A noite caiu sobre Seul com uma beleza inquieta, como se a cidade carregasse segredos escondidos entre as luzes de neon.
Hana ainda sentia o peso do olhar de Soo-Yeon desde o episódio da tarde — um olhar que prometia guerra.
E, mesmo exausta, ela decidiu ficar até mais tarde revisando relatórios para não dar margem a mais ataques.
A sala estava silenciosa quando a porta se abriu devagar.
Ji-Won entrou.
Frio como sempre.
Mas havia algo diferente nos seus olhos — um brilho contido, quase uma culpa.
— Hana — ele chamou, parando a poucos passos dela.
Ela endireitou a postura.
— Sim, senhor Kang?
Ele ficou em silêncio. O que queria dizer parecia pesar mais do que as próprias palavras.
— Sobre o que aconteceu hoje… — começou.
Hana sentiu o peito apertar, mas esperou.
Ji-Won respirou fundo.
— Soo-Yeon ultrapassou limites. E eu… — ele hesitou, quase imperceptivelmente — não deveria ter permitido que te expusessem daquela forma.
Foi o mais próximo de um pedido de desculpas que ele poderia dar.
E Hana percebeu isso.
— Eu estou bem — ela disse, com um sorriso pequeno. — Já passei por humilhações piores.
Ji-Won franziu o cenho.
— Isso não deveria ser normal na sua vida.
O comentário atingiu fundo demais, mas antes que ela pudesse responder, Min-Ho entrou na sala com passos apressados.
— Hana! Eu te procurei no laboratório— Ele parou ao ver Ji-Won. — Ah… desculpe. Não sabia que estavam ocupados.
Hana sorriu, aliviada pela interrupção.
Ji-Won não.
— Não estávamos — ela disse rapidamente. — O que aconteceu?
Min-Ho ergueu a sacola que trazia.
— Achei que você não tivesse comido nada desde cedo. Trouxe comida.
O olhar de Ji-Won endureceu, quase imperceptivelmente.
Hana percebeu.
Min-Ho colocou a sacola sobre a mesa, abrindo-a.
— É seu prato favorito daqui. Aquele restauran—
— Ela tem trabalho a fazer — Ji-Won cortou, a voz baixa, mas afiada.
Hana arregalou os olhos.
— Eu posso comer depois de terminar—
— Você precisa comer agora — Min-Ho reforçou, ignorando fisicamente o CEO. — Não vou deixar você desmaiar.
A tensão entre os dois homens encheu a sala como eletricidade estática.
Ji-Won cruzou os braços.
— Ela não está doente, Min-Ho.
— Não ainda — retrucou o médico, com um sorriso provocativo.
Hana olhava de um para o outro, sentindo a atmosfera pesada.
Era como se o ar vibrasse.
Min-Ho abriu o potinho e entregou os hashis para ela.
— Come. Por favor.
Ela agradeceu e começou a comer.
Foi então que percebeu:
Ji-Won não tirava os olhos dela.
Era um olhar que dizia tudo o que ele nunca admitiria.
Ciúme.
Preocupação.
Confusão.
— Eu não pedi comida para você — Ji-Won comentou, tentando parecer indiferente.
Mas não conseguiu.
Havia amargor na voz.
— Não precisa pedir — Min-Ho respondeu. — Ela é minha amiga.
Ji-Won recuou um passo, como se aquela frase fosse uma ameaça.
Hana engoliu seco, sentindo o coração acelerar.
Dois homens completamente diferentes.
Um presente.
Outro tentando se esconder do que sente.
Era demais.
Depois de comer, Min-Ho se despediu, deixando um toque leve na mão dela.
— Qualquer coisa, me liga. Não importa a hora.
Ji-Won observou a cena com a mandíbula tensionada.
Quando ficaram a sós novamente, ele falou:
— Você confia demais nas pessoas.
Hana respirou fundo.
— E você confia de menos.
O silêncio caiu feito uma lâmina entre eles.
Ji-Won passou a mão pelos cabelos, irritado consigo mesmo.
— Min-Ho… ele sempre quer salvar todo mundo.
— Ele só está tentando ajudar.
— E você acha que eu não estou?
Hana travou.
Ji-Won percebeu tarde demais o que havia dito.
A verdade escapou.
Ele desviou os olhos, irritado e vulnerável.
— Esqueça isso.
Hana deu um passo à frente, surpreendendo os dois.
— Por que você se importa tanto?
Ji-Won ergueu o rosto devagar.
— Eu não me importo. — Ele mentiu m*l.
Hana sentiu uma coragem estranha subir pelo corpo.
Talvez fosse cansaço, ou vontade de deixar de ter medo.
— Então por que ficou incomodado quando Min-Ho trouxe comida?
Ji-Won fechou os olhos um segundo.
Ele estava perdendo o controle.
— Você está confundindo as coisas — murmurou.
— Estou? — Hana insistiu, a voz baixa, frágil, mas firme.
Ji-Won deu um passo em direção a ela.
Um passo apenas.
Mas suficiente para que o ar queimasse entre os dois.
— Hana… — ele disse, e seu nome na voz dele soou como uma confissão.
Mas antes que pudesse concluir, o celular dele vibrou.
Soo-Yeon.
Ela estava na portaria.
Esperando por ele.
O momento que estava prestes a acontecer se quebrou.
Ji-Won recuou imediatamente, como se lembrasse da própria armadura.
— Eu preciso ir.
Hana não o impediu.
Ele caminhou até a porta.
Mas, antes de sair, parou.
Sem olhar para trás, disse:
— Sobre Min-Ho… mantenha distância.
Hana franziu o cenho.
— Por quê?
Ji-Won respirou fundo.
— Porque… as coisas com ele sempre terminam em dor.
E então ele saiu.
Deixando Hana sozinha, comendo as últimas palavras dele como se fossem veneno e cura ao mesmo tempo.
Uma fissura tinha se aberto no gelo dele.
E aquela fissura…
era só o começo.