O dia seguinte amanheceu com o céu cinza, e o silêncio do chalé era quase doce demais para o que estava por vir.
Hana acordou com a cabeça encostada no ombro de Ji-Won, o coração leve, a alma calma — por um instante, acreditou que o mundo tinha, enfim, parado de cobrar dela.
Mas o mundo nunca para.
O toque do celular de Ji-Won quebrou o momento.
Ele se afastou devagar, pegou o aparelho e o olhar mudou.
O rosto sereno se fechou.
— O que foi? — Hana perguntou, ainda sonolenta.
Ele respirou fundo.
— Acho que o passado… não gosta de ficar quieto.
Estendeu o telefone a ela.
Na tela, uma notícia:
“Hana Lee: o passado obscuro da mulher que conquistou o CEO da Haneul Corp.”
E abaixo, o texto c***l — fotos antigas, uma cópia distorcida do registro de casamento, o nome do ex-marido, as datas.
A manchete usava palavras frias: “Escândalo, traição, segredos.”
O coração dela despencou.
— Não… não pode ser.
Ji-Won já estava ligando para o assessor de imprensa.
— Descubra quem vazou isso — disse, firme, mas o tremor nas mãos o traía.
Hana levantou-se, caminhando até a janela.
O reflexo dela no vidro parecia de outra pessoa — a mulher que tentou tanto se reconstruir agora exposta para o país inteiro.
— Eles transformaram minha dor em manchete — sussurrou. — Outra vez.
— Hana… — Ji-Won se aproximou.
— Eu não sou uma história pra vender cliques, Ji-Won! — A voz dela saiu trêmula, entre raiva e desespero. — Eu confiei que, longe da cidade, a gente podia respirar… e agora estou sendo julgada por ter amado errado antes!
Ele tentou tocá-la, mas ela recuou.
— Não é culpa sua — disse. — Mas eu não sei se consigo passar por isso de novo.
Ji-Won respirou fundo, forçando a calma.
— Você não vai passar sozinha.
— Já disseram isso antes. — A voz dela quebrou. — E quando ficou difícil, todos foram embora.
Dessa vez ele não respondeu com promessas.
Apenas caminhou até ela, pegou o celular das mãos dela e o colocou de lado.
— Olha pra mim. — A voz dele era firme. — Eu não vou permitir que o seu passado seja usado pra apagar quem você é agora.
Ela o olhou, lágrimas caindo sem força para contê-las.
— Você não pode impedir o que as pessoas vão pensar.
— Talvez não. Mas posso impedir o que elas vão fazer.
Horas depois, o caos se espalhava pela empresa.
O nome de Hana estava em todos os portais, e repórteres aguardavam na entrada.
Ji-Won cancelou todas as reuniões, bloqueou a imprensa, e convocou o conselho.
Quando ele entrou na sala de reuniões, os diretores se levantaram, agitados.
— Senhor Kang, essa situação é grave — começou um deles. — A imagem da companhia—
— A imagem da companhia não é mais importante que a verdade — cortou Ji-Won. — E a verdade é simples: Hana Lee é vítima de uma invasão de privacidade e difamação.
O silêncio caiu.
Um dos conselheiros tossiu, desconfortável.
— Mesmo assim, senhor Kang, a mídia—
— Deixem a mídia comigo — Ji-Won respondeu. — Eu vou lidar com eles pessoalmente.
Hana, por outro lado, se recusava a sair do chalé.
Desligou o celular, afastou o computador, ignorou o mundo.
Mas o mundo insistia em bater à porta, através de notificações, mensagens, lembranças.
Quando ouviu o barulho do carro lá fora, achou que fosse mais um repórter.
Mas era Ji-Won.
Molhado da chuva, exausto, mas determinado.
— Você devia estar na empresa — ela disse, sem olhá-lo.
— Eu devia estar onde você está — respondeu.
Ele tirou algo do bolso.
Uma pasta.
Dentro, cópias de documentos, mensagens e e-mails rastreados.
— O vazamento veio de dentro — explicou. — O nome dela está aqui.
Hana olhou.
E sentiu o estômago revirar.
Yoon-Hee.
Claro.
A mulher que não suportava perder.
Que preferia destruir a ver alguém feliz.
— Eu devia ter previsto isso — Hana sussurrou.
— Ninguém prevê crueldade — Ji-Won respondeu. — Mas a gente pode enfrentá-la.
Ele se ajoelhou diante dela, segurando as mãos dela entre as dele.
— Eu não posso apagar o que estão dizendo. Mas posso te prometer que não vou deixar essa história terminar assim.
As lágrimas dela voltaram, agora silenciosas.
— Por quê, Ji-Won? Por que ainda está lutando?
Ele sorriu triste.
— Porque eu sei o que é perder você. E não quero viver isso outra vez.
Na manhã seguinte, Ji-Won deu uma coletiva de imprensa.
Hana assistiu pela televisão, o coração apertado.
Ele estava sereno, firme.
— A pessoa que vocês estão tentando destruir é a mulher mais forte que conheço — disse diante das câmeras. — O que ela viveu antes de mim não é escândalo. É sobrevivência. E, se isso for motivo de julgamento, então julguem a mim também.
O salão inteiro ficou em silêncio.
Os flashes cessaram.
E, pela primeira vez, o mundo pareceu ouvir.
Hana cobriu a boca, as lágrimas caindo em silêncio.
Não de dor.
De gratidão.
Ele não apenas a defendeu.
Ele a libertou.
À noite, Ji-Won voltou para o chalé.
Encontrou Hana sentada na varanda, com uma manta sobre os ombros.
Quando ele se aproximou, ela se levantou.
Não disse nada.
Apenas o abraçou.
O vento frio passou entre eles, mas o abraço era quente.
— Obrigada — ela sussurrou. — Por não me deixar correr.
— Eu não te deixei correr — ele respondeu. — Eu corri junto.
Ela encostou o rosto no peito dele e fechou os olhos.
Pela primeira vez, não sentia medo do passado.
Porque agora ele não era um peso — era só uma história que já tinha acabado.
E o amor deles, finalmente, começava a escrever a próxima.