yoon-Hee observou, satisfeita. Mas o que ela não esperava era o olhar que Ji-Won lançou para ela — não de culpa, não de confusão. De fúria. — Você não devia ter voltado. — A voz dele saiu fria, cortante. — Oh, Ji-Won… — ela sorriu, cínica. — Você devia saber que algumas pessoas não suportam ver outras felizes. E saiu como se tivesse vencido. ⸻ Hana caminhou pela rua, o vento frio batendo contra o rosto. As lágrimas vieram sem permissão. Ela não sabia o que doía mais — o passado dele ou o fato de ter acreditado que, dessa vez, as feridas estavam curadas. O celular vibrou. Uma mensagem. “Hana, por favor, me escuta. Eu nunca quis esconder nada de você. Eu só não sabia como começar.” Ela olhou a tela por longos segundos, o coração dividido. Depois apagou a notificação. Não porque não quisesse ouvi-lo. Mas porque, naquele momento, precisava ouvir a si mesma primeiro. O amor tinha começado a respirar. Mas agora… estava aprendendo a sobreviver.
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