Pré-visualização gratuita CAPÍTULO 1 — O DIA EM QUE O DESTINO TROPEÇOU
A chuva caía fina sobre Seul, transformando as luzes de néon em reflexos dançantes nas poças d’água.
Hana segurou a mala com força, respirando fundo. Era a sua primeira noite na Coreia.
Novo país.
Nova vida.
Novo recomeço.
Mesmo assim, o coração pesava.
Dois meses antes, ela tinha assinado os papéis do divórcio. Dez anos de relacionamento resumidos em um carimbo frio. O ex-marido, que jurou amor eterno, foi embora com outra.
E ela… só ficou com cicatrizes e uma coragem que não sabia que tinha.
Respirou fundo mais uma vez.
— Vamos, Hana… você consegue — murmurou para si mesma.
No prédio espelhado da Haneul Corp, Ji-Won observava a cidade da cobertura. A cada batida de seu relógio suíço, sua paciência diminuía.
— Trinta minutos de atraso? — disse, frio. — Inaceitável.
Seu assistente engoliu seco.
— Senhor, é apenas a nova pesquisadora estrangeira. Acredito que ela se perdeu no traslado…
Ji-Won virou-se lentamente, o olhar afiado como lâmina.
— Na minha empresa, ninguém se perde. Ninguém chega atrasado. Ninguém comete erros.
Ele pegou o tablet, deslizou o dedo e viu a foto do novo talento internacional contratado para o programa especial.
A mulher tinha um sorriso suave, mas olheiras profundas.
— Hana Albuquerque… — leu em voz baixa.
Mas não sorriu.
Ji-Won não sorria para ninguém.
Totalmente encharcada, Hana correu pelas ruas, tentando encontrar o portão certo da empresa.
O guarda a olhava com pena.
— Você devia ter descido na entrada sul.
— E eu desci na norte… e depois na leste… e… — ela suspirou, desesperada. — Eu vou ser demitida antes de começar, né?
— Não se preocupe. Vou te levar.
Mas quando Hana entrou no elevador da cobertura, já imaginava a bronca que receberia. Apertou as mãos para esconder o tremor.
Quando as portas do elevador se abriram, Ji-Won ergueu o olhar.
Hana entrou… pingando água pelo chão de mármore.
Ele fechou os olhos lentamente.
— Você está… molhando o meu piso.
Ela sorriu, sem graça.
— Desculpa. É que eu me perdi… três vezes.
Silêncio.
O assistente dela engoliu seco.
Ji-Won se aproximou, cada passo calculado, frio, impecável.
Ele parou diante dela. Tão perto que Hana sentiu o perfume caro dele misturado com a própria vergonha.
— Na próxima vez… — ele disse, com a voz baixa, gelada — …venha quinze minutos mais cedo. Assim terá tempo de se perder com calma.
Hana piscou.
Ele estava… brincando?
Ou sendo c***l?
Ela não soube responder.
— Outra coisa — completou Ji-Won. — Você vai trabalhar diretamente comigo. Espero eficiência. Disciplina. Foco.
Hana respirou fundo, tentando recuperar a dignidade.
— E da minha parte, senhor… você pode esperar humanidade.
Ele arqueou a sobrancelha.
Ela sorriu.
Algo dentro dele estranhamente vacilou.
Quando Hana deixou a sala, Ji-Won ficou parado na mesma posição.
Por que aquela mulher… tinha mexido com ele?
Era só mais uma funcionária.
Só mais uma estrangeira.
Só mais um rosto passageiro.
Mas ainda assim…
Aquela frase dela continuava queimando nos ouvidos:
“Você pode esperar humanidade.”
E Ji-Won não lembrava a última vez que alguém tinha lhe oferecido isso.