O estacionamento estava vazio e escuro agora. Pedro andava ao meu lado, me acompanhado até o carro. Fiquei a noite inteira tentando avançar e ele tentando aumentar a barreira entre nós. Ele era mais que difícil. A cada passo que eu dava para frente, ele dava dois para trás, fugindo de mim.
Chegamos até o meu carro.
- Vai me contar como conseguiu meu número agora? – ele perguntou.
Sorri e me virei para ele, me escorando na lateral do carro.
Ele parou de frente para mim, com as mãos nos bolsos, esperando que eu respondesse.
- Então... – comecei – Vamos dizer que eu tenho um irmão que trabalha para o governo e tem acesso a algumas informações... – deixei o resto da frase no ar.
Ele tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços, me encarando.
- Pediu para o seu irmão pesquisar sobre mim? – ele perguntou.
- Não exatamente – botei as mãos nos bolsos de trás da minha calça – Eu mandei a placa do seu carro pra ele. Ele puxou uma ficha com os dados do proprietário.
Ele balançou a cabeça na negativa, como se não acreditasse no que estava ouvindo, e começou a rir.
- Uau, isso foi... – ele pensou em uma palavra, mas pareceu não conseguir achar uma que se encaixasse no contexto – Você é louca.
- Prefiro criativa.
- Bem criativa – ele arregalou os olhos – Quase uma psicopata.
Eu ri.
- Talvez eu seja uma.
- É... – sua risada foi se desmanchando gradativamente – Talvez você seja.
Ele me fitou por alguns segundos sem dizer nada. Ficamos em silêncio, encarando um ao outro, até ele pigarrear e romper o momento.
- Então acho que eu já vou indo – ele deu alguns passos para trás – Até mais.
Ele começou a se virar de costas.
- Ah, qual é?! – eu disse – Tive esse trabalho todo e não vou ganhar nem um beijo?
Ele se virou para mim novamente e sorriu, já se preparando para me dar um não bem seco.
- Na bochecha – eu disse, rapidamente, e bati o dedo duas vezes na minha bochecha.
Ele fechou a boca e me encarou, pensando se faria ou não. Depois do que pareceu a eternidade, ele suspirou e veio na minha direção.
- Por que não? – ele disse.
Sorri. Ele se aproximou e inclinou a cabeça para me dar o beijo. Senti seus lábios na minha bochecha e não pude deixar aquela chance escapar.
Virei meu rosto e abocanhei seus lábios com os meus. Em um primeiro momento, ele ficou surpreso, mas não se afastou. Na verdade, ele correspondeu.
Foi um beijo lento e molhado, mas foi mais rápido do que eu queria. Ele rompeu o contato e me encarou, sorrindo como se não acreditasse em mim.
- Você é boa – ele disse – Muito boa.
Sorri.
- Eu sou ótima.
Ele começou a se afastar, ainda com o pequeno sorriso nos lábios.
- Boa noite, Giovana.
- Boa noite, Pedro.
Ele me encarou por mais dois segundos e depois se virou e se afastou.
Fiquei o observando se afastar até desaparecer de vista. Passei a língua pelos meus lábios, com o gosto dele ainda em mim.
Meu Deus, se aquele cara era na cama tão bom quanto era beijando, agora que eu não desistiria mesmo.
...
Terminei de arrumar os pratos em cima da mesa. Elizabeth estava terminando de colocar os pratos de comida, exatamente onde eu tinha dito que deveria. Quando ela terminou, dei uma olhada para ver como tinha ficado.
Elizabeth se postou ao meu lado e olhou para a mesa, junto comigo.
Inclinei a cabeça e inspecionei os pratos e talheres perfeitamente enfileirados entre as velas acesas.
- Acha que exagerei com as velas? – perguntei.
- Bastante – ela respondeu.
- Também acho. Retire todas, por favor.
Ela riu e começou a apagar as velas, uma por uma.
A campainha tocou nessa hora.
- Deve ser eles – eu disse – Se apresse.
Saí da sala de jantar e entrei na sala de estar. Meu pai estava descendo a escada, ajustando a gravata borboleta em seu pescoço. Olhei para ele e suspirei.
- Pai, é só um jantar – eu disse – Não precisava disso tudo. Para que um terno?
- Arruma para mim – ele pediu e esticou o pescoço para que eu pudesse arrumar sua gravata.
- Que exagero – eu disse.
- Vou conhecer a namorada do seu irmão e provável futura mãe dos meus netos – ele disse – Não é exagero.
Terminei de arrumar sua gravata e o encarei.
- Nem ouse dizer essas coisas na frente deles. Nós não queremos assustá-la.
Ele riu.
- Minha boca é um túmulo.
A campainha tocou de novo.
- Já vai! – gritei e saí em disparada até a porta.
Meu pai veio do meu lado e abriu a porta delicadamente.
- Boa noite, família – Marcus deu um grande sorriso e abriu os braços, me dando um abraço de urso – Maninha – depois ele se voltou para o meu pai – Pai.
- Boa noite, filho.
Marcus deu um passo para o lado e puxou a garota ao seu lado para frente. Ela tinha estatura mediana, cabelos loiros, curtos e lisos. Seus olhos eram duas bolas grandes e verdes e ela tinha um sorriso encantador.
- Pessoal, essa aqui é Melissa, minha namorada. Melissa, esse é meu pai e essa é minha irmã.
- Oi – eu disse e me aproximei, dando um abraço nela.
- Prazer – ela disse – Ouvi muito falar de você.
- Ah, eu também – eu disse – Ele falava de você o tempo todo.
- Olá, querida – meu pai cumprimentou ela.
Marcus se aproximou de mim e me deu um beliscão no braço.
- Ai!
- Cuidado com a boca – ele sussurrou.
- Eu não disse nada! – protestei.
- Vocês têm uma casa muito bonita – Melissa dizia enquanto olhava ao redor.
- Obrigado – meu pai fechou a porta e apontou para a sala de jantar – Por aqui, por favor.
Marcus segurou a mão dela e a guiou até lá, mostrando algumas coisas interessantes que haviam na sala de estar, como alguns quadros na parede.
Nos sentamos na mesa. Eu sozinha de um lado, meu pai na ponta e os dois pombinhos de frente para mim.
- Então, Melissa... – meu pai começou – Quantos anos você tem?
- Vinte anos – ela respondeu.
- Você faz faculdade? – ele perguntou.
Revirei meus olhos discretamente, enquanto botava comida para mim. Sempre esse assunto para me atormentar. E eu tinha certeza que meu pai tinha tocado nele propositalmente. Será que as pessoas não entendiam que eu m*l tinha sobrevivido ao ensino médio?
- Faço – ela respondeu – Estou cursando farmácia.
- O que se faz nisso? – perguntei.
Ela riu da minha pergunta, não de um jeito arrogante, mas de um jeito inocente, como se tivesse mesmo achado graça.
- Hm... – ela parou para pensar – Dá para ser perito fazendo esse curso.
- Uau, que bacana – e era mesmo – É o que você quer?
Ela balançou a cabeça na positiva.
- Espero que você consiga – meu pai disse.
- Obrigada – ela sorriu gentilmente – Mas ainda tem muito caminho para percorrer.
- Dar o primeiro passo já é meio caminho andado – Marcus disse e beijou a mão dela, com um grande sorriso no rosto.
Eles começaram a conversar sobre outra coisa, mas eu me perdi enquanto observava os dois. Eu nunca tinha visto os olhos de Marcus brilharem tanto quanto estavam brilhando naquele momento e isso me deixou bem. Vê-lo feliz daquele jeito, com alguém que também parecia se sentir assim em relação a ele, era mais do que eu poderia ter desejado e isso era ótimo.
- Então, você mora com seus pais? – meu pai perguntou, chamando minha atenção.
Era ótimo que ele entrasse nesse assunto. Eu queria mesmo falar sobre isso.
Ela deu um sorriso hesitante e olhou para Marcus de relance, depois se voltou para meu pai.
- Por enquanto sim – ela respondeu.
Olhei dela para Marcus e entendi tudo.
- Vocês vão morar juntos? – perguntei.
Os dois se viraram para mim e me encararam. Ela pareceu surpresa.
- Como você sabe? – ela perguntou.
- Eu tenho mestrado e doutorado em ler ele – apontei com o garfo para Marcus.
- Mas já vão morar juntos? – meu pai perguntou – Vocês não estão juntos só há dois meses?
- É, pai – Marcus começou – Mas ela quer sair da casa dos pais e eu quero que ela vá morar comigo. Simples.
- Isso é ótimo, m...
- Ah, eu te entendo muito bem – cortei meu pai antes que ele tivesse a chance de deixar o clima tenso – Uma hora todo mundo tem que sair da casa dos pais, não é?
Marcus olhou de mim para o meu pai e resolveu que estava na hora de mudar de assunto.
- Uou!!! – ele bateu uma mão na outra com força – Quem viu o jogo ontem?!
No fim, a noite não tinha sido r**m e todos nos divertimos muito. As horas passaram rápido demais e cheguei à conclusão de que gostava de Melissa. Ela era engraçada e muito educada e não tinha nada a ver com aquela outra que ele tinha levado lá alguns anos atrás.
Quando o jantar acabou, eu e meu pai acompanhamos os dois até a porta. Dei um abraço em Melissa e me despedi. Marcus veio até mim e me abraçou enquanto ela se despedia do meu pai.
- Obrigado por ficar com a boca fechada – ele disse no meu ouvido.
- Mas eu falei a noite inteira.
Ele riu.
- Mas não disse nada que não devia.
- Ah, isso é verdade – eu sorri.
Ele começou a se virar de costas, mas eu o chamei de novo.
- Oi? – ele me olhou.
- Ela não tem cara de v***a – sussurrei.
Ele riu e se virou, se despedindo do meu pai e indo embora.
Subi para o meu quarto e me atirei na cama. Antes de dormir, fiquei rolando por alguns minutos, fazendo a mesma coisa que tinha feito na noite anterior: pensando nele.
...
Rodei a cidade por meia hora até achar o prédio. Estacionei meu carro em frente à entrada principal e olhei o relógio.
Eram seis da tarde, a hora exata que ele deveria sair do trabalho. Mais alguns minutos e ele estaria em casa.
Abri o porta luvas e peguei um dos gibis da Mônica que havia comprado no dia anterior. Deitei no banco e estiquei as pernas, apoiando o calcanhar na janela do lado do passageiro. Abri o gibi na página que havia parado e comecei a ler.
Ele demoraria pelo menos dez minutos para chegar da oficina até ali, e eu não passaria esse tempo todo fazendo nada. E depois, eu não precisava me preocupar em ficar prestando atenção nele chegar. Ele veria meu carro e saberia que era eu.
Liguei o som baixinho enquanto lia.
Estava concentrada, terminando de ler o terceiro capítulo, quando ele resolveu aparecer.
- Eu fico me perguntando quantas pessoas tem um Jaguar vermelho na cidade.
Sorri e abaixei o gibi.
Ele estava inclinado sobre a janela, me fitando. Ele sorria como se não acreditasse em mim. Sua camiseta, só para variar, era em gola V e tinha manga comprida, azul. O medalhão brilhava em seu pescoço.
- Estava pensando em quando você iria aparecer de novo – ele falou – Até que demorou.
Tirei meus pés da janela e sentei direito, jogando o gibi de lado, em cima do banco do passageiro.
- Oi para você também, Pedro – eu disse.
Ele fitou o gibi em cima do banco.
- Turma da Mônica? – ele ergueu uma sobrancelha e me encarou.
- Qual é... É o melhor gibi que tem.
Ele riu.
Olhei para seus braços. Ele estava carregando um pacote daqueles de comida para viagem. Respirei fundo e senti o cheiro, tentando identificar de onde era, já que não conseguia ler o nome. Não era do Mcdonald.
Meneei a cabeça em direção ao saco.
- O que você tem aí? – perguntei.
- Comida chinesa – ele respondeu.
- Interessante – sorri para ele – Eu adoro comida chinesa.
Eu odiava comida chinesa.
Ele riu e balançou a cabeça.
- É claro que você adora.
- Não vai me convidar para subir? – perguntei e olhei para cima, indicando o prédio.
Ele me encarou em silêncio, com os olhos estreitos.
- Eu tenho alguma escolha?
Eu ri.
- Nenhuma.
- Foi o que eu pensei – ele se desencostou do carro.
Abri a porta e saí atrás dele.
- Você não deveria andar por aqui com a janela do carro aberta desse jeito – ele falou, enquanto abria o portão – A não ser que você queira perder seu belo Jaguar.
- Eu gosto de rir na cara do perigo.
Ele riu e fechou o portão atrás de si.
- Você mora sozinho? – perguntei.
Ele me lançou um olhar desconfiado e não respondeu. Entendi isso como uma resposta afirmativa.
Subimos cinco lances de escada até ele parar e abrir uma das milhões de portas. Me apoiei na parede, cansada, enquanto ele abria a porta.
- Um elevador não seria nada r**m – eu disse.
Ele sorriu.
- Um elevador seria ótimo.
Ele abriu a porta e entrou, acendendo a luz.
- Hã... é um apartamento simples, então... – ele me olhou, enquanto eu entrava e inspecionava tudo.
Não era muito grande. De onde eu estava podia ver tudo. Tinha uma cozinha americana com o básico: alguns armários, fogão e geladeira. A cozinha era ligada a uma pequena sala com um sofá e uma TV de poucas polegadas, nada mais. Na outra parede havia uma porta, que eu diria que levava ao quarto, e na parede ao lado, uma saída de emergência. Realmente era bem simples, mas era bem arrumado e parecia confortável.
- Eu gostei – eu disse.
- Fala sério... – ele bufou – Seu quarto deve ser maior que isso aqui.
- Realmente – fechei a porta atrás de mim – Mas eu trocaria meu quarto na casa do papai por um apartamento assim, desde que ele fosse meu.
Ele botou as coisas em cima do balcão e me olhou.
- Jura?
Dei de ombros e balancei a cabeça na positiva.
Ele sorriu e começou a tirar a comida de dentro dos sacos. Me aproximei dele e, lentamente, afastei as sacolas dele e o empurrei alguns passos para trás, com as mãos em seu peito.
Ele me fitou e sorriu.
- Não faça eu me arrepender de ter te convidado para subir – ele falou.
- Você não convidou.
Como eu estava de salto, eu ficava quase do tamanho dele, o que era vantagem. Me inclinei em sua direção, aproximando minha boca da sua. Tudo que eu queria era experimentar aqueles lábios de novo.
Ele me segurou firme pelos pulsos e me parou no caminho, depois deu um pequeno passo para trás.
- Que tal você comer? – ele disse.
- É o que eu estou tentando fazer.
Ele riu.
- Eu estava falando da comida.
- Eu não – dei um passo para trás e me soltei dele, dando a volta no balcão – Mas isso serve também.
Sentei em uma das banquetas e fiz cara de tédio enquanto ele puxava as sacolas para si e continuava o que estava fazendo antes.
Eu não estava desistindo, só estava indo devagar. Ele era muito diferente dos outros caras, portanto, as circunstâncias eram diferentes. Eu nunca conseguiria ele do jeito que eu conseguia os outros. Eles eram sempre fáceis demais.
Encarei ele enquanto ele tirava uma caixa de dentro da sacola, de onde vinha um cheiro maravilhoso, e depois se virava de costas, abrindo um dos armários e pegando algo lá.
Me perguntei onde ele tinha estado todo aquele tempo. Comparando ele agora com os outros caras com quem já tinha ficado, eu nem conseguia entender porque havia perdido meu tempo com os outros. Não que eles não fossem tão bonitos quanto Pedro, mas eles não tinham aquela coisa que ele tinha. Aquela coisa que me desafiava e me tentava.
Ele colocou uma tigela funda na minha frente e depois despejou o que estava na caixa ali. Encarei fixamente o que parecia macarrão, mas tinha várias outras coisas desconhecidas juntas.
- Adora comida chinesa, não é? – ele perguntou.
Levantei o rosto para ele. Ele me encarava com uma sobrancelha erguida e um sorriso no rosto.
- Na verdade, eu não faço a mínima ideia do que seja isso – admiti.
- Percebi.
Eu ri enquanto ele tirava alguma outra coisa de dentro da sacola. Ele esticou dois palitinhos para mim.
- Isso é um daqueles pauzinhos que os j*******s usam para comer? – perguntei, pegando os pauzinhos na mão.
- Exatamente – ele arrastou a tigela para mais perto de mim – E isso se chama Yakisoba.
Fiz uma careta. Eu sabia o que era, claro, mas nunca tinha tido vontade de experimentar. Não gostava da culinária oriental.
- Belo nome – comentei.
- O que importa é o gosto – ele meneou a cabeça para o Yakisoba – Experimenta.
Peguei os pauzinhos na mão, tentando firmá-los entre os dedos. Na primeira tentativa, deixei um deles cair, mas o peguei e tentei novamente. Na segunda tentativa os dois caíram e eu me dei conta que eu não servia para comer com aquilo.
Pedro ria de mim enquanto me observava tentar segurar os pauzinhos.
- Você está me desconcentrando – eu disse.
Tentei de novo e, na terceira tentativa, consegui firmá-los entre os dedos. Dei um sorriso vitorioso, mas descobri que tinha cantado vitória cedo demais. A pior parte não era conseguir segurar aquilo, e sim usar aquilo.
Tentei pegar o macarrão com eles diversas vezes, mas todas foram frustradas. Enquanto Pedro ria mais e mais, o máximo que eu consegui fazer foi levar o macarrão próximo a minha boca e deixá-lo escorregar, caindo na tigela e espirrando molho na minha blusa.
Abaixei a cabeça para ver o estrago. A blusa era branca, o que queria dizer que eu a tinha perdido para sempre.
- Era uma vez uma blusa... – eu disse e voltei a olhar para Pedro, que ainda ria – Escuta, você não tem um garfo aí, não?
Ele cruzou os braços e os apoiou no balcão.
- Ah, quê isso... Vai desistir tão fácil assim?
Estreitei os olhos para ele.
- Isso foi um desafio? – perguntei.
Ele me encarou.
- E se tiver sido?
- Então eu vou ser obrigada a aceitá-lo para que eu possa provar a você que eu sou capaz.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, apenas me encarando.
- Então é um desafio – ele disse, por fim.
Sorri e reposicionei os pauzinhos na minha mão. Dessa vez, tentei pegar o macarrão com segurança e, dessa vez, eu quase consegui levá-lo até minha boca, mas ele escorregou de novo. E de novo minha blusa sofreu por isso.
Pedro riu.
- Acho que não, hein?!
- Não é possível – eu disse e encarei os pauzinhos de cara feia.
- Deixa eu te ajudar – Pedro deu a volta no balcão e se postou atrás de mim – Faz assim...
Ele se inclinou para poder pegar minha mão com a sua. Senti seu peito em contato com minhas costas e um calor percorreu todo o meu corpo. Ele segurou minha mão direita com a sua e posicionou os pauzinhos do jeito certo.
Seu rosto estava a centímetros do meu. Virei o rosto e o encarei enquanto ele se concentrava em tentar pegar o macarrão com os pauzinhos. Percorri seu rosto com os olhos até chegar em sua boca e pousar lá.
Observei um sorriso se formar ali e logo em seguida ele disse:
- Você deveria estar prestando atenção nos hashi.
- Talvez a sua boca seja mais interessante – falei, ainda sem tirar os olhos de seus lábios.
Ele desviou o olhar para mim e me encarou por dois longos segundos, até que ele mesmo rompeu o silêncio.
- Eu vou pegar um garfo para você – ele disse e soltou minha mão.
Senti o calor de seu corpo ir embora e resmunguei mentalmente. Por que ele tinha que ser tão difícil?! Quando eu achava que estava perto de conseguir algo, ele dava um passo para trás e se distanciava.
Meu celular tocou nessa hora.
A foto de Jennifer bêbada e com bigode de cerveja apareceu na tela. Pensei em recusar, mas se fizesse isso, ela me mataria depois, então atendi.
- Alô.
- Hei, amor da minha vida! Está fazendo algo agora?
Fitei Pedro enquanto ele procurava por algo dentro das gavetas.
- Sim – respondi.
- Ah não, sério?! – ela pareceu decepcionada.
- Sim – respondi de novo.
- Vai ter uma festa na orla hoje e eu ia te chamar – ela falou.
- Pois é, não vai dar – eu disse.
Pedro se voltou para mim com um garfo na mão.
- Aqui – ele disse – Os pauzinhos, por favor – ele falou pauzinhos debochando da minha cara.
Estreitei os olhos para ele e entreguei os pauzinhos em sua mão.
- Espera aí... Onde você está? – Jennifer perguntou.
- Hm... – pensei em uma resposta.
Será que ela iria me bater se eu dissesse que estava na casa de um cara comendo Yakisoba com ele? Acho que sim.
- Estou em casa – eu disse.
Pedro me encarou e ergueu uma sobrancelha.
- Mentira – Jennifer falou – Essa não é a voz do seu pai nem do seu irmão. Quem é esse cara?
- Ninguém – falei.
- Quem é esse cara, o que você está fazendo com ele e o que são os pauzinhos?!
- Jennifer, depois a gente se fala, tudo bem?
- Nã...
Desliguei o celular na cara dela e imediatamente o coloquei no silencioso, para que ela não me incomodasse quando ligasse trinta mil vezes querendo satisfações.
- Então você está em casa? – Pedro perguntou enquanto comia o Yakisoba.
Em vez de responder, apenas peguei o garfo e experimentei a macarronada à la chinesa. Parecia nojento, mas no fim eu até que achei muito bom.
- Isso é muito bom! – eu disse enquanto botava mais para dentro.
Pedro riu.
Continuamos a comer o Yakisoba em silêncio. Quando terminamos, Pedro jogou as coisas no lixo e botou a tigela e o garfo dentro da pia.
Ele se virou para mim e botou as mãos nos bolsos.
- Bom, acho que agora é hora de você ir.
- Não se trata uma visita assim – eu disse, descendo da banqueta e me aproximando dele lentamente – É falta de educação mandar alguém ir embora.
- Você não é uma visita – ele falou.
Sorri e levei as mãos até seu pescoço, arrumando a gola de sua camiseta. Encarei sua boca e fui me aproximando lentamente de seus lábios. Mas é lógico que ele não deixou eu chegar lá.
Ele segurou meus pulsos e me afastou, depois começou a me empurrar suavemente em direção a porta, ainda me segurando, como uma forma de manter a distância entre nós dois.
- Já está na hora de você ir embora – ele repetiu.
- Mas eu quero ficar.
- Essa não é uma opção.
Ele parou de me empurrar e me olhou fixamente. Depois, lentamente, ele se inclinou em minha direção, ainda me encarando.
Por um segundo eu achei que ele iria ceder bem ali, mas em vez de me beijar ou fazer algo do tipo, ele só girou a maçaneta da porta atrás de mim e a abriu, depois se afastou.
- Boa noite, Giovana – ele deu a deixa.
Revirei os olhos e bufei.
- Qual o seu problema? – perguntei – Não gosta de mulheres?
- Acho que você já me perguntou isso antes – ele disse – E acho que eu já respondi.
- Só para confirmar – o incitei.
Ele riu e passou a mão no queixo.
- Vamos dizer que eu não sou o seu tipo de cara.
Cruzei os braços e estreitei os olhos para ele.
- Qual é o meu tipo de cara?
Ele cruzou os braços e pareceu pensar na resposta.
- Você quer uma resposta educada?
- Eu quero a que você está pensando agora mesmo – disse.
- Então tá – ele suspirou e botou as mãos nos bolsos – Eu não sou o tipo de cara que sai com qualquer uma.
Se ele tinha acabado de pisar em cima do meu ego? Sim, ele tinha. Se ele tinha ferido meu orgulho? Demais. Se tinha doído? Muito. Se eu deixei transparecer? Jamais. Se agora eu estava ainda mais atiçada? E como.
Sorri em sua direção, pensando que desse jeito ele só deixava as coisas mais divertidas para mim. Se o objetivo dele era me fazer dar o fora, ele estava fazendo tudo errado. A cada vez que ele se provava mais difícil, o fogo dentro de mim só aumentava.
- Então... – comecei – Basicamente, você está dizendo que as chances de eu conseguir o que eu quero são...
- Nulas – ele completou por mim.
Estalei a língua e o encarei intensamente. Olho no olho.
- Isso é um desafio? – perguntei.
Ele sorriu e balançou a cabeça na positiva.
- Você não desiste, não é?
- Jamais – falei e dei um passo para trás – Mas eu encerro a noite por aqui. Você já feriu meu ego o suficiente por hoje. Preciso me recompor.
Ele apoiou o ombro no batente da porta com um sorriso no rosto, me observando enquanto eu me afastava.
- Fico feliz em ouvir isso – ele disse.
Dei um sorriso cínico.
- Mas isso não significa nada – dei de ombros e virei de costas – Boa noite, Pedro.
Me dirigi até as escadas e comecei a longa jornada até o térreo.
Peguei meu celular no bolso e dei uma olhada nele. Havia sete ligações perdidas da Jennifer, o que queria dizer que ela iria me matar. Cliquei no nome dela para retornar a ligação, mas pensei melhor e voltei a guardar o celular no bolso. No dia seguinte eu falaria com ela.
Olhei para trás uma última vez e, mesmo não conseguindo mais o ver, imaginei seu sorriso em contraste com seus olhos negros e aquele corpo definido por baixo das roupas. Calor percorreu minha espinha e meu estômago afundou.
Deus, o que ele estava fazendo comigo?!
Eu já havia me interessado por muitos caras, mas nada como aquilo. Até aquele momento eu nunca tinha ficado tão caída por alguém como eu estava por ele.