Pré-visualização gratuita CAPÍTULO 1 — O SOM DO VIDRO A RACHAR
Marselha tinha aquele cheiro de cidade que já viu demais. Uma mistura de sal e ferrugem, suor e gasolina, onde cada esquina parecia esconder um segredo e cada rosto contava uma história que ninguém queria ouvir. Camila andava depressa pela Rue de la Joliette, com o casaco fino a voar contra o corpo e o cachecol apertado até ao queixo. Os sapatos molhados batiam no empedrado húmido com o ritmo impaciente de quem já está atrasada antes mesmo de sair de casa.
O autocarro tinha-se atrasado — outra vez — e ela tinha quase corrido desde a paragem até ao restaurante “Chez Léon”, onde trabalhava desde que chegou à cidade. Marselha era dura, mas Camila sabia ser ainda mais. Veio de Lisboa com uma mochila, duzentos euros e uma lista de promessas que ninguém fez. Nos primeiros meses, limpou casas, lavou escadas e carregou caixas num mercado de madrugada. Depois veio o restaurante — uma sorte, como Madame Elise gostava de lembrar, sempre com o cigarro apagado preso ao canto da boca.
Camila empurrou a porta com força, o sino tilintou alto e irritado. Madame Elise lançou-lhe um olhar de lado enquanto contava moedas na caixa.
— Atrasada. — disse, sem levantar a cabeça. — Outra vez.
— O autocarro...
— Desculpas não pagam contas, menina. Vai vestir o avental e limpa as mesas. Hoje temos reservas às oito. Aquele.
Aquele. Era assim que se referiam a ele. Nunca dizem o nome. Nunca marcava mesa — aparecia e sentava-se no mesmo canto. Sempre de preto. Sempre sozinho. Sempre com aquele olhar que parecia trespassar a alma de quem o encarasse por mais de três segundos. O homem dos olhos de gelo.
Camila trocou de roupa na pequena arrecadação, prendeu o cabelo num nó rápido e voltou à sala. Estava cheia de pressa, mas o corpo movia-se com precisão. Colocou talheres, dobrou guardanapos, passou panos pelas superfícies. Tudo parecia normal — até que deixou cair um copo.
O estilhaçar foi seco, agudo. Como uma premonição.
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Era quase a hora. As luzes do restaurante estavam mais baixas. O vinho foi colocado a respirar, e o ambiente ganhava aquele silêncio nervoso que antecede o impacto. Camila tentava manter-se ocupada, mas os olhos fugiam sempre para a porta.
19h47.
Ela sabia o horário de cor. Sabia os passos. Sabia que o som da campainha seria diferente, como se o próprio ar reconhecesse a presença dele.
A porta abriu-se. Dante entrou.
Aquele nome ainda não tinha sido pronunciado por ninguém ali — nem por ele, nem por qualquer outro. Mas ela ouvira-o. Numa conversa cortada no beco. Num murmúrio entre dois clientes. “Dante Moreau.” Era o tipo de nome que não se dizia em voz alta.
Alto, terno escuro impecável, cabelo puxado para trás com precisão militar. Olhos cinzentos, como aço antes de se partir. Não precisava de falar para impor respeito — o silêncio dele fazia o trabalho. Passou por ela com um aceno quase imperceptível. Camila seguiu-o até à mesa, serviu-lhe o vinho habitual e manteve a distância.
Durante quase uma hora, ele não disse uma palavra. Mas ela sentia. Sentia os olhos dele sobre si. Sentia o peso do silêncio. Sentia o cheiro daquilo que não sabia nomear — poder.
Quando ele se levantou, deixou a gorjeta — exacta, como sempre. Mas desta vez, parou junto dela.
— Camila. — disse, sem rodeios.
Ela estremeceu. Pois nunca lhe disse o nome.
— Sim? — tentou manter a voz firme, mas o coração já lhe batia nas costelas.
— Tens bons ouvidos. E sabes quando não fazer perguntas. Isso é raro.
— Eu... só faço o meu trabalho.
— Pois fazes. E bem. — ele inclinou ligeiramente a cabeça. — Quando terminares, vem cá fora.
Ela quis perguntar “porquê”, mas não o fez. Sabia que perguntar seria inútil. Sabia que a resposta não viria — e que, mesmo que viesse, não seria a verdade.
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Do lado de fora, o ar estava mais frio. Camila esfregou os braços e esperou. Ele apareceu, como uma sombra bem vestida, a segurar um maço de cigarros.
— Fumas? — perguntou, oferecendo-lhe um.
Ela recusou com um aceno. Ele acendeu um para si, o brilho do isqueiro a iluminar por um segundo o contorno dos olhos dele.
— Porquê eu? — perguntou, finalmente.
— Porque és invisível. E os invisíveis veem mais do que deviam.
— E isso é um problema?
— Isso... é uma oportunidade.
Ele estendeu-lhe um envelope. Ela não o tocou.
— O que é isto?
— Um começo. Ou um fim, depende do que fizeres com ele. — E, antes de ela responder, virou-lhe as costas e desapareceu no escuro como se tivesse sido engolido pela noite.
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O envelope ficou fechado até Camila chegar a casa. O quarto minúsculo no quinto andar de um prédio sem elevador, estava gelado. O aquecedor elétrico não funcionava e as janelas deixavam entrar vento pelas frestas. Mas aquilo já não importava.
Sentou-se na cama. Abriu o envelope com dedos a tremer.
Lá dentro, uma fotografia. Um rosto que não conhecia — ainda. E um nome escrito num cartão branco: Mateo Ricci.
Junto, um número de telefone.
Mais nada.
Sem contexto. Sem explicações.
Mas algo dentro dela soube: aquilo era um teste. E ela já o tinha começado.
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Nos dias seguintes, Dante não apareceu. Mas o número ficou gravado na cabeça dela, como seimar de ferro quente. Camila voltou ao trabalho, cumpriu horários, lavou pratos, atendeu clientes. Mas por dentro, tudo se movia. Cada gesto, cada palavra, cada silêncio, era diferente. Ela já não era a mesma.
Na terceira noite, ela ligou para o número.
Uma voz masculina atendeu, impaciente.
— quem é?
— Estou à procura de... Mateo Ricci.
Silêncio. Um estalido. Um suspiro.
— Quem fala?
— Uma amiga do Dante.
Outro silêncio. Depois, a ligação caiu.
Ela ficou a olhar para o telefone como se este fosse explodir.
No dia seguinte, Mateo apareceu no restaurante.
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Era mais novo do que esperava. Rosto bonito, barba bem feita, olhar de quem sabia demasiado para a idade que tinha. Usava um casaco de cabedal e luvas de couro, apesar de o dia não estar assim tão frio.
Sentou-se no mesmo lugar onde Dante costumava sentar-se.
Camila foi até lá, coração aos saltos.
— Ricci? — perguntou em voz baixa.
Ele sorriu. Um sorriso que não chegava aos olhos.
— Então és tu. — disse, e não era uma pergunta.
Ela assentiu.
— Sabes o que acontece às pessoas que dizem sim ao Dante?
Camila engoliu em seco.
— Aprendem depressa.
Mateo inclinou-se para a frente.
— Ou morrem depressa. — disse, e sorriu.