CAPÍTULO 5 — A PRIMEIRA FISSURA NO GELO

869 Palavras
A noite caiu sobre Seul com uma beleza inquieta, como se a cidade carregasse segredos escondidos entre as luzes de neon. Hana ainda sentia o peso do olhar de Soo-Yeon desde o episódio da tarde — um olhar que prometia guerra. E, mesmo exausta, ela decidiu ficar até mais tarde revisando relatórios para não dar margem a mais ataques. A sala estava silenciosa quando a porta se abriu devagar. Ji-Won entrou. Frio como sempre. Mas havia algo diferente nos seus olhos — um brilho contido, quase uma culpa. — Hana — ele chamou, parando a poucos passos dela. Ela endireitou a postura. — Sim, senhor Kang? Ele ficou em silêncio. O que queria dizer parecia pesar mais do que as próprias palavras. — Sobre o que aconteceu hoje… — começou. Hana sentiu o peito apertar, mas esperou. Ji-Won respirou fundo. — Soo-Yeon ultrapassou limites. E eu… — ele hesitou, quase imperceptivelmente — não deveria ter permitido que te expusessem daquela forma. Foi o mais próximo de um pedido de desculpas que ele poderia dar. E Hana percebeu isso. — Eu estou bem — ela disse, com um sorriso pequeno. — Já passei por humilhações piores. Ji-Won franziu o cenho. — Isso não deveria ser normal na sua vida. O comentário atingiu fundo demais, mas antes que ela pudesse responder, Min-Ho entrou na sala com passos apressados. — Hana! Eu te procurei no laboratório— Ele parou ao ver Ji-Won. — Ah… desculpe. Não sabia que estavam ocupados. Hana sorriu, aliviada pela interrupção. Ji-Won não. — Não estávamos — ela disse rapidamente. — O que aconteceu? Min-Ho ergueu a sacola que trazia. — Achei que você não tivesse comido nada desde cedo. Trouxe comida. O olhar de Ji-Won endureceu, quase imperceptivelmente. Hana percebeu. Min-Ho colocou a sacola sobre a mesa, abrindo-a. — É seu prato favorito daqui. Aquele restauran— — Ela tem trabalho a fazer — Ji-Won cortou, a voz baixa, mas afiada. Hana arregalou os olhos. — Eu posso comer depois de terminar— — Você precisa comer agora — Min-Ho reforçou, ignorando fisicamente o CEO. — Não vou deixar você desmaiar. A tensão entre os dois homens encheu a sala como eletricidade estática. Ji-Won cruzou os braços. — Ela não está doente, Min-Ho. — Não ainda — retrucou o médico, com um sorriso provocativo. Hana olhava de um para o outro, sentindo a atmosfera pesada. Era como se o ar vibrasse. Min-Ho abriu o potinho e entregou os hashis para ela. — Come. Por favor. Ela agradeceu e começou a comer. Foi então que percebeu: Ji-Won não tirava os olhos dela. Era um olhar que dizia tudo o que ele nunca admitiria. Ciúme. Preocupação. Confusão. — Eu não pedi comida para você — Ji-Won comentou, tentando parecer indiferente. Mas não conseguiu. Havia amargor na voz. — Não precisa pedir — Min-Ho respondeu. — Ela é minha amiga. Ji-Won recuou um passo, como se aquela frase fosse uma ameaça. Hana engoliu seco, sentindo o coração acelerar. Dois homens completamente diferentes. Um presente. Outro tentando se esconder do que sente. Era demais. Depois de comer, Min-Ho se despediu, deixando um toque leve na mão dela. — Qualquer coisa, me liga. Não importa a hora. Ji-Won observou a cena com a mandíbula tensionada. Quando ficaram a sós novamente, ele falou: — Você confia demais nas pessoas. Hana respirou fundo. — E você confia de menos. O silêncio caiu feito uma lâmina entre eles. Ji-Won passou a mão pelos cabelos, irritado consigo mesmo. — Min-Ho… ele sempre quer salvar todo mundo. — Ele só está tentando ajudar. — E você acha que eu não estou? Hana travou. Ji-Won percebeu tarde demais o que havia dito. A verdade escapou. Ele desviou os olhos, irritado e vulnerável. — Esqueça isso. Hana deu um passo à frente, surpreendendo os dois. — Por que você se importa tanto? Ji-Won ergueu o rosto devagar. — Eu não me importo. — Ele mentiu m*l. Hana sentiu uma coragem estranha subir pelo corpo. Talvez fosse cansaço, ou vontade de deixar de ter medo. — Então por que ficou incomodado quando Min-Ho trouxe comida? Ji-Won fechou os olhos um segundo. Ele estava perdendo o controle. — Você está confundindo as coisas — murmurou. — Estou? — Hana insistiu, a voz baixa, frágil, mas firme. Ji-Won deu um passo em direção a ela. Um passo apenas. Mas suficiente para que o ar queimasse entre os dois. — Hana… — ele disse, e seu nome na voz dele soou como uma confissão. Mas antes que pudesse concluir, o celular dele vibrou. Soo-Yeon. Ela estava na portaria. Esperando por ele. O momento que estava prestes a acontecer se quebrou. Ji-Won recuou imediatamente, como se lembrasse da própria armadura. — Eu preciso ir. Hana não o impediu. Ele caminhou até a porta. Mas, antes de sair, parou. Sem olhar para trás, disse: — Sobre Min-Ho… mantenha distância. Hana franziu o cenho. — Por quê? Ji-Won respirou fundo. — Porque… as coisas com ele sempre terminam em dor. E então ele saiu. Deixando Hana sozinha, comendo as últimas palavras dele como se fossem veneno e cura ao mesmo tempo. Uma fissura tinha se aberto no gelo dele. E aquela fissura… era só o começo.
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