Tomei um banho muito demorado, tentando apagar o peso da situação que estava vivendo. Odiei cada segundo da minha interação com o Coringa. Ele foi desnecessariamente rude, e até chamar isso de "rude" parecia um eufemismo. Coringa tinha o dom de ser explosivo e grosso, e eu simplesmente odiava isso. Nunca tive que lidar com alguém tão m*l-educado de uma forma tão direta, e isso me irritava profundamente. Era como se cada palavra dele fosse uma ofensa, uma pedra jogada na minha direção.
Desliguei o chuveiro, o barulho da água caindo finalmente cessando, e saí do banheiro, me enrolando na toalha. Me olhei no espelho, observando meu reflexo. Estava, fisicamente, intacta, o que era impressionante considerando o caos das últimas horas. Agora, ali estava eu, refém de bandidos armados até os dentes, com um homem me mantendo prisioneira.
Sem telefone, sem contato com amigos ou familiares. Na verdade, eu não tinha nada. Apenas a mim mesma e a sorte — se é que ela estava ao meu lado. No entanto, uma coisa era clara: Coringa não iria me deixar partir tão facilmente. Eu estava em suas mãos, e o pior de tudo era que teria que jogar seu jogo se quisesse sair dessa viva.
Abri a porta do banheiro apenas o suficiente para espiar. Parecia que eu estava sozinha. Meu estômago roncava alto de fome, e olhei para a janela fechada. Lá fora, o sol brilhava, e ainda dava para ouvir o som distante de crianças brincando. Como eu queria estar lá fora, livre, em vez de trancada aqui dentro, vivendo um pesadelo.
Vesti as roupas que ele havia deixado para mim: um short simples de pano e uma camiseta que, claramente, era dele. Sem calcinha. Ótimo, como se a situação já não estivesse desconfortável o suficiente. Fui até o banheiro pegar meu pijama sujo e coloquei no cesto. Depois, lavei a única calcinha que tinha comigo, uma peça confortável, mas que agora estava completamente fora de uso.
Procurei um lugar discreto para pendurá-la e, finalmente, saí do quarto, descendo as escadas com o coração pesado. Lá estava ele, me esperando no final da escadaria.
— Vai secar a caixa d’água agora? — Ele ergueu uma sobrancelha, o tom de voz provocativo.
— Eu estava suja — resmunguei, sem querer prolongar a conversa.
— Eu sei — ele deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia. — Te arrumei isso.
Ele jogou um pedaço de pano na minha direção, e eu o peguei no ar. Ao olhar para o que ele me entregou, percebi que era uma calcinha fio dental de renda. Minúscula. Do tipo que não se usa no dia a dia.
— Não vou usar isso. — Resmunguei, devolvendo a peça a ele. — Pode pegar de volta.
— Tu é muito marrenta, né? — Ele revirou os olhos. — Te arrumei o bagulho na moral.
— Sério, Coringa? Tu acha que mulher usa isso o tempo todo? — Franzi a testa, incrédula. — Isso é desconfortável!
— E não usa? — Ele me encarou, genuinamente curioso.
— Claro que não! — Bufei, sentindo o constrangimento me dominar. — Isso é algo que se usa quando... — Pausava, sem coragem de terminar a frase. — Deixa pra lá!
— Ah, não. Agora você vai terminar — ele insistiu, cruzando os braços, aguardando.
Limpei a garganta e respirei fundo, sentindo o rosto esquentar.
— Usamos isso quando... vamos t*****r. Mas, mesmo assim, tem que ser algo especial — murmurei, olhando para o chão, envergonhada.
Ele riu, mas ignorei sua presença o máximo que pude. A sala parecia cada vez menor com ele ali. Ele finalmente quebrou o silêncio de novo, empurrando uma marmita de isopor em minha direção.
— Trouxe marmita pra tu. — Seu tom era despreocupado, como se tudo fosse normal.
Meu estômago roncou alto, e eu praticamente corri até o balcão para me sentar e abrir o pacote.
— Tá com fome, né? — Ele riu, se dirigindo à cozinha.
A cozinha estilo americana era ampla e bem moderna. Não conseguia imaginar quem teria desenhado uma casa assim para um bandido como ele.
— Tô. Não como nada desde ontem — resmunguei, abrindo a tampa do recipiente.
Ele me passou um garfo, e finalmente comecei a comer. Para minha surpresa, a comida era realmente boa. Frango empanado, purê de batata, arroz e feijão. Era simples, mas exatamente o que eu precisava naquele momento.
— Amanhã tu vai sair comigo — ele disse de repente, sem tirar os olhos do celular.
— Pra onde? — Perguntei, desconfiada.
— Pro baile. — Ele respondeu com naturalidade, sem me encarar.
— Nem morta. — Retruquei, firme.
Ele riu de novo, mas dessa vez seu tom era mais sério. — Tu vai viva ou morta, docinho. Você escolhe o estado.
— Ridículo — resmunguei.
— Olha a boca — ele me encarou por alguns segundos antes de continuar comendo. — Come logo, a gente vai sair pra arrumar uma roupa pra tu.
— Nunca fui a um lugar desses, Coringa. Prefiro ficar aqui — implorei, olhando-o nos olhos.
— Não. Tu vai comigo. Eu não confio em te deixar sozinha aqui. — Ele deu uma risada irônica.
— Tu me deixou sozinha até agora... — Cruzei os braços, franzindo o cenho.
— Não. Eu sabia de tudo. Mas agora, tu vai comigo, e fim de papo. — Ele levantou-se, caminhando em direção à sala. — E, ó, não tenta dar uma de espertinha, viu? Não quero minha mulher andando por aí sem calcinha.
— Eu NÃO sou tua mulher! — Gritei, indignada.
— Vitória, Vitória... — Ele respondeu com um tom zombeteiro, desaparecendo escada acima.
Agora, estava sozinha novamente. Tinha que lidar com um homem perigoso e manipulador, e, apesar de toda a tensão, sabia que as coisas poderiam piorar ainda mais. Na vida, sempre há espaço para algo pior.